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Quando acabar...

Estava andando por aquele parque pela décima-quinta vez. Nunca gostei muito de parques, mas algo naquele me chamava sempre de volta pra lá. Toda vez eu dizia pra mim mesmo que nunca mais eu voltaria, que aquela era a última vez, marcava mentalmente quantas vezes eu tinha ido lá, como uma lembrança de uma mania idiota, uma obssessão sem razão. Mas sempre eu acabava retornando ao parque.

Nada nunca aconteceu lá de verdade, nada que mereça mais do que uma olhadela de canto de olho, ou uma simples sitação no café da manhã, enquanto lê o jornal e toma seu café. Mas não sei porque eu sempre tinha que voltar pra lá! Eu tentava não pensar nisso, e realmente não pensava por alguns dias, até que ele sempre retornava à minha mente, sem minha permissão eu me via lembrando de cada arbusto, cada árvore, cada caminho do parque.

Estranho, mas eu nunca lembrava das pessoas! É claro que haviam pessoas no parque, algumas inclusive eram assíduas frequentadoras, como eu. O velho com seu cão, que sempre para perto do lago e fica olhando seu cão nadar; ou a mulher do radinho que corre três voltas na pista de cooper e sempre que passa por mim me dá um aceno com a cabeça, como se para dizer que entende o porque eu estou ali. Somos todos cúmplices do mesmo vício: o parque!

Como um junkie eu acabo voltando para lá, sem poder resistir e passo horas perambulando pelos caminhos em meio às árvores e arbustos, paro perto do lago, fumo um cigarro e volto para casa. É sempre assim e sempre será assim. Não sei porque, só sei que eu sou um viciado em algo que não existe explicação!

Vou embora agora, dizendo pra mim mesmo que nunca mais vou voltar, como sempre, mas desta vez eu sinto algo estranho, uma sensação de perda e alívio, como se eu realmente nunca mais fosse ver o parque. Paro e olho pra trás, pela primeira vez desde o começo dessa insana relação, vejo o lago, as trilhas, as árvores e arbustos e sinto meu coração vazio, como se estivesse prestes a perder a coisa mais importante da minha vida.

Continuo andando, passo pelos portões do parque e de repente sinto tudo escurecer, o mundo se desfaz ao meu redor e em seguida nada mais existe, a escuridão toma conta e meu último pensamento é que nunca mais vou voltar ao parque.
Clineu Neto
Enviado por Clineu Neto em 31/03/2006
Código do texto: T131410
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Sobre o autor
Clineu Neto
Cotia - São Paulo - Brasil, 38 anos
13 textos (1760 leituras)
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Clineu Neto