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- Ok, vamos começar logo a porra da reunião. Vocês sabem porque estão aqui. São os mais perversos, nojentos, amaldiçoados e... talentosos do meu rebanho.
A declaração foi recebida por um mar de risadas debochadas, maléficas e enlouquecidas, além de alguns urros e gritos. O Presidente do Conselho ergueu a mão, impaciente.
- Calem a boca, caramba ! EU FALO E VOCÊS ESCUTAM. Quando EU mandar, vocês respondem, se tiverem alguma idéia nessas cabeças podres. E só. – silêncio, dessa vez. – Agora, sim. Aqueles dois filhas da puta estão tentando tomar o meu lugar. E o meu lugar é o MEU lugar. Só tem vaga para um, e é MINHA. Essa bosta tem que acabar. Quero sugestões.
- Chefinho... Vossa Magnificência... – uma voz fininha se fez ouvir, titubeante.
- O que é, Oswald ? AHHH... Fala alto, merda, por que você tem sempre que sussurrar ? Ninguém diz que você teve peito para fazer o que fez, com essa vozinha de viado.
Lee Harvey abaixou os olhos, enrubescendo violentamente, antes de conseguir voltar a falar, com a voz uns poucos decibéis mais audível.
- Desculpe perguntar... mas seu objetivo primordial não é e sempre foi o de ver a Humanidade todinha... aqui ? Por que então acabar com essa guerra ? Eles estão fazendo o trabalho pro senhor, isso não é bom ?
- Guerra é ótimo, sempre. Eles que se fodam. Mas aqueles pulhas do Saddam e do Bush estão começando a ser vistos como Satã. E SATÃ SOU EU, PORRA !!!!!
A temperatura da sala de reuniões, que já era altíssima, subiu de forma assustadora. Os cabelos de vários membros do conselho pegaram fogo.
- Meu Senhor... esse cabelo demorou taaaanto tempo para ficar pronto... foi um inferno arranjar essas pérolas, e agora... olha pra isso ! Estou careca de novo ! – lamentou-se a voz irritadiça de uma mulher.
- Cresce de novo, Lucrécia. – esse foi o mais perto de um pedido de desculpas que Satã podia oferecer. E a temperatura da sala voltou ao calor anterior. – Sugestões, senhoras e senhores, para acabar com essa guerra ?
- Veneno. – era Lucrécia de novo.
- Não dá. Aqueles moscas-mortas da ONU obrigaram Saddam a se desfazer da maior parte do arsenal de armas químicas e bacteriológicas, o que tem não é suficiente.
- Estripe-os. – foi a sugestão de Jack.
- Eles são bem protegidos, os guarda costas não são mais aqueles babacas da época do Oswald.
- Estripe TODOS !
- É, coisa burra ? Estripar alguns milhões de humanos ? Como ? Eu te mando pra lá ?
Jack deu um sorriso amplo e sonhador, passando a mão de forma carinhosa em seus bisturis ensangüentados.
- Esqueça. Nem em 1800 era possível fazer isso. Você mesmo quase foi preso... Majestade. – o tom final de Satã foi irônico. O outro se calou. – O que mais ?
- Queime todos... – disse a voz delirante de um homem de toga.
- De novo, Nero ? Saco, você só pensa nisso ?
- A idéia do Jack erra boa... estrriparr toda munda... e também decapitarrr e amputarrr, e... arrancarr o pele... e fazerr experriências com as órrgãos, e...
Satã interrompeu o homem que falava a seu lado com sotaque alemão, seu médico particular, apertando-lhe o ombro até o osso estalar.
- Joseph... eu achei que você já tinha se esquecido do Farah Jorge Farah... ciúmes ? Não precisa, você ainda é o tal... você até pode ensinar um pouquinho de... finesse a seu colega, quando ele chegar aqui. Eu, pessoalmente, prefiro seu estilo.
O Dr. Mengele deu um sorrisinho satisfeito, que nada tinha de saudável, e ficou a escrever enlouquecidamente em seu diário. Satã olhou fixamente para ele, e lembrou-se de algo.
- Cadê Adolf ??? Eu disse a ele que fazia questão de sua presença.
Joseph ergueu a cabeça da página onde garatujava o desenho de uma mulher recebendo um bebê inteiro pela vagina, entrando de ponta-cabeça, e respondeu após  ajeitar óculos de aros grossos.
- Escrrrevendo uma nova rromance.
- De novo ? Sobre dominar o mundo ?
A expressão escarninha do médico nazista disse tudo.
- Eu vou cortar a merda do canal a cabo de desenhos. Ninguém mais vai assistir a “Pinky e o Cérebro” !
Os conselheiros do Inferno reclamaram todos, de forma selvagem, e Satã não conseguiu fazê-los parar nem batendo com a cabeça de Mussolini sobre a mesa. Ele por fim ergueu-se, abrindo as asas negras, e essa ameaça mais do que clara do Senhor das Trevas foi, enfim, obedecida.
