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Portões - Epitáfio da Terra (Teaser do Livro)


                          2 - Epitáfio da Terra
                                                                   Por Marcelo Santoro

                                          I

- Há algo errado, não há?
- Comigo?
- Não exatamente com você. Acho que não é nada com você. Mas existe alguma coisa que não está bem.
Matheus fitava o rosto de Cássia e estava cansado. De repente imaginou como seria quando alcançasse os quarenta, cinqüenta, sessenta anos. Ficaria ainda mais cansado e chateado? As perspectivas diminuiriam ou horizontes se ampliariam? Com vinte e cinco anos às vezes acreditava que seria capaz de cortar os pulsos em determinadas noites... Ao redor, o burburinho do shopping só fazia aumentar a irritação e decidiu que não responderia coisa alguma para Cássia. Estava cansado de briguinhas com a namorada. Um grupo de amigas dela passou em frente a eles fazendo algazarra e a carregaram pelo braço enquanto fofocavam alto e olhavam as vitrines. Cássia ainda virou o rosto uma ou duas vezes para trás encarando Matheus e tentando acompanhar as meninas sem tropeçar. Por fim desapareceu numa esquina lá adiante. Matheus arrancou do bolso traseiro da calça a carteira e de dentro dela um pequeno cartão magnético onde se lia “Game In”. A praça de alimentação estava particularmente barulhenta hoje, bem melhor arriscar umas bolas na loja de diversões eletrônicas onde poderia ficar entretido consigo mesmo. Foi caminhando devagar enquanto continuava a refletir sobre a própria vida. “Algo errado”. Claro que existiam coisas erradas. Achava-se jovem demais para ter uma namorada colada no seu pé, como um chiclete na sola de um sapato, levou bomba em oitenta por cento das matérias na faculdade (e aquela não era exatamente uma grande faculdade), os amigos só deixavam-no ainda mais deprimido (que tal apertar uma erva hoje na casa do seu tio, hein Matheus?), os animais estavam em extinção junto com o caráter e os bons modos, o tempo preparava-se para virar e trazer muita chuva para o fim de semana e ele não conseguia deixar de freqüentar este shopping idiota. “Sim, minha cara Cássia, há um milhão de coisas erradas e você parece ser uma delas”. Entretanto admitia que o rosto da namorada espelhava aflição. Um tipo de aflição que se faz notar por baixo da pele e muitas vezes só por quem realmente conhece a pessoa. Daquele tipo que fica muito bem guardada atrás de sorrisos e gestos corriqueiros, mas que está lá e pode afogar uma pessoa aos poucos. Ela poderá morrer sem oxigênio e nem mesmo o salva-vidas seria capaz de ajudá-la, pois não consegue ouvir o grito de socorro.
Prosseguiu dobrando à esquerda e logo depois à direita, evitando esbarrar na correnteza de pessoas que vinham em fluxo contrário com pressa e sem nenhuma idéia do porquê de tanta pressa. Um ruído diferente se destacou acima da algaravia geral e chamou atenção não só de Matheus, mas de todos naquele corredor claustrofóbico e asséptico do terceiro andar do shopping. Alguns fitaram ao redor, outros olharam para trás e Matheus tentou procurar por cima dos ombros das pessoas de onde vinha aquele matraquear estranho. Era capaz de enxergar à direita, através do teto e das paredes transparentes construídas de algum tipo de vidro muito resistente, o céu do fim de tarde e o jardim interno do shopping. Muito bem cuidado, por sinal. Os clientes deveriam estar sempre muito satisfeitos, esse era o lema, e o jardim apenas contribuía para isso. Nuvens tão espessas como um edredom capaz de cobrir o maior dos gigantes deslocavam-se rolando através do céu em direção certeira, estariam sobre a cabeça daquelas pessoas em pouco tempo. Sorte estarem sob um teto protetor, a chuva prometia ser impiedosa. O ruído incomum no corredor aumentou e então Matheus pode perceber que eram vozes. Entoadas com vigor e decididamente, não apenas por uma pessoa. Talvez um pequeno grupo declamasse algo de forma a ser notado. Quiçá até nos andares inferiores. Finalmente apareceram: uma mulher com mais de sessenta anos, o peso carregado por pernas doentias e arcadas, dois homens vestindo terno completo (surrados e puídos, como percebeu Matheus) e dois rapazes com quarenta anos ou pouco menos que isso. Talvez rezassem, se aquilo pudesse ser considerado reza, se aquelas palavras estivessem escritas em alguma bíblia. No novo ou velho testamento. Em algum lugar considerado sagrado. Não se importavam com as pessoas ao redor e continuavam caminhando de forma compacta e ritmada, como se fossem um só. Matheus ouviu:
- E, acabando-se os anos, ele será solto da sua prisão. Sairá a enganar as nações que estão sobre os quatro cantos da terra, Aegoth e Ctulhu, cujo número é como a areia do mar, e cuja vontade é a visão de olhos que não enxergam, para se ajuntarem em batalha.
