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ÚLTIMAS HOMENAGENS

        Era um velório concorrido, Léo pode notar de longe. Principalmente porque o corpo era velado na nave de uma igreja católica, e não nas capelas abafadas ao lado do cemitério. O pequeno santuário, acanhado prédio histórico, não comportava toda a multidão que tentava adentrar a câmara ardente. Escorria gente pelas portas, pela escadaria e pelos vitrais. Curioso, Léo perguntou a um homem gordo de colete de gabardine, que chorava sem parar encostado à pia de água benta, no vestíbulo do templo.

- Quem morreu?

- Você não sabe? Como não pode saber dessa morte trágica? seus olhos inchados se converteram em duas almôndegas banhadas em molho de tomate- como não pode estar triste com a morte do nosso ilustre Dr. Goiaba?

- Quem é esse? Algum médico, advogado, juiz, político?

- Não sei, só ouvi falar dele. É que a vida dele é muito emocionante!

Léo deixou o gordo entregue ao seu lenço empapado e tentou abrir espaço entre a multidão chorosa para descobrir quem era o tal Dr. Goiaba, pelos menos para ver a cara do defunto. A cotoveladas, pisadelas e empurrões foi jogado para fora da igreja. Esbarrou com uma cadeira de rodas que vinha rasgando o adro, os dedos de seu pé amassados pela roda. O seu usuário, que só tinha os tocos restantes da perna, tinha o veículo entulhado de guloseimas, doces, balas, confetes, paçocas, cigarros e isqueiros.

- Vai comprar alguma coisa, doutor? Compra aí, aproveita que no dia do velório do Dr. Goiaba tem desconto especial.

- Mas você pode me dar uma informação? Quem é esse Dr. Goiaba?

- Cê não conhece o Dr. Goiaba? Mas como é que pode uma coisa dessas? Olha, aproxima aqui, falando baixo, doutor...- baixou o tom da voz até um murmúrio quase ininteligível- melhor você fazer cara de limão azedo e se juntar ao pessoal...se você disser que não conhece o Dr. Goiaba, é possível que te linchem aí...mas vamos lá: compra um pé-de-moleque pra ajudar o manquitola aqui!

Acabou comprando um tablete. Enquanto tentava mais uma vez furar a impenetrável muralha humana que quase derrubava as divisórias de madeira do vestíbulo, viu chegar uma Parati branca com adesivos do logotipo da emissora de TV local. Desceram um uniformizado com a câmera, fios, tripés e lâmpadas de mão, acompanhado do repórter, elegante de terno e gravata, o microfone com o fio enrolado em volta do braço.

- Vamos lá, atenção editor, gravando passagem do velório do Dr. Goiaba, três, dois, um...e o velório prossegue com muita emoção. O Dr. Goiaba, figura brilhante da sociedade, um herói do povo e uma eterna inspiração para os jovens, vai deixar muitas saudades e...ei!

- Vocês que trabalham com jornal, podem me informar quem é o Dr. Goiaba?

- Cala a boca, cê tá atrapalhando meu serviço, percebeu? Ah, não sabe quem é o nosso ilustre Dr. Goiaba? Estuda, moleque, isso é problema seu. Se você interromper a gravação de novo, quebro esse microfone na tua cabeça, entendeu ou precisa desenhar?

Xingou o repórter televisivo de todos os insultos possíveis e quase que resolveu ficar fazendo micagens às suas costas, tudo para que pudesse aparecer no vídeo e chamar a atenção. Irritado, dirigiu-se para uma das portas laterais. Por pouco não fora atropelado pelo Omega australiano que subiu pela sarjeta e vinha destruindo os canteiros da praça para desviar dos postes. Pudera, o carro também tinha chapa oficial com o brasão da República, devia sentir-se acima de qualquer lei. Uma bandeirola do Brasil fixada em seu capô balançava com a brisa. Um corpo de seguranças e policiais cercou o veículo antes que a porta se abrisse e o presidente da República deitasse seus sapatos engraxados no calçamento.

- Por aqui, Excelência, rápido, abram espaço para o Senhor Presidente! Ei, você, sai da frente!

- Espera, eu quero perguntar uma coisa pro presidente? disse Léo.

- Eu sou o auxiliar do assessor de imprensa, fale comigo e eu verei se posso encaminhar sua requisição a Sua Excelência! disse um louro de terno e gravata, o cabelo empastado de tanto gel.

- Quem é o Dr. Goiaba?

