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A Escolha

    A dor na cabeça era latejante. Ainda com os olhos fechados ele tentava se lembrar a origem daquela dor proveniente de uma forte cacetada. Não lembrava de nada, talvez por causa da pancada. Abriu os olhos, estava sentado numa pequena sala de pouca luz, a vista ainda estava embaçada, mas em questão de segundos a sua visão acomodou-se aquele ambiente estranho e desconhecido. Ainda sentado visualizou três portas. Pelo menos não estava num beco sem saída. Finalmente ele se levanta, olha o que está atrás dele e vê apenas a parede verde e no teto a luz que ilumina aquele lugar. Sair dali foi a primeira coisa que lhe ocorreu, mas tinha três portas, em qual deveria entrar? Em qualquer uma, o importante era sair dali. Resolve entrar na porta do meio. Gira a maçaneta e sem problema consegue entrar, só que em outra sala idêntica a anterior, e do lado da porta que ele apareceu tinha outras duas portas. Está sem saída. Voltou para a sala em que ele acordou, mesmo sabendo que não faria diferença alguma. Do ponto de partida ele pára e pensa, talvez a memória volte, pois a cabeça já não doía tanto. Imagens surgem ao fechar os olhos. Primeiro ele se vê cometendo um crime e a outra imagem ele testemunha um crime. Não se lembra de ter feito ou presenciado isso antes. Essas imagens devem estar relacionadas com as portas, só que há 3 portas e ele só viu dois fatos. Quer dizer que uma porta leva a um lugar desconhecido. Após constatar isso ele ouve uma voz:

“Caro amigo, você tem três opções para sair daí. Uma das portas te leva a um passado em que você cometeu um crime. Assassinou o seu chefe que te despediu e se entrar nessa porta terá duas escolhas: ou confessa o crime para ser condenado ou nega o que fez e terá outras conseqüências que podem boas ou ruins. Uma outra porta te leva a ver seu próprio filho cometendo um crime, você é a testemunha, junto com outras pessoas, seu filho vai a julgamento e lá você terá que decidir se entrega ou não o seu filho. E uma terceira porta é uma surpresa inclusive para mim. Boa sorte”

O que ele estranhou foi que a voz que contou os fatos era a própria voz dele. Mas como? Ele resolve pensar nisso mais tarde, o mais importante é escolher a porta que não seja àquela que o vá levar a voltar numa cena de crime, nem aquela que ele testemunha o filho cometendo o crime. Olha fixamente pras três portas, volta a pensar nos fatos, depois fica sem pensar em nada e escolhe a porta da esquerda para entrar. Ao abrir a porta se depara novamente com aquela sala idêntica, ele nem entra. Voltou e fechou a porta e ficou no centro da pequena sala. Compreende então que deve pensar bem antes de escolher, convicto agora ele escolhe a porta do meio, caminha até ela e quando a abre:

Ele vê a sala do homem que o despediu. Nesse lugar ele se lembra dos fatos. Lembra que foi despedido após ter trabalhado quinze anos naquele lugar e que um jovem foi contratado para substitui-lo, no primeiro momento ele aceita, vai embora, mas quando estava na calçada, ele volta para o escritório do chefe. Agora estando novamente nela, caminha em direção ao homem e lhe dá uma porrada na cara que o faz cair. O homem começa a gritar, ele então segura no pescoço do homem enforcando-o até ele perder o ar. Matou o seu chefe. A porta se abre e outros funcionários aparecem gritando desesperadas. Pedro, o que foi que você fez?! – era o que todos perguntavam. Minutos depois a polícia apareceu e o prendeu. Dias depois foi julgado num tribunal, e quando o promotor pediu humildemente para que ele confessasse o crime, Pedro respondeu: Eu nego! Não matei. A polícia o pega pelo braço e o leva até uma porta, joga ele lá dentro. Ao ser jogado ele bate a cabeça contra a parede e acorda...
Acorda na mesma sala das três portas. Muito estranho, ele pensou. Negou um crime e conseguiu uma segunda chance. Por quê? Sobrou agora a porta direita e a esquerda. E numa delas ele testemunha o filho cometendo um crime. Volta a pensar no único fato que lhe restou, mas espera escolher a porta que o leva a outro lugar desconhecido. Decide então pela porta da direita, caminha até ela e quando a abre...