A mulher falava isso. Os homens que a acompanhavam apenas moviam a cabeça em reverências afirmativas e continuavam a caminhar. Em dado momento troavam em uníssono palavras que não poderiam ser entendidas. Talvez um dialeto qualquer. Talvez proibido e amaldiçoado - talvez coisa de malucos que deveriam estar internados em hospícios públicos recebendo altas doses de tranqüilizantes que são comercializados em caixas com tarja preta e tentando completar, tediosamente, quebras-cabeças de quinhentas peças.
- A água não lava, mas escolhe. Então, reconhecerão que há um Senhor mais poderoso que resistiu por cem mil longos dias e noites. Eu o vi assentado no obscuro trono elevado, aquele que há de vir de onde o Portão já não mais está fechado. Para quem não pode se molhar, não há salvação!
A mulher velha e doentia seguia com a prece descabida e o séqüito cada vez mais taciturno e compenetrado. Passavam ao largo de Matheus que cruzou o olhar durante algum tempo com um dos velhos dentro de seu paletó usado. Poderia jurar que os olhos daquele cara não possuíam órbitas, contudo era um pensamento completamente desvairado. Isso não era possível e ponto final. As pessoas que vinham caminhando de encontro ao grupo, quando chegavam perto deles, assustavam-se e desviavam de súbito, como se deparassem com um cão atropelado no meio do corredor do shopping. Uma mãe carregando um carrinho de bebê com uma garotinha aloirada e alegre dentro dele, desviou atabalhoadamente daquela procissão, pois vinha distraída. A criança golfou uma quantidade de comida e leite sobre o macaquinho verde que usava, manchando a roupa e parte do apoio do carro de bebê. E Matheus soube, de alguma maldita maneira desconhecida e imprevisível, de que a criança vomitara ao ver aquelas pessoas. Não tinha dois anos ainda, era certo, mas ao enxergar aquela marcha de gente doentia, colocara os bofes para fora, numa reação impensada e medonha. Apenas Matheus parece ter notado isso. Os fanáticos prosseguiam e afastaram-se de uma vez por todas, levando com eles o eco daquelas vozes profundas. Ninguém comentou nada sobre aquilo, o que Matheus considerou ainda mais perturbador. Todos continuavam a correr de um lado para outro, carregando sacolas cheias de compras desnecessárias ou comendo venenos mal preparados em cozinhas duvidosas. A mãe estava agachada diante do carro de bebê entretida em limpar a sujeira que a filha resolvera fazer após um almoço corrido.
Matheus fitou novamente o horizonte através das paredes de vidro espesso daquele ponto do shopping. As nuvens rolavam imitando efeitos especiais de filmes caros e tolos produzidos em Hollywood. Em breve choveria muito, era certo.
Finalmente retomou o caminho na direção da loja de diversão eletrônica e desta vez pensou em Cássia: “Há algo errado, não há?”. Havia.




