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Filhos versus Pai - Conto vencedor do I Concurso Nacional "Darques Lunelli" 2005

Ela disse: estou grávida de um filho seu, eu disse: não pode ser, ela disse: não pode, mas é, eu disse: não acredito, ela disse: pois trate de acreditar, ela insistiu: vai nascer em poucos meses. Depois, perdi a cabeça, esbofeteei a mulher, fugi. Dias depois, ela veio atrás de mim toda desorientada, mas encontrou-me na cama aos beijos com uma mulata de olhos verdes e dentes muito brancos, e ficou sem saber o que fazer ou dizer, então fui eu quem disse: bem que lhe avisei que não me prendia nunca a ninguém, e a mandei pegar seu rumo pra casa. A seguir fechei a porta bem na sua cara. Mas ela não foi, ficou algo que furiosa, começou a gritar feito uma doida varrida, e com tamanha amplitude, que acordou metade da vizinhança ao redor, e alguém chamou a polícia, e a polícia demorou três dias pra chegar mas chegou, e logo que chegou me fez abrir a porta, ao quê a mulata me pediu: volta aqui, meu rei, pros braços da tua neguinha, mas me fiz de sem ouvidos e, afinal, saí da cama e dos braços da mulata e fui saber o que a polícia queria comigo. E a polícia me indagou a respeito da mulher que gritava na minha porta e eu tive de dizer: não sei quem é, nunca vi mais gorda, no entanto a mulher era insistente mesmo e gritou: estou esperando um filho desse sem-vergonha, a polícia perguntou a mim: isso é verdade?, pensei rápido e respondi: isso é uma puta mentira, e emendei: cadê a barriga dela?, e a polícia olhou a barriga lisinha da mulher e perguntou: é mesmo, a barriga, cadê?, e a mulher gaguejou: é que não começou a crescer ainda, e foi aí que aproveitei pra me safar, entreabri a porta do quarto, mostrei pra polícia a mulata deitada peladinha na minha cama só me esperando e disse: é pura dor de cotovelo dessa daí porque estou comendo a mulata e não ela, e a polícia espiou pra dentro do quarto e disse: ah, saquei, e nisso já pegou a doida que dizia estar esperando um filho meu e a enfiou no banco de trás da viatura enquanto ela gritava: filho da puta, um dia você me paga. Depois que a polícia foi embora levando a mulher, voltei pra cama, caí de boca na mulata, lambi seu corpo com minha língua molhada e antes de penetrá-la com meu membro túrgido, perguntei: não vai inventar de pegar barriga, vai?, e a mulata respondeu, meiga: não se preocupe, meu rei, eu tomo a pílula, então suspirei: ainda bem, e gozei fartamente dentro dela. Como não podia deixar de ser, o tempo transcorreu mais ou menos rápido, minha vida percorreu caminhos tortuosos e escorregadios, mudei muitas vezes de cidade, vivi amores mais ou menos doentios, envelheci rápido demais, e acabei mergulhado na merda, sem emprego, morando de favor num quartinho fedorento e úmido, e ainda por cima sofrendo da síndrome da imunodeficiência adquirida. Um certo dia deparei-me com um rapaz estancado na minha porta feito um dois de paus. Aparentava uns vinte anos de idade, e parecia muito com o meu retrato de amante enquanto jovem, as únicas diferenças eram o cabelo lambido de gel, que jamais eu usaria, o paletó impecável, idem, e o sapato de couro preto lustroso, idem. Ele olhou-me com certo desprezo e disse sem a menor cerimônia: sou seu filho enjeitado e vim aqui para cobrar uma dívida. Por sua pose altiva, pretensiosa, talvez pensasse que ia me deixar desconcertado com aquela frase ensaiada, mas logo percebeu que se enganara porque não demonstrei nenhuma surpresa, não era de hoje que havia aprendido a lidar com situações inesperadas. Não me abalei, portanto. Fui logo lhe avisando que eu não tinha filho nenhum, que nunca os tivera, era uma questão de princípios, pois levava ao pé