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Pergunte ao Morto

  A reporter noticiava o acontecimento. Abalou toda a cidade naquela manhã fria de sexta-feira. Abalou Santa Frigida. E olha que nada abalava aquela cidadezinha. Afinal nada acontecia ali. Até aquela sexta-feira de agosto. Até Jéssica aparecer morta na estrada velha.
Chocou a todos. Parecia ter sido espancada, torturada. Ninguém jamais tinha ouvido falar de crime semelhante naquela região. Todos queriam respostas! Quem cometeu tamanho ato de crueldade com aquela jovem e bela mulher? Eu posso dar a resposta. 5 nomes. Antonio, Alberto, Carlos, Roberto e Caio. Os 4 primeiros os que praticaram. O ultimo, aquele que acobertou e os comandou nas ações posteriores.
  5 garotos esnobes da escola católica. 5 idiotas. Uma aposta. Foi esse o principio de tudo. Jéssica era de classe média. Era desejada. A aposta consistia em qual dos 5 cretinos iria leva-la pra cama. Não só nenhum conseguiu, como foram todos ridicularizados na frente da juventude da cidade. Isso causou um trauma? Pode ser...
  Planejaram se vingar. Caio achou babaquice. Os outros não. Resolveram por em prática. No dia seguinte, tiraram as placas do opala preto do pai de Alberto, e seguiram-na de longe.Quinta-feira. Por volta das duas da tarde. Seguiram-na até a parte mais afastada da cidade. Bloquearam o caminho de Jéssica com o carro. Pegaram-na a força e a atiraram pra dentro do carro. Levaram-na até o armazém abandonado do lado do ferro-velho. Onde eu costumava fumar "unzinho" escondido. Eu vi tudo. Tiraram-na do carro, arrastaram-na para dentro. A violentaram. A espancaram. Acorretaram-na. Aquilo tudo durou cerca de 4 horas. Com giletes faziam cortes na pele alva de Jéssica e bebiam seu sangue. Vi tudo pendurado em uma janela. Ela não resistiu. A coragem deles também não. Estava morta. Eles apavorados. Eu dei mancada. Barulho. Sairam correndo. Eu também. Só viram meu rastro. Ficaram paranóicos. Abandonaram o corpo sem vida dela na estrada. Foram pedir auxilio a Caio. Eu tratei de me esconder e pensar no que acabara de ver.
   Os 4 rumaram pra casa de Caio. Observei tudo de um bar na esquina.
Lá dentro , soube depois, buscaram auxilio no amigo. Caio era muito obscuro. Tinha atração por ocultismo. Tinha uma vasta coleção de livros. Grimório de uma bruxa inglesa do século XVII era um do mais valiosos. Bom vou reproduzir aqui o que ocorreu no interior da casa.
    - Puta que o pariu!! Suas mulas!! Como fazem um negócio desses puta merda!!? - Caio esbravejava
   - Foi sem querer....e agora que você ta envolvido também é bom da um jeito de ajuda a gente porra! - Carlos nervoso retrucou
   - Tá, tá porra...merda! Agora só resta a gente espera ...se ninguém viu num tem problema...
   - Ai que tá Caio... o Antonio jura que viu alguém lá.
   - Bom....quando o corpo da vadia estiver no necrotério a gente vai lá e pergunta pra ela...
   - Que???!? - responderam em unissono.
  Horas depois toda a cidade em polvorosa. Com medo. E eu pertubado. Contava ou não. Escolhi ficar quieto e ver no que ia dar. Fiquei vigiando o grupo. Quando descobriram que o corpo estava no necrotério rumaram pra lá. E eu, é claro, fui atras. E vi quando molharam a mão do vigia. Era conhecido deles. Dei a volta e espiei pela janela novamente. Caio trazia uma sacola numa mão e um livro muito velho na outra. Acompanhado dos 4 idiotas. O corpo nu e lindo de Jéssica estendido numa mesa de aço. O legista só chegaria de manhã. Já passava da meia noite. Já se contava alguns minutos da sexta-feira. Acenderam velas em volta do corpo dela. Velas negras. Sal. Em volta dela, como um circulo. E em volta de cada um deles. Um gato amarrado. Um gato amarrado?!?! Que porra eles queriam com um gato?? Pensei. E a pergunta foi respondida quando um punhal também saiu da sacola. Acenderam as velas. E versos em uma lingua estranha foram recitados. O punhal perfurou o gato. O sangue escorreu na boca do cadaver. Silencio. Olhos brancos sem vidas foram abertos. Todos se assustaram. O cadaver retornou a consciencia.