                                              II
A bolinha prateada resvalou duas vezes e desceu em direção às palhetas. Foi aparada com habilidade. O placar eletrônico escreveu uma palavra em inglês que Matheus não entendia, mas tinha certeza absoluta de que se tratava de algum tipo de elogio. O placar voltou a faiscar os números que indicavam a quantidade de pontos obtidos no jogo até aquele momento. Matheus era bom com aquelas maquininhas de pinball. Ademais, elas o ajudavam a colocar o pensamento novamente em ordem. Enquanto dedilhava os botões nas laterais e acumulava pontos no placar eletrônico, observava a bola correr quase hipnoticamente. Os pensamentos ruins então nublavam-se como o tempo lá para fora do shopping e o sol surgia novamente em suas idéias.
Depois de algum tempo Bob encostou do lado da maquina e ficou observando Matheus e sua destreza. Continuou calado durante outro tanto de tempo. Apenas fazia caretas ou sorria, conforme o sucesso ou o fracasso do amigo durante o jogo. Matheus conhecera Roberto naquele mesmo shopping há dois anos atrás. Na verdade, no interior daquela loja de jogos eletrônicos. De lá para cá, o amigo cresceu no conceito de Matheus e foi guindado à prateleira das pessoas que considerava “legais”. Era um sujeito legal de verdade, um cara no qual se poderia confiar sem temer acabar com uma faca cravada nas próprias costas. Dois anos parecia tempo suficiente para qualquer deslize de caráter mostrar as caras e Bob havia sido aprovado no estágio probatório. Conseguiu um lugar na prateleira dos caras confiáveis e não havia muitos ao lado dele. Antes dos trinta Matheus já percebera que seria bastante complicado preencher esse espaço da estante.
- E então, está sozinho hoje? – Indagou Bob sem desgrudar os olhos da mesa de jogo.
- Não. Cássia está por aí. Rodando com as amigas.
- A praia do final de semana pelo jeito vai por água abaixo.
Matheus recordou aquelas nuvens extravagantes galopando o céu como uma horda de bárbaros. Incrível, mas já era possível perceber com o corpo os trovões que imitavam queixas de monstros celestes desconhecidos. Se os garotos estivessem do lado de fora do shopping seriam capazes de ver as chispas cor de prata dos relâmpagos clareando o final da tarde. Entretanto, lá dentro, era impossível presenciar este espetáculo incomum, não faziam idéia do que vinha pela frente.
- Vai chover bastante. – Assentiu Matheus.
- Acho que você está num daqueles dias “efeito estufa”. Não quer papo?
- Tudo bem, está tudo bem.
- Tudo bem? Pode tentar convencer outro.
- Cássia. É a Cássia. Na realidade acho que é a faculdade. Não sei o que é, acho que esta é que é a grande verdade.
- Não precisou explicar nada e já entendi tudo. – Bob balançou a cabeça para os lados. Acompanhava as jogadas com interesse e não mentira. Entendia o estado de espírito do amigo, tinha a mesma idade dele e reflexões bastante parecidas. Jovens inteligentes são questionadores por natureza.
- Hei, você viu o bando de malucos no corredor? Meu Deus, o que é aquilo? Os sujeitos deveriam ser trancados num hospício. Devem ter fumado algo muito forte. Você viu aquilo?
Matheus não respondeu. Pelo menos não de imediato. Cássia havia entrado na loja de diversão eletrônica e agora estava encostada ao lado de Bob. As amigas desapareceram pelas galerias em algum ponto desta história. Em uma jogada lépida, Matheus atingiu o quarto alvo com a bola e agora só faltava derrubar o quinto alvo.
- Acho que eram loucos. Assustadores, mas loucos. – Disse por fim Matheus.
- Derruba o quinto alvo e a passagem para o túnel se abrirá. – Disse Bob.
