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A Louca

“Ninguém cai das mãos de Deus”. Eu lembro bem. Foi exatamente isso que ela me disse antes de se meter pela vida e bater o asfalto afora, pisando duro com os pés gretados. Pisando duro enquanto cambaleava insana. Mas ainda assim, duro.

Basília. Nem nome sensual tem. Pra mim é um feminino forçado. Nome de nada. Uma cidade empenada, cortada em letras, desprovida de uma. O que tinha a danada que me chamava mesmo a atenção? Nem me recordo mais. As mãos talvez. Não me recordo. Minto não sei por quê. Guardo a lembrança de seus seios. Os seios, sim. Isso é o que nos une, é o laço que me faz tê-la na mente.

Só sei que fiquei desconcertado ao vê-la passando. Tenho menos de treze anos, nem bem homem sou ainda. No sentido carnal sou criança. Aprendiz e nada mais. Passou então ela e minha vida modificou-se. Descalça, vestes desgrenhadas, rotas e esfarrapadas. Os cabelos em desalinho. A humildade na face e aquele toque sublime que entregava sua real natureza: toque dos olhos. Olhos ferozes que não ligavam para quem os fitavam e tampouco se importavam em fazer mistério sobre a dor neles arraigada. Besta-fera armazenada nos recônditos da medula. Mas eu já a conhecia bem. Antes de tudo, antes do nada.

O crucifixo de madeira pendendo das mãos, tal carmelita, descalça e imunda pisando as latrinas do mundo que deixara para trás em mutismo. Arma empunhada frente aos demônios que via em sua mente confusa. Velha fosse e eu entenderia a devoção, mas não era. Moça, pois sim o era, e moça morreria. Morrera por dentro ao sofrer a ferida fatal de um amor inexistente. Inexistente em recíproca, mas verdadeiro em sua mente doente. Louca sim, louca de amor. Amaldiçoada que me amaldiçoou. Matei a raiz que lhe causava mal. Podei a erva daninha que lhe parasitava o caule doce. Levei da terra o homem que lhe fez sofrer, pensando quem sabe se desta forma lhe presenteava com o retorno da sanidade. Não funcionou. Piorou.

Eu sei sua história. Em seu passado houve um drama de amor misterioso. Revelação de um peito torturado de onde ela não podia extrair o maldito espinho da mágoa sozinha. Vi que precisava de minha ajuda, de meu apoio, de meu amor. Extraí então a vida do cafajeste que por sua vez havia extraído o brilho da vida dela.

Tomei dianteira, encarei o safado. Ela ora me olhava, ora minha faca fitava. A frente de seus olhos, desferi o golpe fatal. Garganta aberta, mãos erguidas sem estancar o que brotava da ferida, meu pai foi ao chão. Ela apenas olhou do alto de seu mutismo. Não agradeceu por um momento. Coxeou pra fora da casa, olhos roxos, dentes faltando, que tais como a beleza nela existente ele havia furtado. Não me olhou nos olhos. Sei que foi bom se livrar do verme que a espancava, mas nem isso lhe devolveu o prazer de viver. Louca ficara e louca morrerá. Só balbuciou antes de partir a maldita frase, dizendo que Deus me perdoará.

Hoje, para guardar a mágoa oculta, canta, soluça – coração saudoso. Não sei como pode sentir saudades, mas dizem que existem mulheres que gostam de cafajestes. Oxalá sua alma mude. A cabeça não tem mais jeito. Chora ela pelas ruas e choro eu aqui em casa. Chora ela pelo marido morto. Choro eu pela sanidade que morreu em minha mãe.

Chora, gargalha, a desgraçada estulta.

Louca. Que passe. Louco. Que fico. Louco somos nós. Vitimas e bandidos. Mãe e filho.

Fim.

Nota: Inspirado e contendo trechos do poema homônimo de Augusto dos Anjos. Segue abaixo o poema:

––––––––––––––––––––––––––––––––––––-
A Louca

Augusto dos Anjos

Quando ela passa: - a veste desgrenhada,
O cabelo revolto em desalinho,
No seu olhar feroz eu adivinho
O mistério da dor que a traz penada.

Moça, tão moça e já desventurada;
Da desdita ferida pelo espinho,
Vai morta em vida assim pelo caminho,
No sudário de mágoa sepultada.

Eu sei a sua história. - Em seu passado
Houve um drama d’amor misterioso
- O segredo d’um peito torturado -

E hoje, para guardar a mágoa oculta,
Canta, soluça - coração saudoso,
Chora, gargalha, a desgraçada estulta.

Fim.

Richard Diegues é escritor, autor do livro "Magia - Tomo I", colaborador dos sites "Círculo de Crônicas" (www.circulodecronicas.com) e NecroZine (www.necrozine.blogspot.com), além de moderador dos Grupos "Tinta Rubra" e "Fábrica de Letras" pelo Yahoo!
Richard Diegues
Enviado por Richard Diegues em 04/04/2005
Reeditado em 14/04/2005
Código do texto: T9646
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Sobre o autor
Richard Diegues
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
12 textos (2340 leituras)
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Richard Diegues