Satã voltou a sentar-se, com expressão carrancuda.
- Salomé ? Confio em sua sabedoria e experiência, ó Mãe Negra.
A milenar anciã saiu do canto escuro onde estivera quieta, apenas a ouvir, e pronunciou-se em voz decidida, apesar de trêmula.
- Corte-lhes as cabeças.
O Aiatolá Khomeini e Idi-Amin Dada começaram a rir baixinho, comentando um para o outro que aquela velha estava mesmo gagá, que ela só conseguia pensar em São João Batista, e que Satã era mais gagá ainda, para estar escutando aquele maracujá de gaveta podre, e... com um grito, os dois entraram em combustão espontânea. O Senhor das Trevas os ouvira, e não gostara nada do desrespeito à bíblica Salomé, e as críticas à sua pessoa.
- Levem-nos ao caldeirão central, e deixem-nos lá, até aprenderem bons modos. – ordenou ele, indiferente, aos demônios que foram buscar os dois ex ditadores genocidas. – Pena, eles poderiam ter boas idéias, mas não suporto atrevimento. E agora vamos parar com a galinhagem, podemos ? QUEM TEM ALGUMA IDÉIA ?
- Empale-os. – disse uma voz fria.
Satã passou a mão na testa, já perdendo o fiapo de paciência que persistia.
- Vlad, pelo amor de De... ARGH !!! – ele cuspiu várias vezes no chão, vertendo ácido altamente corrosivo, antes de conseguir voltar a falar – MERDA ! Isso não ! Esse xingamento não !
- Eles ainda têm medo de mim. – retrucou o gélido Empalador.
- Sim, é verdade. Você tornou-se mais que uma lenda, é um mito. Adorado, em muitos círculos. Mas, com as armas modernas deles, o empalamento não é um bom método. Esse é nosso problema, senhoras e senhores. Estamos nos esquecendo que o mundo mudou. Armas e métodos milenares não funcionam mais. Temos que nos modernizar !
- Bem dito, Excelência. – disse o debochado Marquês de Sade. – E eu tenho algo que nunca sai de moda...
- DIGA !
- Tortura...
A assistência voltou a rir, mas não Satã. Ele encarou os olhos trocistas do Marquês de forma penetrante, e algo na expressão do sádico nobre prendeu sua atenção, disse-lhe que ele realmente tinha a solução.
Um gesto de seu punho cerrado calou, pela terceira vez, aqueles seres infernais.
- Diga... – a voz do Grande Ser dos Infernos era quase sedutora.
- Vossa Excelência... nós nos temos voltado só para a Europa, em busca de idéias. Bem, não tenho nada contra a Europa, eu sou de lá, mas é VELHA ! Temos que observar as Américas...
- AMÉRICAS ??? Você está de sacanagem com a minha cara ? Foi de lá que veio o filho da puta do Bush !
- Calma, calma ! O continente americano é grande pra caralho, Senhor ! Olhe mais abaixo... abaixo da linha do Equador. O Brasil, lembra ?
- O que tem o Brasil ? Aquilo é um zero à esquerda, eles não têm representatividade nenhuma no mundo.
- Eles são espertos... muito espertos... – Sade começou a gargalhar.
- O QUÊ ? O QUÊ, SEU MERDA ???
- Hihihihihiuu... calma, Vossa Magnificência, eu explico... – o Marquês enxugou os cantos dos olhos, chorara lágrimas de sangue de tanto rir. Ao terminar a ‘limpeza’, o nobre europeu parecia um índio Cherokee, com pintura de guerra – Os brasileiros são magníficos em tortura, Senhor. Magníficos. E fazem as coisas de forma tão tranqüila, tão envolvente, que nem o próprio povo reclama. Eles GOSTAM !!!
- Fale, fale !
- Bom, para começar tem os bandidos... os deles são os melhores do mundo, meu Senhor. Não há quem os alcance em criatividade, maldade e sangue frio. Se tivessem mais poder, seriam piores que Saddam e Bush.
Satã ficou pensativo.
- É... preocupa-me o dia em que Elias Maluco e Fernandinho Beira Mar chegarem aqui... eles são muito perigosos, terei que mantê-los para sempre na solitária.
- É boa medida, Senhor. E, pelo que ouvi, não demora a chegada deles. O Senhor tome logo suas providências. Mas eu não me referia a eles como NOSSAS armas de guerra. Eles cumprem direitinho o papel deles no Rio de Janeiro, e está tudo nos conformes.
Satã resmungou, mas nada disse. As outras criaturas infernais, a contragosto interessadas na conversa, não os interrompiam.
- Deixa eu chamar um cara aqui, que vai explicar isso melhor... PC !!!!
Um homem de estatura mediana, gordinho e com bigodão se aproximou do grupo. Usava um caríssimo terno, e tinha ares de advogado.
- Quem é esse traste aí ? – quis saber Satã, desinteressado.