Cássia tentava mostrar algum interesse naquele jogo, inclusive para deixar o namorado satisfeito. Mas aquelas palhetas idiotas lá embaixo dando seguidos cutucões em uma bola prateada que parecia atingir aleatoriamente alvos luminosos sob o vidro transparente não fazia sentido algum para ela. Pinball era uma coisa idiota e o máximo que ela conseguia fazer era não mostrar o quanto estava entediada.
- O quinto alvo – repetiu Matheus – vou abrir a passagem para o túnel, deixa ele comigo! Vou atingi-lo em cheio, como uma tapa.
Atrás deles e para o lado de fora da loja, bem no corredor do shopping, um tumulto se formou de repente. Pessoas falavam alto, ao mesmo tempo e com urgência. Ordens incompletas e corre-corre. Cássia e Bob foram até lá enquanto Matheus não se importou muito, preferiu continuar com o jogo. Não jogaria aquela grana pelo ralo por causa de uma briguinha qualquer. Quando os dois retornaram, perguntou:
- O que aconteceu, afinal? Os malucos novamente?
- Uma mulher. Carregaram-na para o posto médico. Ouvi alguém falando algo sobre epilepsia. É uma doença, não é? – Bob indagou, mas não tinha interesse algum na resposta.
- Uma doença, sim. – Disse Matheus. Preparava a bola para acertar o quinto alvo. – Uma doença da cabeça.
A confusão no corredor diminuíra, entretanto não acabara de vez. Havia um disse-me-disse no ar e todos tinham alguma opinião muito espirituosa sobre o que havia acontecido com a mulher que necessitara de socorro.
- Hei, abra o túnel. Acerte a porcaria do alvo! Uma doença de maluco, é isso?
- O sujeito que tem epilepsia não é maluco. É uma doença da cabeça, mas não quer dizer que o pobre sujeito que sofre com esta coisa seja maluco. Pelo amor de Deus, Bob!
- Bem, não importa. Abra logo o túnel.
- Com certeza. Agora ele não me escapa, vou abrir o túnel e ganhar uma partida extra gratuita.
- Vamos com isso. – Instou Bob e parecia realmente empolgado, agora.
O tumulto no corredor aumentou novamente. Matheus imaginou que qualquer grande besteira fora da rotina faz com que as pessoas fiquem completamente alvoroçadas. Uma mulher desmaiando no corredor de um shopping é tudo o que se precisa para quebrar a rotina. Bob correu até lá fora. Retornou e agora estava meio aparvalhado.
- É engraçado, eu acho. Carregaram outra mulher para o centro médico. Desmaiou. Havia sangue no rosto dela, pode ter dado com a cara no chão.
A bola ainda estava presa na palheta direita e Matheus fazia mira no quinto alvo.
- Vou derrubar o quinto alvo. O túnel vai abrir.
- Há algo errado, não há? – Perguntou Cássia. – Preparando-se para atingir o alvo, Matheus encarou a namorada. Estava lívida e aquela onda de angústia se debatia em algum lugar dentro do corpo dela. Nenhum dos três podia enxergar, nem os demais no corredor do shopping, todavia o céu havia sido completamente tomado por aquelas nuvens pesadas e medonhas. A noite chegara antes da hora do lado de fora. Choveria em breve mais do que chovera nos últimos meses. Além disso, Matheus não acreditava em dois ataques epiléticos quase simultâneos. “Há algo errado, não há?”.
Finalmente fez a jogada, arremessando a bola contra o quinto alvo. Errou por alguns milímetros. Coisa rara quando Matheus estava no comando.
- Abriu!
Ambos fitaram o rosto de Cássia.
- Ele errou, não percebeu? Não conseguiu abrir a porcaria do túnel, tchau para a partida extra. – Disse Bob.
- Abriu. – Insistiu Cássia.
