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A nova carruagem



Era uma vez...
Há muito tempo atrás existiu uma cidade-estado de faz de conta. Nela havia alguém que, escolhido entre bons cidadãos e eleito pelos moradores do burgo de quatro em quatro anos, praticava os atos de governo. A ele se dava o nome de burgo-mestre.
Ao burgo-mestre eram concedidos direitos quase que inacreditáveis para o cidadão comum e, como acontecia na maioria dos casos, miserável  porque ao burgo-mestre era concedido o direito de morar no suntuoso palácio que se convencionou chamar de residência oficial. Nele o burgo-mestre tinha todas as despesas pagas. Da comida às roupas de cama mais finas, incluídos os gastos com a criadagem. Entre outras vantagens era concedido ao burgo-mestre o direito de utilizar-se de uma carruagem oficial.
Muitas negociações foram feitas entre sucessivos  burgo-mestres e os valorosos edis, representantes do povo na câmara legislativa e, após muito toma-lá-dá-cá, se garantiu verba para aquisição regular de carruagens sempre que uma estivesse gasta. Também foram garantidas enormes verbas para aquisição de novos cavalos, ração de primeira e salário dos  vários cocheiros. Alguns, por força do nepotismo - hábito execrável que existia naqueles tempos que nunca existiram - ganhavam os polpudos salários de oficial-cocheiro apesar de sequer possuírem habilitação para condução de uma simples carroça. Muita gente não concordava com essa mordomia porque, com o salário que ganhavam os burgo-mestres, bem poderiam usar suas próprias carruagens e custear suas alimárias.
    Nessa terra que nunca existiu as notícias sobre o que acontecia eram veiculadas através de uma folha manuscrita colada num poste no meio da praça central. Curiosamente as pessoas, notadamente as mais pobres, era as que mais gostavam de ler as notícias publicadas na coluna destinada aos ricos e poderosos. Nessa coluna, que séculos mais tarde seria conhecida como coluna social,  a gentalha podia saber como os ricos esbanjavam o dinheiro que, houvesse justa distribuição de renda, estaria nas bolsas de todos. Certo dia, na tal coluna, saiu uma nota dizendo que o burgo-mestre, recém-empossado, estava circulando com uma carruagem nova. Até aí nada demais porque esse era o costume, ou seja, burgo-mestre novo, tudo novo. E o povo pagando. O problema é que a tal carruagem, segundo dizia a nota,  era importada de um país distante, blindada (protegido assim o burgo-mestre de uma eventual pedra que pudesse lhe atirar um descontente) e que ela custara uma grande fortuna. O povo,  sempre tão conformado, se revoltou. Os que tinham que se valer dos carroções públicos para seus deslocamentos a locais mais distantes eram os mais inflamados. Como explicar o fato de o burgo-mestre anterior haver comprado uma bela carruagem dias antes da posse do sucessor e este, passados poucos dias, comprar uma carruagem que, pelo preço anunciado, era um tapa na cara dos cidadãos? Havia até os que pregavam a destituição do burgo-mestre. O clima era horrível e a revolução era esperada para qualquer momento.
     No dia seguinte estavam todos na praça ansiosos para ler as notícias que seriam publicadas dispostos a, não havendo explicação satisfatória, marchar rumo ao palácio do governo e linchar o burgo-mestre. Depois de muita espera apareceu o porta-voz do governo dizendo que, com as mentiras veiculadas, estava suspensa até segunda ordem a publicação de notícias. Percebendo a irritação crescente do povo  e muito mais para salvar a própria pele, leu em voz alta o esclarecimento do burgo-mestre. Aquele, dirigindo-se ao povo, afirmava que todos deveriam se acalmar porque nada acontecera de errado. Havia uma nova carruagem, era verdade. Esta carruagem, do modelo mais caro existente no comércio e blindada, estava sendo utilizada por ele mas, deviam saber todos, a carruagem não era dele e nada lhe custara. Na verdade – dizia a nota - havia sido emprestada por um grande amigo que residia em local distante. Tanto luxo, conforto e segurança não deviam ser entendidos como privilégio porque, era necessário que todos soubessem, um governante de gente tão laboriosa, honesta e que pagava tantos impostos não deveria andar numa carruagem qualquer desmerecendo a população e o vigor econômico do burgo. Exatamente por isso impunha-se à ele, digno  governante e humilde servidor do povo, o sacrifício de utilizar  uma suntuosa carruagem como aquela mas isso, deviam todos ter consciência, não para conforto próprio mas para que todos soubessem que o burgo era próspero.
    Houve um grande silêncio e quando todos começavam a se afastar aliviados um cidadão perguntou ao porta-voz o motivo do empréstimo porque na sede do governo, sabia-se, haviam outras carruagens em excelente estado e prontas a servir ao burgo-mestre e demais representantes do povo. Ante a perplexidade de todos e antes que alguém mais pudesse dizer algo, o porta-voz determinou aos guardas palacianos que prendessem o agente provocador e, ali mesmo, sem processo ou julgamento, foi decapitado.
Neste dia todos, mais uma vez, voltaram para suas choupanas infectas aliviados por saberem que a suntuosa carruagem existia por um bom propósito e, melhor ainda, que estavam livres do perigoso subversivo que, segundo afirmara o porta-voz pouco antes da execução sumária, não queria outra coisa senão  introduzir no meio do povo a desconfiança quanto aos altos propósitos do governo e, com isso, induzir uma situação de desgoverno e, propósito secreto, provocar a pobreza de todos.
Dario Castellões
Enviado por Dario Castellões em 01/03/2006
Código do texto: T117461
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Sobre o autor
Dario Castellões
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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