- Vossa Ruindade, apresento-vos Paulo César Farias, braço direito de Fernando Collor de Mello, escroque, falsário, canalha, ladrão e estelionatário.
- Hmmmmm... já ouvi falar de você... – um sorriso aprovador expôs os imensos dentes carcomidos por cáries do Senhor das Trevas. – O que pode fazer para acabar com a guerra ?
- Nada, Senhor. – disse PC de forma calma. Antes que os olhos de Satã flamejassem em fúria, o brasileiro apressadamente continuou – Mas posso colocar o Iraque e os EUA de joelhos, depois que ela acabar. Basta deixar-me ser seu emissário administrativo... eu uso nesses países o que nós temos no Brasil... INSS, PIS, COFINS, IPVA, IPTU, Imposto de Renda, Juros abusivos, etc... e TROCO o petróleo dos Iraquianos para o mundo tudo, especialmente os americanos, por banana, rapadura, café, pinga, doces de Pelotas e dentaduras. Cotação de UM por UM !
- HUAHUAHUHAUHUAHUAHUAHUAHUAHAUAHUAHAUAHAUHAUAHAU !!! – Satã gargalhou de forma trovejante, obviamente tendo adorado o planejamento de PC.
Todos na sala de reuniões relaxaram, percebendo que o clima estava menos tenso. O Marquês de Sade fez questão de aproveitar seu momento de triunfo, há muito esperava a chance de galgar posições no Conselho do Inferno. Nunca o levaram a sério, antes. Hoje era sua chance. Era o momento de fechar a questão com chave de ouro. Ele chamou o jovem descabelado que aguardava junto à porta, de guitarra na mão.
- Vem, Jim... Vem !!!
- Pô cara, legal isso de trabalhar contra a guerra, guerra num tem nada a ver, aí... Tá sabendo ?
- Ahhh você se drogou de novo ? Eu te disse pra não se drogar ! Você vai esquecer a letra !
O músico finalmente conseguiu entrar na sala de reuniões, mas cambaleou com o calor e os vapores sulfurosos.
- Maneiro, ae !!! Todo mundo puxando uma erva !!! Legal !
- Porra... Começa a cantar, anda !
O rapaz continuou andando sem destino e esbarrou violentamente na parede, enquanto berrava em seu próprio idioma:
- WHERE ARE THE DOORS ? WHERE ARE THE FUCKING DOORS ? I WANT THE DOORS... – choramingou ele.
Sade pegou-o pelo braço e fincou ali um imenso alfinete de segurança, como  se fosse um piercing. Jim gritou de dor, e acordou ligeiramente de seu transe overdótico.
- AGORA CANTA !!!
Satã olhou com desprezo para o rapaz de cepa inferior parado à sua frente, mareado sob as alucinações lisérgicas do LSD, mas decidiu aguardar... se o nobre sádico tivesse arranjado mais uma de suas brincadeiras, ele teria o escalpo dos dois... literalmente.
- Falou, aí... eu canto... só drogado eu canto...
E começou, em voz esganiçada:
- “Tô mandando um beijinho
Pra filhinha e pra vovó
Só não posso esquecer
Da minha egüinha Pocotó
Pocotó, pocotó, pocotó, minha egüinha Pocotó
Pocotó, pocotó, pocotó, minha egüinha Pocotó
O jumento, o cavalinho
Eles nunca andam só
Quando saem pra passear
Levam a égua Pocotó
Pocotó, pocotó, pocotó, minha egüinha Pocotó
Pocotó, pocotó, pocotó, minha egüinha Pocotó
Pocotó, pocotó, pocotó, minha egüinha Pocotó
Pocotó, pocotó, pocotó, minha egüinha Pocotó.”
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH ! – Satã caiu para trás, desmaiado. Fora o último a agüentar. O restante da sala já havia desfalecido, aos primeiros ‘versos’.
Sade tirou os chumaços de algodão que havia usado para entupir os ouvidos e acudiu o Senhor das Trevas, depois de despachar Jim Morrison para uma sessão cavalar de picos na veia. O roqueiro saiu trocando as pernas, aos gritos de “VAI LACRAIA, VAI LACRAIAAAAAAA !!!”
O Marquês sacudiu a cabeça, tonto, e finalmente agachou-se ao lado do Mal Inominável.
- Vossa Magnificência... Excelência ! Acorde, por favor ! Me perdoe, por favor, eu não sabia !!! O golpe foi muito forte, me perdoe !!!
- Perdoar ? – a voz de Satã estava enfraquecida, como não se via desde o início dos tempos – Você está promovido a Vice Presidente do Inferno !!! AO ATAQUE, JÁ !!! MORTE DOLOROSA AOS IMPOSTORES !!!

Rio de Janeiro, 23 de março de 2003.
Mônica Virgo
Enviado por Mônica Virgo em 06/04/2005
Código do texto: T10062
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Mônica Virgo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 48 anos
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