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Pouso Forçado

   Foi mais ou menos a sensação vivida por Cida naquele fim de tarde.
   Já se habituara a voar. E, convenhamos: voar fazia-lhe muito bem.
   Mas não agora: o jantar fumegava em três panelas reluzentes, a pia transbordava de louças e talheres do lanche das cinco, as filhas insistiam em seu exercício diário de ingratidão ao sequer perguntar se a escrava carecia de ajuda. Aprendera a desdenhar do descaso alheio. Cansou de buscar apoio onde jamais fizera eco. Amoldou-se. Adaptou-se. Fodia-se; mas não tossia nem mugia. Breve, alçaria vôo. E que vôo. Que venha o porqueira do marido, bronco, a berrar pela janta e chorar mágoas do trabalho; que chegue a sogra chata, no muro ao lado, monitorando a lerdeza da nora; o cunhado safado, fingindo agrados e de olho na sobrinha caçula. E as vizinhas falsas, trazendo novidade e atraso de vida a cada olhada nos móveis, duramente adquiridos na abstenção de lazer.Nada demoveria Cida de seu vôo. Tais miudezas eram comparadas ao "briefing" dos pilotos antes da decolagem, um reestudo no plano de vôo era feito diante da tevê ao acompanhar os últimos capítulos das almas gêmeas que se juraram em amor eterno, neste e noutro mundo, enquanto filhas discutiam no quarto, marido flatulava na poltrona e a sogra insistia numa conversa em que ela sequer se dignava escutar. Cida não estava nem aí. Cida sempre conseguia voar.
   Cida voava. Mesmo com a pista obstruída, ela alçava vôo.
   Passava discreta e incólume pelo quintal onde fofoqueiras faziam plantão pela vida alheia. Desviava do bar, da rua principal, esgueirava-se por uma variante mal iluminada no início da noite, janta pronta - só tirar cada um seu prato, cumprimentava uma amiga da manicure,o celular na mão era a bússola norteando-lhe a felicidade: a voz rouca da sua torre de controle, o radar que desenhava o ponto exato do prazer: o loteamento deserto a quatro quadras do bairro. E o comandante...
   Naquela escuridão, seria um vôo por instrumentos.
   Amoldou-se nos braços, boa co-piloto, assumiu o manche com firmeza e prazer; o vento gostoso subia-lhe as pernas, farfalhando o vestido fino enquanto o líder conferia os itens, ponto a ponto, botão a botão. Adaptou-se de imediato à pressão exercida sobre sua cabine, preparando-se para se autoejetar num raide fulminante, quase um mach 3, 4, 5... Não pensava nas miudezas, no mundo, só queria voar, loucamente, chegar próximo ao sol e se deixar derreter em autoimolação como Ícaro em seu sonho de cera...
   Não era bem cera. Era cheiro de carne queimada.
   Era um pouso forçado.
                 
Jorge Luiz da Silva Alves
Enviado por Jorge Luiz da Silva Alves em 09/04/2006
Código do texto: T136118
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Sobre o autor
Jorge Luiz da Silva Alves
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 55 anos
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