Os seguranças engravatados e os policiais de farda caíram todos na risada, apontando Léo com um dedo inquisitivo e derramando lágrimas de tanto gargalhar. Ouviu ainda vários gracejos e chacotas vindos dos assessores do presidente. A comitiva deu-lhe as costas e se dirigiu até a porta lateral, ignorando-o como se fosse um poste enferrujado.

- “Seu” presidente, só me responda é o Dr. Goiaba? gritou Léo.

- Vote em mim para reeleição que eu te conto- disse o governante.

Léo agora faria de tudo para adentrar aquele templo entulhado de gente e sacudindo-se com o som de tantos soluços e fungadas. Contornou o prédio e resolveu avançar sobre a outra porta lateral, dando com o ombro em quem se pusesse em sua frente, derrubando qualquer obstáculo. Foi quando surgiu uma caminhonete com uma caixa de vidro em sua carroceria, mais o escudo do Vaticano onde deveria estar a placa. Um papamóvel! Sua Santidade, envergando seus alvos paramentos, distribuía as bênçãos. O Santo Padre vinha junto com a sua comitiva romana, vários cardeais com caras de dinamarqueses, de índios, negros, mulatos, orientais, gordos, magros, altos, um deles era um pigmeu cuja indumentária clerical até arrastava pelo chão de tão comprida para seu corpo de boneco.

- Santidade! chamou Léo, erroneamente saltando sobre o carro dos sacerdotes, pois se o sumo-sacerdote de Roma não lhe respondesse quem era o Dr. Goiaba, ninguém mais no mundo responderia.

Os arcebispos voltaram-se assustados para Léo, imaginando ser ele um fanático religioso que sacaria dum revólver e balearia o papa, e mostraram as suas habilidades em artes marciais, luta greco-romana e técnicas de briga brasileiras da pior maneira possível. Um cardeal louro e que suava em bicas acertou-lhe uma joelhada no estômago, no que foi imobilizado por uma chave-de-braço dum hispânico que falava um inglês empolado por sotaque espanhol, no que recebeu uma voadora nas costelas por parte dum português. Já o pigmeu envolveu seu pescoço com as pernas e encheu sua cabeça de bordoadas. Enquanto isso, o papa ia-lhe benzendo e pedindo para que Deus tivesse piedade de sua alma.

Os cardeais o deixaram estatelado no chão, com dores até mesmo para mover os dedos. Apalpou o corpo inteiro para ver não lhe tinham fraturado nenhum osso. Levantou-se bambo como um espantalho embolorado.

A única saída era entrar pela sacristia, cuja portinhola, no flanco direito da igreja, debaixo da sombra dum abacateiro, estava aberta e onde não juntavam tantas pessoas. Adentrou-a pela lojinha de imagens e livros de oração. A menina que cuidava da loja lembrava uma Monalisa mais magra, de pele mais alva, mais feminina, de olhos tão verdes que pareciam cultivados com colírio de cloro e mais risonha. Aliás, ela se chamava realmente Monalisa.

- Oi, tudo bem? cumprimentou ela, simpaticíssima, os dentes brilhando como se fossem de diamante.

- Olá- respondeu Léo- eu já tô aqui há um tempão, eu gostaria de saber, quem é esse Dr. Goiaba que morreu? Eu nunca ouvi falar dele!

- Como nunca ouviu falar do Dr. Goiaba? Todo mundo conhece ele, é uma das personalidades mais importantes do mundo! Ele praticamente mudou o Planeta Terra! Logo nós vamos poder dividir a história em antes do Dr. Goiaba e depois do Dr. Goiaba!

- Mas o que diabos ele fez? Eu soube da existência dele quando vi essa movimentação toda. Afinal, quem é o Dr. Goiaba? Por favor, me conte pelo menos um pouco da vida dele, mostra uma foto, sei lá!

- Mas todo mundo sabe quem é o Dr. Goiaba! Estranho você não saber...sabe de uma coisa? Gostei de você. Gosto de homens que fujam do habitual, de homens diferentes dos outros, exóticos, autênticos, únicos...

Começou a roçar os peitos singelos em Léo, a sua respiração fazendo cócegas no pescoço, ela sua língua quente lhe chicoteava, a boca grudava-lhe na pele como uma ventosa voraz. Começou a beijá-lo como se quisesse engolí-lo inteiro, afundando-se dentro dele, babando de tanta sede. Sua pele alva já se tinha tingido de rosa, de tão vermelhava que ela estava. As mãos entraram por baixo da roupa, as suas unhas afiadas lhe arranhavam nas costas. Mas Léo não desistiu de seu objetivo. Aos olhos de São Roque, Santa Cecília e do Menino Jesus de Praga, com o sutiã pendurado num candelabro, Léo deixou Monalisa seminua sobre a escrivaninha da loja, sorte que ali não havia ninguém e que a porta contígua à igreja estava trancada.

