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Eu Sou Triste - Vencedor do 7 Concurso Literatura Fundação Culutral de Canoas 2004

Eu sou triste: muito mais que triste, melancólico e desgraçado. Minha cara magra, macilenta, tem a textura do papel amassado e a cor lastimável das impinges purulentas e dos dentes encardidos de nicotina e alcatrão baratos.
Carne velha, a minha. E mais que antiga, e mais que doente, pútrida. Meus olhos desbotaram, perderam a cor, o viço, e a bela luz da infância. Agora, como única saída, meu espírito jaz num limbo de temores inconfessáveis. À espreita, à espera de novos demônios para catalogar em meus delírios.
Sou triste, infeliz, amargura em goles longos, já o disse, e novamente o digo.

Gente feliz me deprime, me dá nojo, me faz chorar de raiva.
Por isso tenho uma arma. Mais que uma arma: um rifle com mira telescópica. Por isso eu o tenho: para dar um fim na felicidade alheia, em qualquer forma de alegria, qualquer coisa que não se pareça com a minha própria tristeza doentia. Coisa fácil de fazer, diga-se. Porque essa gente feliz é desprevenida, desatenta, não usa arma, nem colete à prova de balas.

Gente feliz caminha na rua de mão dada com a família no meio da rua.

Gente feliz toma sorvete na calçada, na frente de todo mundo, se lambuzando, lambendo os dedos, e rindo sem parar.

Gente feliz faz amor por todos os cômodos da sua casa, depois come pipoca doce atirada no sofá da sala enquanto assiste aqueles filmes mais que antigos e ainda acha a maior graça.

Gente feliz não diz nome feio, não faz gestos obscenos no trânsito, não manda ninguém tomar no cu, não fala merda, e não envia seus filhos para internatos na Suíça. Gente feliz faz piquenique no meio do mato, e toma banho de cascata sem roupa.

Gente feliz passas as férias em Mariluz, Bariloche, Punta Del Este, Cambouriú.

Gente feliz tem gato, cachorro, passarinho.

Gente feliz tem computador com acesso à internet, máquina de lavar com acesso à internet, torradeira com acesso à internet.

Gente feliz não passa a noite guardando lugar na fila do INSS para vender de manhã por dez reais.

Gente feliz é como criança, que não tem medo de nada, que gosta de tomar banho de chuva, e de rolar na lama, e de quebrar as lâmpadas da iluminação pública.

Enfim, senhores, gente feliz é presa fácil. Para gente como
eu, macambúzia, taciturna, emaranhada em desilusões, em descompasso com o tempo.

Eu sou triste, os outros são felizes. Para acabar com isso é fácil. Basta uma arma como a minha, e às vezes, nem isso. Um pouco da paciência dos desiludidos ajuda. E ter boa mira é requisito imprescindível para seguir em frente acabando com a felicidade alheia. Sorte faz parte. E estômago. Para não vomitar na cara de suas vítimas.

Entenda: não sou um matador. Sou apenas um homem triste com uma arma. Nunca atiro para matar, só para acabar com a vida da pessoa. Note, são duas coisas bem distintas, matar e acabar com a vida. Matar é pouco, é preciso muito mais, é preciso destruir os sonhos, criar conflitos. Uma arte. Arte como a dos escritores.

Gente feliz não tem o que contar, não serve de nada, é matéria vazia, enfadonha, desinteressante para a literatura. Um mundo cheio de gente feliz afoga-se no tédio.
Não, matar eu não mato. Já matei, sim, confesso. Mas não propositadamente. Não intencionalmente. A morte não me dá prazer. Só sofrimento, a desilusão alheia. Isso, sim.
Escolho minhas vítimas com muito cuidado. Estudo a sua vida, me disfarço, entro em suas casas, elaboro um plano. Muitas vezes o tiro perfeito não vem da arma. Uso de outros meios. Conflito é a palavra chave. Sou muito bom nisso, admito. A coisa que mais gosto de fazer é criar intrigas. Ah, como me dá prazer. Nem sempre dá certo, verdade seja dita. Exemplo: outro dia investiguei a vida de uma família perfeita; ele, analista de sistemas; ela, consultora de moda; a filha muito bem na escola; ou seja, todo mundo feliz. Não havia uma única mácula, nenhum grande segredo que explorar, nenhuma forma de semear a discórdia, o que é raro.

