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Parte 4 - Crônicas de um Homem do Tempo - Capítulo 12858 - Massacre

"Agora você é meu
Eu vou continuar matando você até o fim dos tempos
Surpresa! Você está morto!
Adivinhe só? Isso nunca acaba..."
Faith No More - Surprise! You're dead!


O jovem de gravata cor vinho, camisa social e calça cinzenta observa os cartuchos sendo cuspidos para fora da submetralhadora automática que se debate como animal selvagem em suas mãos, conforme as balas voam e se alojam nos corpos das pessoas próximas, derrubando-as como a uma fila de pedras de dominó.

Os primeiros que caem são os policiais, em quem o jovem faz fogo com determinação. Eles estão armados e poderiam tentar estragar seus planos.

As pequenas cápsulas da submetralhadora quicam no chão às dúzias, os policiais próximos todos caídos, agora é a vez de quem mais houver pelo caminho. Uma delegacia de cidade grande é sempre um lugar bastante movimentado, e muitos outros alvos aparecem para que o jovem possa atingir em seu joguinho. Prostitutas presas em flagrante e as policiais que as conduzem ao depoimento; casais divorciados que até há pouco encontravam-se discutindo e se agredindo, sendo contidos por agentes; pivetes detidos por porte de drogas; delegados e detetives, criminosos e homens da lei, todos vão sendo derrubados, junto com móveis e pedaços da fina parede de madeira compensada, até o momento em que a munição se esgota e a voz da arma silencia.

"Puta que pariu...", o rapaz pensa, sorridente, sentindo que o desafio se tornará mais interessante a partir daí, enquanto ouve outras armas sendo engatilhadas e gritos de palavrões, protestos e pedidos de clemência ao bom Deus. Alguém pede gaguejando que ele largue as armas, coloque as mãos na cabeça e se entregue, mas ele está longe de estar indefeso. Em lugar disso, ele se abaixa e apanha a arma do policial morto mais próximo.

- Maldito filho da puta! - alguém resmunga. - É um doido varrido!

- Porra! Ele matou TODO MUNDO, o miserável...

- Ele pegou uma arma! Atirem, porra, ATIREM! - E as balas vêm ao seu encontro, porém o jovem não está mais ali. É o momento de distorcer um pouco mais as regras do jogo, que como todo o bom videogame, deve sempre oferecer as melhores chances de sobrevivência ao personagem principal.

E o personagem principal deste jogo sabe que possui as regras do tempo em suas mãos, e que pode distorcê-las ao seu bel prazer.

Com um pensamento, o som cessa, e o jovem vê as balas paradas no ar em imagens azuis, todas dispostas a perfurar seu corpo.

Com calma o jovem se move e caminha pela sala, de arma em punho, enfrentando o ar pesado e atravessando as pilhas de corpos azulados pelo chão, enquanto projeções de som brotam de suas passadas, moldando o ar e estacionando em seguida, como bolhas transparentes e rígidas. Exceto para ele próprio e uma pequena parte do ambiente que o cerca, o tempo está parado e nada se move, e o ar resistente, tentando bloquear sua passagem, é apenas um reflexo do que acontece quando ele usa seu poder.

Ele se aproxima dos seis policiais remanescentes e aponta a pistola calibre 32 para a cabeça de cada um deles, pressionando o gatilho. Impelidas por uma brecha no campo de ação de seu poder de parar o tempo, as balas saem devagar do revólver, estacionando cada qual rente à têmpora de cada um dos seis homens.

Ainda com o tempo parado, ele sai da sala e abandona o prédio da polícia, não sem antes encontrar uma nova submetralhadora e abandonar a pequena pistola descarregada. Com um estalo alegórico de seus dedos, o tempo volta a seguir seu curso. O estranho tom azulado que se manifesta sobre a paisagem sempre que o tempo é parado deixa de enevoar as imagens, que voltam ao normal, trazendo consigo toda a carga sonora da cidade grande.

O retorno do som revela seis estampidos que repercutem em uníssono, dentro do prédio da delegacia. Ele adiciona mais seis corpos à sua contagem de pontos. E policiais valem MUITOS pontos de bônus!

Correndo pela rua, ele dispara escolhendo seus alvos a esmo, alegremente. Cinco ou seis pessoas desabam juntas, em uma parada de ônibus. Mais três caem no passeio, e outra na faixa para pedestres, enquanto atravessava a rua. Um jovem que se exibe em seu carro incrementado tem a cabeça varada por uma saraiva de balas, e o veículo desgovernado acaba fazendo mais uma porção de vítimas. Pontos e mais pontos...

O jovem sabe que o jogo é inteligente, de última geração, e as primeiras respostas às suas ações começam a aparecer. Carros arrancando e desrespeitando sinais de trânsito, atropelando pessoas que correm tentando fugir sabe-se lá do quê. Em meio ao pânico da população, o rapaz percorre o passeio. Uma simpática vovó tem seu pescoço dilacerado por uma seqüência de disparos, deixando a cabeça pender frouxa, como uma fruta pesada demais para o galho que a segura. Crianças ainda conseguem chorar, tropeçando ao terem pernas e braços esmigalhados pela furiosa salva de tiros, ao passo que adultos praguejam, ou rezam, ao verem o próprio sangue vazando dos inúmeros buracos que repentinamente surgem em seus corpos. Um pobre cão vira-latas tem sua barriga perfurada e se arrasta para lugar nenhum, acorrentado à morte pelas próprias tripas espalhadas pelo chão.