da letra aquela máxima do Nelson Rodrigues que dizia que o melhor era nunca ter filhos. Ainda assim o rapaz continuou insistindo em sua afirmação sem propósito, até me lembrou algo que eu não sabia o quê, e eu fui ríspido, dizendo e iniciando o embate: não vê que não pode ser?, ele disse: quem não vê é você, tanto pode como é, eu quis saber: quem é a sua mãe?, ele respondeu: isso já não importa, eu perguntei: como não importa?, ele disse: a única coisa que importa é que o que eu digo é a pura verdade, quer acredite ou não, eu perguntei, então: como pode ter tanta certeza, aposto que não sabe nem o meu nome, quanto mais se sou mesmo o seu pai? Eis aí que o rapaz sacou um envelope pardo de dentro da sua pasta de couro, tirou alguns papéis que tinham impressos um timbre com o nome de um laboratório e entregou em minhas mãos. Perguntei: o que é isso?, ele respondeu: um exame de DNA para comprovação de paternidade. Fiz outra pergunta: e eu com isso?, ele respondeu: é o seu material genético que foi analisado e comparado com o meu. Eu duvidei: não me lembro de ter feito nenhum exame desse tipo, como pode ter feito isso sem o meu conhecimento e consentimento? E o rapaz respondeu: não é preciso nem uma coisa nem outra, desde que seja utilizado material descartado como baganas de cigarro ou preservativos usados. Mais uma vez perguntei, me fazendo de indignado: você fez isso?, ele assentiu com um murmúrio, e perguntei ainda mais uma vez: você por acaso é advogado?, e ele respondeu: com certeza. Então foi a sua vez de perguntar: quer um resumo do que está escrito aí?, e eu respondi: não se dê a esse trabalho, e perguntei: o que quer de mim de verdade?, e ele respondeu com outra pergunta: eu já não disse?, forcei um ar de desprezo e respondi: se disse não ouvi, se ouvi não prestei atenção. Ele suspirou e revelou: vim cobrar uma dívida e cumprir uma promessa. Perguntei: que dívida, que promessa? Ele respondeu: você vai saber daqui há pouco. Eu perguntei: afinal, o que foi que lhe fiz? Ele respondeu: a mim, diretamente, nada, mas à minha mãe... Gaguejou, não terminou de falar. Eu pedi: explique melhor essa história. Ele pegou sua carteira, tirou uma fotografia e mostrou-me. Olhei-a, havia uma mulher muito magra e com ar de doente sentada numa cadeira com um bebê no colo. Reconheci a mulher, parecia uma antiga namorada. Era uma das que insistira que estava grávida de um filho meu, eu só não me lembrava bem qual delas, já que haviam sido tantas e tantas. Ele perguntou: você a conhece? Menti: não, nunca vi essa mulher. Ele não prestou atenção ao que eu disse, falou como se tivesse sido outra a resposta: bem, essa mulher que você abandonou grávida e contaminada pelo Vírus, era a minha mãe, e morreu um dia antes da minha formatura. Eu disse: sinto muito, depois perguntei: e você?, ele: eu o quê?, eu: você também é soropositivo?, ele: não, graças à minha mãe, que fez o Pré-natal e evitou que eu herdasse essa maldição, eu: fico feliz, ele: (lágrimas tímidas, em silêncio.) Súbito percebi que a conversa toda se dera na porta, então quis ser educado, convidei-o para entrar. Ele aceitou, entramos, o fiz sentar-se, disse: vou passar um café pra gente, ele disse: obrigado (como quem diz: é tudo o que tem a dizer: vou passar um café?), mas abri a lata e não havia pó, eis porque tive de dizer: o pó acabou, e, ríspido, ele sentenciou: esqueça o café, não vim aqui para usufruir sua hospitalidade. Voltei, sentei-me numa cadeira velha bem de frente pra ele. Ele comentou: você não parece doente, eu: mas pode acreditar que estou, quer que lhe mostre as manchas em meu dorso?, ele: não. Um minuto de absoluto silêncio, um certo constrangimento de estranhos, ao fim do qual, ele pediu: pode começar, eu perguntei: começar o quê?, ele: a fazer a sua defesa, irritei-me com sua petulância, levantei-me (ele fez o mesmo) e exclamei: peraí, não estamos num tribunal, quem você pensa que é, meu juiz?, ele disse: mais que isso, eu berrei: ah, pára com isso, fiz uma pausa, respirei. Ele me olhava, frio. Resolvi fazer o seu jogo: está bem, espera o quê?, que eu diga: me arrependi de ter feito o que fiz?, se é isso, esquece, não me arrependo de nada, e pra falar a verdade nem me lembro direito da sua mãe, deve ter sido só mais uma dessas vadias que eu comi, lambi os beiços, depois chutei. Parei de falar, esperei-o se pronunciar. Ele nada fez, nada disse. Eu, sim, disse mais: eu era jovem, irresponsável, imaturo, transava feito um doido, não usava camisinha, não estava nem aí pra nada, devo ter contraído a merda do vírus duma dessas vadias que dão o rabo pra todo mundo. Nova pausa, novo desconcerto. Continuei: fiz cagada, claro, mas quem nunca as fez?, e não pense que não estou pagando por isso tudo, olha pra mim, o muquifo onde moro, estou aqui de favor porque senão estaria na rua, me drogando, definhando até a morte, afinal nesta bosta de país a vida está difícil até para quem tem estudo, imagine pra um coitado dum aidético filho da puta feito eu que não completou nem o segundo grau. A última pausa, o último intervalo. A última gota de cinismo: pelo menos você está bem encaminhado na vida, teve mãe, estudo, se formou, nem tudo são cagalhões boiando na água. Ele perdeu a calma, enfim, gritou: não me venha com essa, agora, se fosse por você eu estava fodido. Gritei no mesmo tom (agora sim, usei de um verdadeiro cinismo): o que foi, a bichinha tá magoada porque se criou sem o papai? Ele: você é mesmo um merda. Eu: é, sou mesmo, já não disse? Ele: está pronto? Eu: pronto pro quê? Ele: para conhecer os outros? Eu: que outros? Ele: seus outros filhos. Emudeci, outros filhos, não pode ser, pensei. Sim, se queria me surpreender, o babaca parecia ter conseguido. Ele abriu a porta, fez um sinal para a rua. Não tardou, e eu estava diante de outros três supostos filhos. Todos aparentavam ser mais velhos que o advogado, dois eram brancos; um, mulato de olhos verdes. Perguntei: pra quê tudo isso? O que era advogado, cujo nome nem havia perguntado, e chegara antes de todos foi quem disse: suas histórias são parecidas com a minha, o mesmo abandono, a mesma dor, a mesma perda da mãe, ainda jovens; mas não a mesma sorte. Perguntei: por que não estudaram? Ele: não, porque herdaram a porcaria do vírus. Engoli em seco. Eu disse: não parecem doentes. Ele disse: ainda não estão, graças aos novos tratamentos que a justiça fornece de graça. Eu disse: ainda bem que têm um irmão advogado. O advogado disse: você nem imagina a importância disso. Perguntei: o que pretendem? O advogado respondeu: não é capaz de adivinhar? Era. Por isso, estremeci. E então chegou a hora: meus filhos me cercaram, menos um, e vi que cada um tinha uma faca na mão. Perguntei ao advogado, que se encaminhava à porta: e você, não vai ficar? Ele respondeu: não posso sujar as minhas mãos, e concluiu: afinal, eles vão precisar mais de mim no tribunal. E dito isso, começou: logo senti uma estocada no abdômen, depois outra nas costelas, mais uma no rim direito. Instintivamente, num desespero de condenado, procurei algo com o que me defender, uma faca, uma arma, qualquer coisa, mas não encontrei nada, merda nenhuma.
MAXIMILIANO DA ROSA
Enviado por MAXIMILIANO DA ROSA em 08/02/2006
Código do texto: T109594
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Sobre o autor
MAXIMILIANO DA ROSA
Imbé - Rio Grande do Sul - Brasil, 43 anos
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MAXIMILIANO DA ROSA