Tive de apelar, arriscar. Segui a família em um de seus passeios. Muito bem oculto em meu furgão, disparei uma única vez. Bem nas costas do amável pai de família. Ele morreu? Não, não, ficou apenas paraplégico. Apenas? Chega a ser cômico dizer uma coisa dessas. Talvez você não saiba o que seja ficar paraplégico para um homem. Perder o movimento das pernas, a virilidade. Principalmente quando se tem uma bela e jovem esposa em casa. Aí, meu amigo, o amor não basta para manter as coisas no lugar.

O homem perdeu o emprego, e agora é sustentado pela mulher, e é com o dinheiro dela que ele paga para um michê fingir que é apaixonado por ela; a filha tem vergonha do pai na cadeira de rodas, ainda que seja uma moderna cadeira motorizada.

Viu? É fácil. Sempre dá certo. Tudo vai bem quando está bem.
É isso o que me dá prazer, a dor em seus rostos lívidos, macilentos.

Não há futuro para mim. Não há. O futuro é um cavalo lanhado, caído na beira da estrada, ou um macaco gordo jogado nos trilhos do trem urbano de superfície. Se hoje sou um homem triste com uma arma, houve o tempo em que tudo era diferente. Um outro tempo.

Idílios reciclados entupindo minha boca, eu era feliz. Eu juro, posso jurar de pés juntos que era. Há dez, quinze, não, vinte anos atrás, eu era. Eu fui.
Vendendo livros de porta em porta eu era feliz. Não, sapatos. Não, roupas. Não, mas que mentira, a minha. Mentira deslavada, essa. Trabalhando o dia todo num grande escritório encravado no coração de uma cidade ainda maior, bebendo o ar artificial, gelado da minha sala, quase nunca sem ver a luz do sol—desse mesmo sol que agora corrompe as minhas carnes, que lava a minha pele com seus raios venenosos e a banha de feridas cancerígenas—eu era mesmo um sortudo feliz. Mas hoje sou triste.

À noite, em casa, quando fazia amor morno e mecânico com a minha esposa de dentes perfeitos e seios murchos, eu era feliz.

Mais: enquanto digitava números poéticos no teclado macio de um computador que nunca travava, ou quando fazia amor louco, e beijava os grandes lábios da minha secretária e a esbofeteava depois da felação, eu era feliz. Feliz às pampas.
Triste eu não era.

Eu era feliz nas tardes úmidas e frias, ou mormacentas e quentes de sábado quando trocava comida e papelotes de cocaína pelo efêmero prazer de trepar com belas meninas, e meninos, de doze, treze anos. Mas não sem antes filmá-los, fotografá-los nus, seus corpos magros, genitália exposta, pronta para ser exibida na rede mundial de computadores, onde eu angariava belas somas em dólar vendendo o material para os mais bem conceituados sites de pedofilia.

Havia sempre gente batendo à minha porta, nesse tempo de felicidade. Estrangeiros, principalmente, que pagavam ainda mais para ter em mãos não apenas as fotografias digitais, mas os próprios modelos, seus corpos jovens, suas púbis quase sem pêlos, seu hálito cheirando a leite.
Vejam, senhores: essa era a minha suprema felicidade, minha vida feliz. Túrgida, graúda, molhada.

Não apenas eu era feliz. Minha esposa, por exemplo. Quando contratava garotões sarados de dezoito anos para comê-la, ou quando publicava anúncios em revistas eróticas em busca de casais liberais para horas intermináveis de sexo à três, ou mais, ela era feliz. E eu também, enquanto assistia.
E o que dizer de meus filhos? João e Maria em busca de doces na floresta encantada. Felicidade impressa no fundo dos olhos, marcada a fogo na pele. João, aos dezesseis anos de idade já era o feliz e assíduo freqüentador de clinicas para recuperação de dependentes químicos. Enquanto Maria vivia feliz, anoréxica, esquálida, desfilando suas mazelas sentimentais ao lado das mais belas modelos internacionais.
Família feliz, a minha. Ah, não acredita? Eu mostro. Ainda guardo os retratos coloridos no meu barraco na beira do arroio. Está tudo lá, os sorrisos largos, os olhos vívidos.
Mas acabou, findou-se tudo. A felicidade, fatigada, cansada de tanto trabalho naquela casa, resolveu juntar suas tralhas, e partir. Sem deixar vestígios. Sem dizer adeus, sem olhar para trás. Louca. Desvairada.

