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A APOSTA

                                             


                                         


    Em l967, por motivos políticos, eu fora transferido da Coletoria Estadual de Britânia para a Coletoria de Jussara.
Trabalhavam comigo em Jussara, o agente arrecadador Carlos Bezerra de Castro  que também há pouco tempo havia sido transferido da Coletoria de  Novo Brasil, e o titular da mesma que era o Mamede Borges Taquari, ambos já falecidos.
   O colega Carlos gostava de contar casos, inclusive alguns que dizia ter acontecido em sua cidade natal, que era Correntina no Estado da Bahia. Dentre eles passo a relatar um que achei interessante, mas não é necessário que acreditem, pois apenas estou reportando o fato como me foi contado. Assim foi:
   Lá pela década de cinqüenta, existia um grupo de amigos que sempre se encontrava em um determinado bar de Correntina para botar a conversa em dia e beber umas cervejas. Estavam constantemente juntos  José do Vitor, o Gentil, o Gabriel, o Tonico, que tinha o apelido de "Peba" e o Gregório que também era chamado de "Grego".
   Numa dessas reuniões, estava em discussão o assunto valentia. O Grego se dizia ser valente. Nunca tivera medo de nada e não fora "filho de pai assustado".
   O "Zé do Vitor" era o mais recatado, o mais temeroso. Tinha medo de tudo. Dizia que se visse um defunto, passaria uma semana sem dormir e sonhando com aquilo.
   O Gentil e o Gabriel também não tinham medo, mas não abusavam. Depois de muita cerveja e bate papo, já com a “cuca” cheia  o  Peba resolve fazer uma proposta ao Grego:
   - Grego, eu aposto duzentos cruzeiros como você não tem coragem de  entrar no cemitério sexta-feira a meia noite.
   O Grego que era louco por dinheiro, naquelas alturas, já bastante embriagado, foi logo aceitando a aposta, e querendo mais detalhes.
   - Você tem que tirar a roupa e deixar pendurada no cruzeiro, ficando todinho pelado. Mas como nessa hora está muito escuro lá dentro, você leva um pacote de velas e as acende deixando-as ali mesmo no pé da cruz. Em seguida você vai se   deitar  lá na campa  da capela e ficar quieto pelo menos meia hora
   Peba explicou como seria, mas no caso de desistência ou não cumprir a aposta, quem pagaria era o Grego.
No dia seguinte, Peba se encontra com o Sebastião e sem comentar sobre a aposta que fizera com o Grego, também propõe uma aposta com ele, nas seguintes condições:
   - Tião, você anda falando pra todo mundo que é o cara mais valente de Correntina, eu duvido muito. Mas para provar isso, você teria coragem de entrar no cemitério numa sexta-feira à meia noite?
   - Claro que eu tenho! Respondeu  o Sebastião. Quanto é que você me paga  para eu fazer isso?
   - Eu pago cem cruzeiros, mas não é só isso. Você vai ter de pular o muro, pegar lá no cruzeiro duas velas que estarão acesas e ficar dando voltas em torno da capela  e carregando um  enxadão, recitando assim...
   E Peba ensina o que o Sebastião teria de recitar. E ficou acertado que  seria na próxima sexta-feira.


                                                 
                                        II




   Na sexta-feira o Peba se encontra com o resto da turma e conta que  naquela noite é que iriam testar a valentia do Grego e do Tião, e que nem um dos dois sabia que havia mais de um na aposta.
   A turma ficaria do lado de fora do cemitério, aguardando os acontecimentos. Levariam uma garrafa de cachaça e iriam se divertir a valer.
   O velho relógio da torre da praça estava preste a iniciar as doze badaladas, quando um vulto sorrateiramente abre o portão do cemitério e se dirige ao cruzeiro. Era o Grego, que rapidamente acende um punhado de velas e as deposita ali mesmo. Em seguida se despe, deixa as calcas, cueca e camisa penduradas no braço da cruz, e vai até a capela e lá dentro, se deita sobre a campa conforme fora combinado. Não queria demonstrar aos companheiros, mas agora estava apavorado! O coração batia apressadamente, e ele percebia que fora longe demais ao aceitar aquela aposta.
   Enquanto isso, lá fora o relógio inicia as primeiras badaladas!
   Então aparece o Sebastião que com um  enxadão nas mãos e olhando para todos os lados, muito desconfiado, acha uma pilha de tijolos encostada no muro do cemitério e após escalá-la, salta para dentro e caminha rumo ao cruzeiro. E pensava:
   - Que fria que eu me meti! Só porque fico falando pra todo mundo que sou o cara mais corajoso de todos, agora estou aqui dentro passando o maior medo da vida! Mas também não é todo dia que me oferecem cem pratas! Só espero que o Peba me pague direitinho, senão o pau vai quebrar... Virgem Maria, eu estou com medo!
   E assim mesmo vai até o cruzeiro, que ficava no meio do cemitério, pega duas velas acesas e com o enxadão no ombro direito, segue rumo à capela. Em seu trajeto vai dizendo:
   - Há um defunto pelado,
   - Na campa deitado,
   - O defunto pelado, na campa deitado,
   - Vai ser enterrado!
   O Grego que já estava com os nervos à flor da pele, com os olhos esbugalhados de terror, vendo aquela figura de um homem carregando umas velas acesas na mão e um  enxadão dizendo que iria sepultá-lo, levanta-se e sai correndo. Dá  de cara com o suposto coveiro fantasma e grita:
   - Eu você não vai enterrar agora não, assombração das profundas! “Vade in retro” Satanás!
   E afundando os pés em covas sai em desabalada carreira, arrebentando tudo pela frente, derrubando cruzes, não se lembrando nem de pegar as roupas, atravessa o portão e cai desmaiado na rua, do lado de fora.
   Tião que também já estava trêmulo de medo, ao ver aquela figura nua levantar-se da campa e vir ao seu encontro gritando, larga o enxadão e velas e desesperado volta para o lugar de onde veio. Saltando o muro, desce a rua correndo o mais que suas pernas podem, até chegar à praça, onde se assenta num banco e  tenta se refazer do susto. Tremia tanto que chegava a bater o queixo. Toda a vizinhança ouviu o bater de dentes do Tião.
   Aquela  sua coragem fora demais. Passara dos limites.   Jamais poderia imaginar que havia um defunto nu lá dentro do cemitério. Não estava entendendo nada daquilo.
   Nesse momento, no portão do cemitério, Peba e seus companheiros faziam tudo para reanimar o companheiro desfalecido. Carregam-no ao hospital e passam a noite ao seu lado, preocupados, sem antes pegarem suas roupas no cruzeiro.
   Zé do Vitor resolve ir embora e ao passar na praça, encontra Tião sentado em um banco do jardim.
   Encontra-o todo confuso e arranhado, pois também ao ser esbarrado por aquela estranha figura nua se machucara  todo ao cair dentro de covas abertas e tropeçar em tumbas. Leva-o para casa deixando-o aos cuidados de suas irmãs, sem antes prometer explicações do que acontecera.
Depois desse dia, Grego ficou com sérios problemas mentais e Tião levou um bom tempo para saber direito o que havia acontecido.
    Nenhum dos dois nunca mais se meteu a  ser valente e também fazer apostas.
 
Milgo
Enviado por Milgo em 21/02/2006
Código do texto: T114618
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Sobre o autor
Milgo
Goiânia - Goiás - Brasil, 75 anos
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