Os garotos fitaram Cássia, cujos olhos estavam vidrados e perdidos. Enxergava algo além daquela máquina idiota e só ela poderia dizer o que era. Poderia se apostar que ela estava hipnotizada. Ou bêbada. O namorado falou, quase preocupado:
- Meu amor, eu errei. Não abri o túnel para a partida extra. A bola saiu, era a última. Já era.
Cássia não deu sinais de se importar e não ouvira o que disse Matheus. Isso ficou claro para ambos, ela não ouviu o que disse o namorado e não percebia patavina do que acontecia ao redor. Os olhos vidrados. Congelados como órbitas de uma estátua de gesso. A pele tornara-se pálida e fria ao toque. Bob assustou-se ao tocar o braço dela.
- Abriu. – A menina repetiu. – O portão abriu. Abriram-se os portões. – E aqui ela sorriu. E o sorriso aumentou alcançando a ponta das orelhas e não era engraçado. Não havia humor naquele sorriso e, para quem o testemunhava, era algo medonho e deslocado, sem nenhuma lógica aparente. “Há algo errado, não há?”.
- Cássia! – Matheus agarrou ambos os braços da namorada e os balançou com algum vigor. – Seja o que for não tem graça! Pode parar. O que há, afinal?
Não era mais um sorriso no rosto dela. Imitava alguém que estava sendo torturado, agora. Era pavor: em seu estado puro e ancestral. A calça jeans começou a ficar mais escura das coxas até o pé, à medida que a urina descia pelas pernas da menina de uma forma triste e assustadora.
- Estão por toda a parte e seu número é como a areia do deserto. Não deveriam sair, ninguém senta mais sobre o trono obscuro. O soberano está de pé e os portões se abriram. – E a voz de Cássia não era mais dela. Alguém falava por ela e o urro era doentio, remoto e antigo. – Chegado o dia, eles abrirão. Os que aguardavam estão livres. Avise a estes, depois a todo mundo. O sangue já não pode ser lavado, a água não limpa, mas escolhe. Para quem não pode se molhar, não há salvação.
Os minutos que se seguiram foram quase como um tempo que escoou pelo ralo e não pode ser resgatado da memória para Matheus e Roberto. Não possuíam a mínima idéia de que a coisa apenas se iniciava. Tempos estranhos e sombrios, trazendo horror, morte e destruição e que os olhos de Cássia vislumbraram por um átimo precipitavam-se adiante. Todavia não sabiam nada disso. Observaram, pasmos, a menina finalmente desmaiando, quebrando o tampo de vidro da máquina de fliperama com o próprio rosto e caindo no chão como um peso morto.

                                          III
Cássia insistia: não precisava ser carregada. Podia andar com as próprias pernas, estava apenas envergonhada por ter molhado as calças daquela maneira e sentia dor do lado esquerdo do rosto. Poderia ter sido pior. Não havia cortes, nem sangue. Talvez a maçã do rosto ficasse roxa mais tarde. Nada além.
Soltaram-na e ela pode testar a própria estabilidade. Tudo normal de verdade. Sentia-se bem, agora. Talvez o namorado e o amigo estivessem valorizando demais aquele mal estar repentino. Saíram às pressas do interior da loja, a menina entre os dois. Escutaram o segurança, que os conhecia bem, questionando o prejuízo causado na máquina e quem seria o responsável por aquilo, mas não era hora de discutir coisa alguma a respeito de vidros espatifados. Perguntaram a um funcionário do shopping onde encontrariam um médico lá dentro. O homem mediu Cássia de ponta-cabeça e percebeu que o problema era com ela. A calça molhada não passou despercebida e Cássia não gostou daquilo. Nada pior para uma pessoa vaidosa.
- Não me digam que a menina também passou mal. Essa coisa parece uma epidemia, um maldito vírus se espalhando rápido. Não gostaria de ver a patroa doente em casa, quem cuidaria de nosso garoto? De qualquer modo, o ambulatório fica no subsolo.