- Ei, volta aqui!

- Não, eu vou descobrir quem é desse doutor nem que eu precise morrer pra isso!

Voltando para fora, ouviu o ronco duma máquina voadora pairando sobre a cruz do campanário, iluminada àquela hora que o sol já se tinha deitado no horizonte. Helicópteros rodeavam o telhado do templo, jogando tiras de papel colorido. Tanques de guerra irromperam afundando o calçamento da praça e derrubando bancos de cimento. Um grupo de marines cercou o largo, armados com pesados rifles de assalto e metralhadoras automáticas. Caças supersônicos a todo momento apareciam cortando o ar acima dos helicópteros. Reparou que todas os veículos tinham uma bandeira norte-americana e uma água soldados. Aquele exército inteiro escoltava o presidente dos Estados Unidos.

Pensando que cada vez mais se tornava difícil a sua entrada no velório, Léo teve uma idéia que, apesar de que poderia causar confusões maiores, poderia ser a única a funcionar. Aproximou-se dum fuzileiro naval sem que ele percebesse e chutou-lhe o coturno, bem na canela. Dez militares voaram sobre si e o imobilizaram.

- You great fucking cucaracha!
 
Arrastado igreja adentro pelo regimento, que jamais poderia se afastar do grande chefe da América, Léo aproveitou a aglomeração e se livrou dos soldados, rastejando por entre os bancos. Ainda estava longe do féretro, e a multidão se coalhava mais ainda perto do caixão. Foi quando viu, num dos altares laterais, a concentração das carpideiras e dos garçons que serviam o café. Foi para lá e, rapidamente, oculto num confessionário, saiu de lá trajando uma camisa social branca e gravata borboleta preta. Pegou uma bandeja com bules e xícaras e foi abrindo espaço, servindo os visitantes.

Foi quando enfim chegou ao seu objetivo. O esquife estava bem ali no altar, recebendo as bênçãos do papa, sendo coberto por bandeiras de vários países, escondido por montes de cruzes e coroas de flores, enviadas com mensagens nas línguas mais estranhas possíveis. Por entre ideogramas, letras latinas e alfabetos cirílicos, Léo foi equilibrando a bandeja até ficar praticamente em cima do cadáver do Dr. Goiaba. Sentia até mesmo o cheiro das flores que cobriam o rosto dele.

- Alguém quer café? oferecia Léo às pessoas.
 
- Eu quero! respondeu o defunto, levantando-se do caixão e derrubando dois castiçais que estavam à sua cabeça.
 
O velório inteiro caiu num silêncio de morte, todos atônitos, assustados, aterrorizados ao ver aquele cadáver levantando e falando. Depois do silêncio, a confusão. Uma fuga em massa do templo destruiu imagens, arrastou bancos, derrubou crianças pelo chão, arrombou todas as portas, causou um incêndio acidental com as velas, despedaçou todas as janelas e até mesmo saqueou a caixinha de donativos. O papa tombou fulminado por um ataque cardíaco, e morreu ali mesmo, e ali mesmo os cardeais começaram a discutir o próximo conclave. Um míssil disparado pelos helicópteros dos norte-americanos explodiu a torre e parte da cúpula. O presidente brasileiro declarou ao primeiro jornalista que encontrou que iria pedir a instalação de uma CPI para apurar a corrupção deste morto-vivo. Sobraram dentro da igreja só o Dr. Goiaba, Léo e Monalisa, que abraço Léo pelas costas e veio beijando-lhe a nuca.

- Que bom que eu te achei, meu amor! Que saudade!
 
- Então o senhor é o Dr. Goiaba? Léo sentia vontade de se ajoelhar frente àquela lenda, que lembrava Bela Lugosi vestido de Drácula.

- É, todo mundo me chama assim- responde ele- mas é só um apelido. Meu nome verdadeiro é Benedito. E eu também não sou doutor, é uma maneira carinhosa do pessoal me tratar. Todo mundo me conhece e gosta de mim porque eu sou o inventor do guarda-chuva de controle remoto e da máquina de desentortar bananas!

O doutor que não o era saiu do templo e voltou para casa, não se esquecendo de levar o caixão como lembrança. Léo se conformou em pedir Monalisa em namoro.
José Marcelo Siviero
Enviado por José Marcelo Siviero em 01/04/2006
Código do texto: T132061
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José Marcelo Siviero
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