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ABSTINÊNCIA

ABSTINÊNCIA

Humberto Bley Menezes

a tarde embora triste e sonolenta esbanjando mel e escorrendo luz já minguando de alegria e festejo momento em que algo escorria pela boca da janela como se fosse inveja ou mesmo um pouco de resolução decidir seria ultrapassar conceitos alegrar marijuanas à parte os conceitos conservadores de orgasmo cívico roubar palavras como se roubam escarros esverdeados das florestas tropicais neste ambiente de harmonia de sobeja veracidade e compreensão dos limites onde transcorre a estória que ora se refere este relato sem mais valer sem mais contar sem mais sentido para quem como todos só enxergam o que é visível e esquecem que ódio e amor são invisíveis assim como a serpente e o seu veneno ou seu abraço saído pelas encostas da vida rente aos muros pois assim caminha à humanidade muito musgo e limbo grudado ao corpo se esfregando uns aos outro saboreando saliva de uns e outros e vice versa seja nos discursos dos que acham ter a dizer ou nos bifês carregados de urina dos passantes das hortas do escarro dos doentes trabalhadores e do sêmen dos amantes atrás das moitas por entre covas de tomate ou feijão sem visão de céu tanto de noite como de dia embora muita chuva tenha estragado as estradas e o barro das fezes e da falta de vontade deixem ridículos a chegada e mais ainda a partida queria dar um ponto final mas se torna impossível em vista do muito a dizer do muito a sentir principalmente agora que o coração se sente magoado de tanta indiferença ou mesmo da constatação de que nada sou fui ou serei nesta vida o que pensando bem não importa muito pois que este estado de coisas que muito complica a harmonia interior é submetido a todas as pessoas estas sim me parecem tão alheias ao que acontece que na verdade é melhor não tentar entender pois os bois e vacas a caminho do matadouro sorrindo explicam esta atitude alienada como a formiga que caminha proletária na sua labuta e é pisada ao acaso pelo saltinho da dondoca que saída do dentista sentindo molhada sua calcinha avança com volúpia ao chópim para desfilar seu cartão de crédito pelos balcões das lojas de marca e pagar em seis vezes a camisola da noite em que pensando no dentista cirurgião plástico no galanteio interessante do transito ou no artista da tv vai cumprir performance de amante de marido que da mesma forma com saco cheio tenta o orgasmo obrigatório e cumprir seu papel muito rapidamente para poder dormir e daí sim ser feliz sonhos do menino apenas um guri como tantos piás que teimam em não crescer. Pêra verde no quintal mamona para fazer guerra coelhinho branco distraído cachorrinhos de prole nova casinha nos galhos da pereira pés de milho com espigas madurando mais ao fundo pé de amora do ladinho da macieira do pé de mimosa jabuticabeira grandiosa pra sombrear tempo de verão e ameixas da vermelha e da amarela graviola butiá pêssegos pesteado, pra fazer doce maçã azedinha pessoas que não conhecem uma vaca, nunca beberam o leite da hora e nunca ouviram um galo cantar altaneiro e vigilante de suas fêmeas no terreiro quem nunca desviou bosta no pasto limpou os dentes com capim fugiu de bode ciumento e rasgou os fundilhos no arame farpado meninos...noite de chuva brava sacis e curupiras gargalhando na madrugada mula sem cabeça chispando no terreiro e lobisomem chupando e sangue das novilhas amanhecer sereno luminoso e musical canto de tantos passarinhos as rachas de bracatinga gritando no fogão a lenha café recém moído e pão dourando no forno de tijolo no meio do terreiro exalando vida por toda a vizinhança e por toda a minha saudade... não sei porque o tempo passa levando a felicidade para o poço da recordação... assim os pensamentos desordenados e desconexos seguem seus caminhos embalados pelos eflúvios da fumaça demoníaca e libertadora embora o carro siga grudado ao asfalto e a reta transforme as marcas na pista apenas em pontos de afirmação de uma viagem que pode ser sem volta mesmo porque o que não tem partida não tem retorno embora as montanhas à frente sinalizem o fim um penduricalho em cruz no espelho retrovisor o locutor gospel berrando acusando cobrando confissão jesus cristo jesus cristo confesso eu estive lá ... seguir é tentar romper a materialidade da circunstancia e continuar no sonho embolar-se na irresponsabilidade na falta de compromisso e vomitar novamente no painel e gargalhar no êxtase das luzes que cortam as laterais e rasgam os olhos a alma o estômago e arrepiam cabelos gosmentos de vento do vômito e loção nas coxas da mulher ao lado tão alienada que dorme com a mão esquecida agarrada ao sexo como se fosse ao futuro e que este momento a fará sorrir e sonhar da recordação das loucuras vividas no tempo que todas as atitudes eram possíveis e se vivia irresponsavelmente em busca de um ponto pacífico enquanto os feixes de luz como espadas ferem os olhos e a realidade retorna à viagem e a escuridão se desfaz apenas nas luzes do painel o túnel negro vai sendo penetrado rapidamente nenhum sinal no fim apenas na expectativa de se chegar e eis que como se fosse milagre como se fosse destino como se fosse desejo surge a luz esta sim sem escrúpulos na sua magnitude com pose ditatorial e soberba extrapolando o limite da decência expondo tudo como um vulcão detalhando as verdades as mazelas e a tal felicidade sim depois de tanto pó agressões e descalabros enfim saído de um porre químico se descobre que apesar de tudo a merda continua como sempre mal cheirosa e nojenta mas que sempre nos viramos para dar uma olhadinha quem sabe para conferir se não estamos nela identificados pela assinatura ou pela fotografia e olha-se no espelho os cabelos em desalinho os olhos embaçados a barba escorrendo com o creme dental pelos cantos da boca a pele esverdeada e atrás os fantasmas de mais um pesadelo e a conscientização de que mais um dia começa uma linda manhã de inverno sonolenta escorrendo mel esbanjando luz embora uma paciente aranha prossiga tecendo o restante da teia do resto de nossa vida.


















Humberto Bley Menezes
Enviado por Humberto Bley Menezes em 03/03/2006
Reeditado em 21/10/2006
Código do texto: T118316
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Sobre o autor
Humberto Bley Menezes
Curitiba - Paraná - Brasil
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