E não foi desacompanhada. Levou consigo a minha esposa, que, por sua vez, levou todo o meu dinheiro, meus ricos dólares. Tudo. Não satisfeita, vendeu jóias, móveis, roupas, carros. As obras de arte. Vaca. Não, não levou nenhuma vaca. Ela é que era uma vaca. Vagabunda ordinária. Vadia. Mandou-me cartões postais da Inglaterra, da França, e ironicamente, da Índia, onde as vacas como ela são animais sagrados.

E o meu castelo de cartas marcadas continuou a ruir. Meus filhos morreram. Um de cada vez. João, metido em disputas de grupos rivais durante uma rebelião no presídio onde cumpria pena por tráfico de drogas. Maria, ao ser pisoteada numa festa depois de ingerir comprimidos de ecstasi e desmaiar.

E a vagabunda da mãe das crianças não foi capaz de aparecer nem no velório, nem no enterro dos próprios filhos.
Resultado disso tudo: perdi casa, emprego, o pouco do dinheiro que me restara. Mesmo o dinheiro do desfalque que havia dado no escritório. Sozinho, abandonado, triste e infeliz, acabei onde sempre acabam as pessoas tristes e infelizes, não importa que seja um clichê muito mais que surrado:  vivendo na sarjeta, mergulhado na bebida, nas drogas, roubando para comer.

Mas nunca fui um fraco, e esforcei-me para me recuperar. Furtei uma motocicleta, comprei uma arma de brinquedo, e assaltei um posto de combustíveis. Com o dinheiro tomei banho, comprei roupas, e parti para o ataque. Entrei num cybercafé, e usando meus conhecimentos de informática consegui limpar a conta de um gringo que costumava usar os serviços da minha antiga “agência de modelos”. Angariei uma bela quantia. Suficiente para reconstruir a minha vida. Um crime perfeito. E até aí tudo estava bem.

Foi quando cometi o meu maior erro. Eu planejava viajar para a Inglaterra. Era onde estava a minha esposa. Pretendia localizá-la e tomar de volta o que era meu, e de quebra, me vingar de sua traição. No entanto acabei nas mãos da polícia federal antes mesmo de por os pés no avião. A ironia é que não estavam atrás de mim, mas da menina que me acompanhava.
 
Seu nome era Suzana, e eu a havia conhecido numa dessas inúmeras salas de bate-papo da rede mundial de computadores. Depois que ela enviou-me a sua foto, e revelou-se uma ninfeta deliciosa, não consegui resistir ao desejo de encontrar-me com ela. Ah, ela era tão linda, a pele fresca, os olhos de um azul profundo e melancólico. Contei-lhe sobre a viagem que pretendia fazer e ela pediu para ir junto. Eu disse que não, que ela não poderia ir, era uma viagem só de ida. Mas ela acabou convencendo-me do contrário com sua língua ligeira, com suas mãos hábeis.

Providenciei documentos falsos para ela, identidade, passaporte, tudo.

Estava tudo certo, não fosse um detalhe mais que relevante. A desgraçada era filha de um político importante, um ministro do primeiro escalão do governo. Era dele que ela fugia. E enquanto me presenteava com jorros de felicidade explícita e imprópria para menores, a Polícia Federal e a imprensa do país inteiro estavam de prontidão. Não deu outra.
Acabei preso, torturado, julgado e condenado. Descobriram meus crimes virtuais, a minha antiga ligação com o tráfico de drogas, e com uma rede internacional de prostituição e pedofilia. A garota, claro, negou todo o nosso plano e ainda acusou-me de seqüestro.

Amarguei anos e anos de cadeia. Sofri o diabo. Sobrevivi a rebeliões.

Mas consegui escapar daquele inferno. É por isso que sou um homem triste, agora. Que vivo nas ruas. Que tenho um rifle. Que me empenho na tarefa de disseminar o medo, a dor, a infelicidade alheia.

Sou triste, muito mais que triste. Sou um homem triste com uma arma. O mais engraçado é que recebo muitas propostas de gente importante. Gente importante querendo matar gente importante. É quando tenho de dizer que não sou um matador. É quando digo: matar é pouco. É preciso fazer mais, muito mais.
MAXIMILIANO DA ROSA
Enviado por MAXIMILIANO DA ROSA em 08/02/2006
Reeditado em 22/02/2006
Código do texto: T109608
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Sobre o autor
MAXIMILIANO DA ROSA
Imbé - Rio Grande do Sul - Brasil, 43 anos
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MAXIMILIANO DA ROSA