Primeiro beijo

Eu estava confusa. A mão dele nunca me pareceu tão fria, nem mesmo daquela vez que dormimos na chuva esperando o veterinário abrir o consultório. O médico chegava às seis da manhã, daí a passarmos a noite protegendo o Plock, o cachorrinho dele. Tínhamos dez anos de idade na época.

O rosto dele nunca esteve tão próximo por tanto tempo, nem mesmo daquela vez que nos escondemos do Bartolomeu, um velho que odiava crianças. Nós atiramos um ovo na varanda de sua casa e fugimos para onde estava sendo construído o futuro ginásio da escola. Ficamos em um bueiro até ter certeza que o velho desistira de nos pegar. Tínhamos doze anos na época.

Nunca havia sentido a respiração dele tão ofegante, nem mesmo daquela vez que tivemos que correr quatro quarteirões para alcançar o carro da mãe dele. Ela havia esquecido a bolsa, o relógio e os óculos. Tínhamos quinze anos na época.

O coração dele nunca bateu tão forte, nem mesmo daquela vez que fomos conferir o resultado das aprovações do vestibular. Quando deparamos com nossos nomes na lista de aprovados, eu em letras e ele em jornalismo, pensei que carregaria mais uma vez ele desmaiado para a enfermaria do colégio. Tínhamos dezoito anos na época.

Ele nunca me olhou dessa forma, nem mesmo daquela vez no campus da universidade, quando colocou os meus livros no chão e deu-me o que viria a ser o nosso primeiro beijo.

Tantas sensações, tudo ao mesmo tempo. Sem pausa, sem descanso. Agora só me resta rezar para a ambulância chegar logo, enquanto vejo o sangue dele escorrer pelas ferragens destruídas do meu carro.