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Ponto-Final

Dora, Dorinha. Você tem olhos enormes de criança. Olhos de bicho arisco. Assim agarrada aos seus cadernos, usando-os como escudo, escondendo seu peito arfante da vista dos tarados, você é absolutamente casta, inocente, rubra de vergonha a qualquer palavra inadequada.

Isso é o que eu mais amo em você. O que mais odeio. Mais uma razão para acabar com você, neném.

Essa pele vermelha, bronze natural, tropical – eu sei que você é filha de índios. Ou neta. Tempero brasileiro. Quem foi o puto que forçou sua gente a trocar Jurupari por Satanás e Tupã por nosso Senhor? Quem lhe empurrou goela abaixo esses nomes novos para deuses velhos? Na verdade, não importa. No seu último instante, você saberá que não há deus algum.

Isso. Mais para cá. Venha andando. Livros e cadernos. Volta sempre tão tarde! E nestas ruas tão escuras – você não tem medo? É faculdade? Deve ser Pedagogia ou outra coisa assim bonitinha. Letras? Você tem toda a cara de professorinha mandando os alunos fazerem uma redação sobre seu animal de estimação preferido. Ah, não tente usar suas vírgulas comigo. Eu sou o sujeito. Você é meu objeto direto. O verbo? Lobo mata cordeiro. Caçador apanha caça. Saca? Simples assim. Eu vou pôr um ponto-final em você, meu doce.

Bolsinha tiritando, zíperes e chaveiros. Cabritinha com sino no pescoço. Cabelos tão pretos que me confundem na noite, se fundem à noite. Quadris que sacolejam de leve quando você anda. Acha mesmo que a gente não vê seu corpo sob essas vestes de selvagem catequizada? Selvagem domada. Não se engane: não me engana. Você é tão gostosinha. Tão...

Menstruada? O cheiro do sangue, oh, Dora, oh, Jesus, esta noite eu vou me esbaldar!

Você já me conhece. Já sabe que estou na área. Revira os olhos, apressa-se, preocupa-se, linda como num orgasmo. Você sabe quem eu sou. Mas não sabe o que sou. E eu não lhe contaria, mesmo que você parasse para conversar comigo quando eu a chamo de novo e de novo. Ei, Dora. Dorinha!

Você nunca vai entender. Não até que seja tarde demais. E já é tarde, menina. É hoje.

O beco. Aqui estamos. Você é infalível. Eu, fálico. Seus cadernos apertados contra os seios. Meu pênis apertado contra as calças. Seu medo me excita. Meu rosto a assusta. Do escuro eu venho. Do beco eu pulo. Você pula – é o susto. Sorrio, seu nome treme nos meus lábios eletricamente, um quase-clímax. É mais gostoso assim.

Eu me mostro. Você já viu um desses, não viu? No cinema, de fraque e bico-de-viúva e muito pó-de-arroz na cara. Conde Drácula o cacete! Eu sou a nova geração!

Isso mesmo. Você corre. Deixo que ganhe uma certa dianteira. Quero-a ofegando, seu suor queimando minhas narinas e seus suspiros partindo o meu coração.

Você dobra a esquina. Dobra o tamanho do meu deleite. Vou logo atrás, Dorinha, espere por mim, meu anjo!

E então...

E então eu a alcanço.

Seus cadernos caem. Uma fração de segundo. Você enfia a mão por dentro da blusa e a retira depressa. Algo reluz... algo estoura.

Não mais do que uma fração de segundo.

Sou atirado para trás. A dor me consome. Da perna direita, ela se irradia para o resto do corpo.

Mais um estrondo. Se há um inferno, estou nele agora. Meu corpo berra em agonia. E o som de um terceiro trovão abre caminho por dentro de mim.

No meu joelho, um rombo. No estômago, outro. No peito, mais um.

Nas suas mãos, uma Magnum 38.

O sangue inunda minha garganta. Eu engasgo e meu cuspe é vermelho. Não tenho mais tempo. A vida vai se esvair e o coração vai parar. E não vai voltar a bater – não desta vez. Dora, você realmente partiu meu coração...

Eu estou olhando nos seus olhos e eles são os de uma matadora. Você sempre soube? Como foi isso, quando, como você poderia?...

Tudo o que sou está morrendo, deixando de ser. Eu quero perguntar.

– C... C... Como?

Mas você apenas sorri. Seu sorriso é gelado. Moças católicas não fazem assim...

Remexe na bolsa. O que tem nessa garrafinha? Ah. Cheiro forte de álcool empapando minhas roupas. O que mais tem na bolsa? Oh... não.

Scratch.

O fósforo aceso escapa dos seus dedos. Cai em câmera lenta, longamente, interminavelmente.

Vadia! Por que não me acertou logo na cabeça?

Caçador apanha caça. É simples assim.

Ponto-final.
Camila Fernandes MilaF
Enviado por Camila Fernandes MilaF em 17/01/2006
Código do texto: T99984
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Sobre a autora
Camila Fernandes MilaF
São Paulo - São Paulo - Brasil, 35 anos
22 textos (7590 leituras)
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Camila Fernandes MilaF