  - O que querem de mim?! Por que interropem meu sono, algozes?
  - Queremos respostas! - Caio falou .
  - Pois pergunte aqueles que ainda vivem...
  - Quando esses 4 cretinos tiraram sua vida - Caio comandava - tinha mais alguém lá alem de vocês?
  - Sim.
  - Não estas a mentir não é?
  - Não.
  - Pode nos dar a identidade deste individuo? E em seguida poderá descançar em paz.
  - Fabio Ferraz.
  Esse é o meu nome. Ou era. Não acreditei naquilo tudo que eu estava vendo. A merda de um ritual necromante. E o cadaver da mulher mais gostosa que eu ja vi me dedurando pra uma cambada de psicóticos.
  - Agradeço a ajuda. Pode se retirar em paz.
  Gargalhadas. Jéssica. Muitas gargalhadas.
  - Acha mesmo que vou deixa-los em paz?!?! Depois do que me fizeram?!? Nunca!! Seus escrotos, vou sugar a vida de vocês !! Vou pessoalmente atras de cada um e arrastar vocês pro inferno!!
  Caio enfiou um punhado de sal na boca do cadaver. Os olhos fecharam. Velas apagaram. O corpo voltou a ficar inerte. Limparam tudo. Assustados. Mas agora tinham um nome. O meu. Estava tão atordoado que nem percebi eles saindo. Descuido. 32 apunhaladas. E cá estou eu narrando essa história pra você. Sim eu estou morto. Há cerca de 12 anos.
   3 anos após o ocorrido, os 5 idiotas estavam de férias na fazendo do pai de Alberto. Roberto dormia na rede. Carlos se aproximou , pintou a cara do amigo com batom e tirou uma foto. Quando a camera digital carregou a foto...gelou. Um grito. Jéssica parecia tirar o espirito dele puxando-o pela cabeça. Estava morto. Como logo os restantes estariam. Alberto atirou na própria cabeça depois de ficar 9 dias trancado num quarto. Carlos encontrou seu fim após sair correndo numa avenida movimentada da capital gritando palavrões. Essa foi particularmente engraçada. Antonio degolou 40 pessoas e depois partiu a cabeça ao meio com um machado.
   Caio morreu carbonizado. Enquanto lia no seu quarto, contemplou do teto Jéssica e eu. O teto era um mar de fogo. Que o devastou como um tsunami infernal.
   Hoje todos estamos aqui. Poço estigio. Inferno. Jéssica e eu nos divertimos bolando novos meios de tortura, escutando novos gritos. Por que as vitimas estão juntos dos agressores no inferno?? Ah vamos lá, nunca disse que era santo! Traficar também é um pecado. Afinal comercializar prazer e morte não é um dos 10 mandamentos. E Jéssica?
Bom, se prostituir com padres e extorqui-los também não é lá muito certo.
   - Ok. Me contou tudo. Obrigado a você Fabio por ter me relatado o que aconteceu naquele dia. Essa matéria vai ser primeira pagina. Que vá em paz.
   Do meu tumulo aberto até o centro da cidade, todos me ouviram gargalhar.
                                    *****
 Escrito ao som de Convicted in Life do Sepultura.
 O autor recomenda como trilha sonora pra esse conto.
Arashi
Enviado por Arashi em 12/11/2007
Reeditado em 13/11/2007
Código do texto: T734763

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Sobre o autor
Arashi
Sumaré - São Paulo - Brasil, 32 anos
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