Ele se vê saindo de um meio de transporte, um metrô na verdade, e ele está ao lado do filho que some na multidão e ao procurá-lo enxerga um tumulto próximo a escada. Vai até lá e vê o filho socando intensamente um outro homem, até que o filho fica em cima do cara e aperta a sua garganta até o homem perder o ar. A polícia logo aparece e confirma o óbvio: o rapaz tinha matado o homem. Seu filho que tem o mesmo nome dele, Pedro Sanches Junior, é levado preso por ter matado o homem que tinha lhe admitido para um emprego, mas que quando ele apareceu para trabalhar o tal homem tinha mudado de idéia e contratou outra pessoa no lugar dele. Dias depois vai a julgamento. Novamente um promotor e por coincidência o mesmo que pediu pra que ele confessasse o crime, pergunta a ele que está como testemunha se viu o filho cometendo o cirme. O pai nega, disse que foi embora depois que perdeu o filho de vista. Mesmo assim o filho dele vai preso. Após terminar o julgamento, Pedro vai embora, e quando atravessa a porta principal do tribunal, ele volta...

Ele volta a sala das três portas. Será que tinha feito o certo? Agora só lhe resta a porta da esquerda, vai até ela e entra em outra sala. Idêntica a outra, a não ser pelo fato de ter apenas duas portas. Mais uma escolha a ser feita. Pensa em qual porta deve entrar. Segundos depois decide pela esquerda, abre a porta...

E entra algemado mais uma vez no tribunal. O tempo passa rapidamente e mais uma vez aparece o promotor pedindo para que ele confesse o crime. E dessa vez ele diz: eu confesso, eu matei o senhor João Carneiro após ele ter me demitido, fiquei com raiva e o matei, disse Pedro. Mais uma vez a polícia o pega e leva pra delegacia. Só que não um jogam numa jaula, mas sim numa sala escura, abrem a porta e o jogam lá dentro, ele abre os olhos e vê...

Que tinha voltado à sala de duas portas. Agora só lhe restou uma porta. Após entrar, se depara com outra sala idêntica, só que com apenas uma porta. Sem ter escolha, ele abre...

E aparece mais uma vez na posição de testemunha, o julgamento está naquele momento em que o promotor pergunta se ele viu o filho dele no meio da confusão, o pai então responde: Sim, eu o vi. O juiz o declara culpado e o condena a trinta anos de prisão. Semanas depois, o pai vai visitar o filho na cadeia. O filho pergunta porque o pai ficou pouco tempo na cadeia, e o pai responde porque descobriram armações que o chefe dele fazia e que isso prejudicou o pai e o fez ser demitido. O pai diz que está tendo essa segunda chance para ensinar o filho que coisas boas e ruins acontecem durante a vida, só que não nos devemos abalar nas horas ruins e nem nos vangloriar nos momentos bons, tudo acontece por um motivo que só no fim da vida iremos compreender. Terminado o tempo de visita, o filho se despede do pai e é levado ao pátio da cadeia. Lá começa uma briga e Junior está no meio. Leva uma cacetada na cabeça e desmaia. Fica inconsciente por muito tempo até que acorda num lugar pequeno e quando sua visão de restabelece ele vê diante de si as três portas.

FIM

10/02/06
Miguel Rodrigues
Enviado por Miguel Rodrigues em 10/02/2006
Código do texto: T110247
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Miguel Rodrigues
Barueri - São Paulo - Brasil, 33 anos
1432 textos (42646 leituras)
6 e-livros (1681 leituras)
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Miguel Rodrigues