Antes de Cássia cair no chão como se houvesse sido nocauteada, Matheus duvidava que pudessem ocorrer dois ataques epiléticos em uma mesma tarde dentro de um mesmo Shopping Center. Julgava três ocorrências como esta uma coisa impraticável e agora, ouvindo o funcionário falar, ficou ainda mais desorientado. Com certeza o amigo e a namorada estavam tão confusos quanto ele, pela forma como trocaram olhares interrogativos. Um grupo de pessoas passou por eles correndo e desapareceram numa curva à esquerda. Uma conversa ríspida, talvez uma discussão, iniciara-se do outro lado do corredor, dentro de uma loja. Um ruído alto que poderia ser uma tábua se chocando contra o chão atravessou todo o corredor e continuou ecoando enquanto os garotos começaram a caminhar em direção às escadas rolantes. Fitaram durante alguns segundos, no lugar onde a parede do shopping era feita daquele vidro reforçado, a chuva que despencara do lado de fora e que agora imitava uma cachoeira caudalosa. Os raios corriam pelo interior das nuvens, curtos-circuitos celestes, assustadores e poderosos. A alta voltagem tomava o ar. Algo vascolejava com os nervos e com a sanidade das pessoas. A sensação que Matheus experimentava naquele instante era como se estivesse viajando em um trem bala que começa a sair dos trilhos aos poucos, entretanto não seria capaz de explicar coisa alguma daquela sensação a quem quer que fosse. Tudo estava normal e nada era como antes. Uma outra emoção também surgiu pequenina dentro do corpo dele, pela primeira vez e Matheus ainda não podia decodificá-la. Como um recém nascido, era nova e acanhada, além de desconhecida. Matheus começava a ter medo.



                                             IV
Enquanto desciam pelas escadas rolantes, Matheus tirou o celular do bolso e pressionou a tecla que completaria a ligação para seu tio. Considerava o tio o melhor amigo depois de Roberto, talvez por isso o dedo tenha procurado a tecla com o telefone de Helder Motta automaticamente. Só foi capaz de perceber que não havia sinal no celular após o insucesso na ligação. Não recebeu nem o pedido de desculpas da operadora de celular naquela voz falsa e feminina, apenas um profundo e completo silêncio.
- Cássia, liga pro titio.
Continuavam a descer em direção ao posto médico. A namorada, imitando Matheus, discou o número e colou o celular, que saiu do bolso dianteiro da calça dela, ao rosto. O telefone estava úmido e também sem sinal. Nenhuma ligação completada.
- É a porcaria da operadora. Nada de sinal.
- Bob – instou Matheus – sua operadora é diferente. Liga pro tio Motta.
- Tudo bem. Mas pra quê?
Matheus refletiu sobre a pergunta. Chegou a conclusão que não sabia respondê-la.
- Apenas ligue, está bem? Quero falar com ele.
- De fato não é má idéia. Podemos ir até a casa dele, refrescar as idéias. Claro, depois que soubermos que não há nada errado com a sua princesinha. Estamos todos um pouco abalados, eu acho.
- Não sei quanto a irmos até a casa dele. A titia marcou algum tipo de encontro com o imbecil do chefe dela esta noite. Renato e Jandira também vão estar lá. Casa cheia.
Roberto usou o celular e ficou tão decepcionado quanto os dois ao perceber o resultado. O telefone imitava um mudo.
- A chuva? Será a chuva? – Bob indagou ao mesmo tempo em que oscilava o celular de fronte do rosto de Matheus.
Chegavam ao subsolo. Matheus balançou a cabeça, não sabia se era a droga da chuva. Sabia apenas que agora tinham três mulheres dentro daquele lugar com algum tipo de ataque da cabeça e duas operadoras de celular que resolveram entrar de férias sem aviso prévio.
Marcelo Santoro
Enviado por Marcelo Santoro em 10/11/2007
Código do texto: T731452
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Sobre o autor
Marcelo Santoro
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
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Marcelo Santoro