Um bebê chorando em um carrinho, abandonado pela mãe, morta, é um prato cheio para que o jovem possa ganhar alguns pontos extra, e ele sorri de forma maligna, enquanto abraça a criança e segura-a no colo, sabendo que mais policiais virão em breve, bem como os militares e as ensandecidas forças anti-terror, e ter um escudo como aquele é ótima garantia de sobrevivência no momento em que as balas dos adversários estiverem prontas para espocar outra vez em sua direção.

Depois de descarregar a arma em um carro que acaba explodindo e dizimando toda a multidão em fuga que havia em seu redor, o rapaz a joga longe e corre para o interior de um prédio residencial, desviando das pessoas que passam por ele, enquanto carrega a criança. Lá dentro, a comoção se alastra, e os passantes olham o recém-chegado imaginando que ele seja um herói que havia salvo um bebê da loucura na qual as ruas tinham se transformado.

- É um ataque de terroristas! - alguém exclama.

- Deu no rádio que é uma organização extremista não identificada.

- Ouvi falar que um homem-bomba explodiu aquela delegacia que fica a duas quadras daqui...

O jovem ignora o falatório e o elevador e abre a porta que leva às escadas escuras e vazias, sorrindo em meio ao diz-que-diz das pessoas na recepção do prédio.

Subindo as escadas em desabalada correria, ele olha impiedoso o bebê de olhar espantado, imaginando que talvez aquele seu escudo não seja mais necessário.

- Lembre-se bem, filho - diz ele, enquanto segura a criança por uma perna, e passa a rebatê-la pelas paredes, como se ela não passasse de um mero brinquedo de borracha. - A vida é uma merda, e sempre vai ter alguém ferrando com seu rabo. TORÇA para que não seja EU o cara que vai foder com você, quando você crescer, pois eu odeio toda essa sua raça de merda, e juro que vou traçar você com gosto, e vou cagar em cima do que sobrar!

Uma gargalhada insana ecoa de cima a baixo, nas escadas, junto com o som oco de pancadas, enquanto o corpo do bebê é continuamente rebentado nas paredes e degraus. - Vocês são todos uns merdas que crescem para ficar ferrando uns com os outros, mas eu não pertenço ao seu mundinho medíocre, e posso ferrar com TODO MUNDO, na hora em que eu quiser!

Quando chega ao terceiro andar, o jovem se detém, sendo observado por uma gorda senhora que estava parada junto à porta aberta do apartamento. Dois ou três gatos rodeiam suas pernas.

Ele toma fôlego, e levanta pela perna o corpo esfacelado e coberto de sangue da criança - Ele... morreu durante a subida - o jovem diz, com um sorriso amarelo. - Acho que sacudi ele demais... Pelo menos ele não chorou.

A mulher grita e tenta correr para se fechar dentro do aposento, mas o jovem é mais rápido e joga o corpo do infante de encontro ao seu rosto, o que faz com que ela caia.

Chutar uma velha baranga daquelas não é atividade das mais confortáveis, mas o jovem se esforça, e seu pé voa de encontro ao rosto dela uma porção de vezes, até que o sangue aparece e ele se cansa, arfando e apoiando as mãos nos próprios joelhos.

Ele sorri ao virar o rosto e ver os gatos, dentro do apartamento, que o olham com olhos arregalados, prontos para fugir ou arranhar, e avança para eles apanhando-os todos juntos em uma armadilha temporal.

Quando o tempo volta a andar em frente, o jovem está girando os três felinos seguros pelas caudas, arremessando-os em seguida pela janela aberta do apartamento. - Vamos descobrir se os gatos sempre caem de pé.

Sirenes. É chegado o momento do grand finale, onde a platéia se levanta e aplaude, e ele sobe no parapeito da janela solitária do apartamento, e vê os homens uniformizados chegando. Um megafone espalha aos quatro ventos algo que ele não ouve, e com um desengonçado salto mortal para a frente, ele se lança para baixo.

*****

O jovem de gravata cor vinho, camisa social e calça cinzenta caminha pela cidade, e passa em frente à delegacia, lembrando do que acontecera ali dentro.

O retorno no tempo era também uma de suas especialidades, e matar um monte de gente estúpida, sem remorsos ou receios, desfazendo toda a selvageria em seu ápice e fazendo com que tudo voltasse ao que era antes, era uma de suas maneiras prediletas de acabar com quaisquer crises de raiva e nervosismo. Era como um hobby, um passatempo que servia para evitar o stress. As pessoas eram medíocres, e ele sentia nojo ao ver criaturas tão mesquinhas e insignificantes. E quando a repulsa atingia um nível insuportável, nada melhor do que dar vazão aos seus ímpetos, de preferência de uma forma BASTANTE violenta.

Matar um monte de gente era sempre muito divertido e relaxante...

Andando pelo passeio, ele avança e vê as pessoas que matou. Acena para a simpática vovô e sorri para o bebê dentro do carrinho empurrado pela matrona reticente, o qual responde animado ao cumprimento, movendo de um modo frenético os braços e babando-se todo.

Em frente a um certo prédio, ele vê e cumprimenta a gorda senhora de olhar esnobe, saindo a passeio com seus três gatos, todos seguros por coleiras.

- Meu jovem, sua camisa está manchada - ela lhe diz, apontando para a manga da outrora impecável camisa social. - O que é isso? Parece... sangue... Você devia tomar mais cuidado, mocinho, ou vai acabar se machucando.

- Não se preocupe - diz ele, enquanto esfrega a mão na manga e segue seu trajeto pela cidade. - Eu NUNCA me machuco...
Fabian Balbinot
Enviado por Fabian Balbinot em 27/02/2006
Reeditado em 13/11/2014
Código do texto: T116837
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Sobre o autor
Fabian Balbinot
Caxias do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil, 44 anos
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Fabian Balbinot