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A Areia do Tempo - Parte II

Em certos momentos de nossa vida, passamos por situações tão terrivelmente peculiares, que nos fazem sentirmos imersos em um buraco sem fim, caindo e sem encontrar ponto de parada. Os pés não tocam o chão, o próprio chão não fixa em qualquer limite, enfim, não temos ponto de apoio.
Estive em situação semelhante uma vez em minha vida. Pensava não ser possível alguém se colocar em tal ponto de desilusão, mas a verdade sempre vem a nossa face e nos remonta a nossa fragilidade. Vivemos em um mundo, onde somos apenas uma peça, e é triste mencionar, não a mais importante. Temos momentos de alegria, outros de emoção, outros de plena satisfação, mas um, e somente um único instante em que nossa idéia de felicidade é violada, nos sentimos desamparados, e se este momento afetar uma parte integrante de nossa existência, toda a sua legitimidade perde o sentido e apenas nos resta uma vida vegetativa sem significância. Neste estado, o que mais se deseja é poder partir e arrematar as lembranças, livrando-se assim, das tristezas da vida.
Sou o Senhor Edésio, as pessoas costumam chamar-me de Seu Dé, moro em uma cidadela do Estado de Roraima, fincada em um vale, esta Vila, chama-se Belo Forte, pequena, rudimentar, com pessoas simples, com idéias mais simples ainda de vida, sem ambição, mas com uma forte amizade, com pequenas falhas, mas incomuns aos tempos atuais. Onde, o comércio é regido pelo escambo, e as pessoas convidam as outras pra comer em vossas casas, e muitas vezes, aparecem sem serem convidadas mesmo, já que são praticamente parentes.
Moro em uma pequena propriedade com minha esposa, a Senhora Judite e meus filhos Paulo e André. Hoje vivemos apenas nós quatro, mas em tempos passados, estava entre nós, o Carlos, meu filho caçula de apenas 12 anos. Mas como disse, estava entre nós. E é sobre esse sofrimento, em particular, que venho lhes falar.
Carlos, uma criança feliz, e esta simples palavra o define, ou melhor, o definia muito bem. Ainda lembro dele aqui em casa, quando aqui a alegria reinava, hoje os tempos são outros, ele não está mais aqui com seu sorriso aberto, os dentes praticamente saltavam de sua boca. Quando aparecia, trazia consigo, seus dois leais escudeiros, o Bernardo e o Pedro, crianças também muito simpáticas, honestas, enfim, amigas. Eles surgiam pelo portão adentro, vinham em direção a Judite, pulavam em seus braços, como ela não os suportavam nos braços, às vezes eles caíam. Ela nunca ficava nervosa, compreendia que tudo aquilo era um ato de carinho e os retribuía com bolinhos de milho e um café com leite, que os deixavam nas nuvens.
Sempre gostava de ir ao banho, a cachoeira, a mágica da cidade, pulavam como loucos de alturas assustadoras. O medo não os penetrava, principalmente Carlinhos. - Esse meu filho, corajoso como o pai! Puxou-me direitinho, dizia que queria ser como eu quando crescer, com uma diferença, seria professor, sentia uma magia pelo ensino, pelo simples fato de proporcionar um mundo novo de imaginação as pessoas.
Mas, a tragédia chegou, assim como os momentos de alegria, ela surge de situações inesperadas. Ele tinha ido com as crianças tomar banho de cachoeira e, pela noite estava estranho, não dizia coisa com coisa, sugeria a existência de algo ou alguém estranho na caverna Boca do Inferno, esta caverna fica um pouco acima da cachoeira e é de onde vem a água do rio, lá se encontra o minador, nunca ninguém tivera visto algo de diferente por aquelas bandas.
Durante a semana, não parava quieto, sempre indagando acerca da caverna, não só comigo, como fiquei sabendo, mas com outras pessoas, ele buscou informações, não descansava, queria, sei lá, resolver este problema que o afligia.
Enfim, sexta-feira  chegou, e pela noite ele já estava praticamente louco, pois eu o havia proibido de freqüentar aquele lugar, já que o deixara tão impressionado, que ele fosse apenas no fim de semana comigo, pois tinha tempo livre. Mas, quando acordei no sábado, não o vi na cama, procurei por toda a casa, e nada da presença de Carlinhos. Solicitei por sua mãe alguma informação e nada obtive de resposta, seus irmãos também não sabiam dele. Corri pela cidade e a resposta era sempre a mesma, não o vira. Seus amigos eram as pessoas mais propícias a me ajudar. Fui a casa de Bernardo e também não sabia dele e, em especial deixou-me o recado de que ele o procurasse, pois iam jogar futebol pela tarde, Pedrinho também não sabia do paradeiro de Carlinhos.
Em estado de aflição, fui em direção ao lago e lá encontrei o pai de Bernardo, o Senhor José Messias, estava voltando do cemitério, que ficava na parte mais alta da cidade, um erro de engenharia urbanística, mas a realidade é que as pessoas antigas da cidade pensavam que os mortos mereciam a proximidade do Paraíso. Antes mesmo de perguntar sobre o meu filho, ele veio me dizendo pra não deixar Carlinhos sair pela rua em plena madrugada. Fiquei logo assustado, e o pedi explicações. Ele, solícito como sempre, disse-me que o vira subindo a Serra, e completou dizendo:
- Ele disse que iriam fazer um trabalho sobre o comportamento das corujas e que seus colegas o seguiriam logo em seguida. Fiquei satisfeito com a resposta e voltei aos meus afazeres.
- Como sabes Seu Dé! Ontem faleceu a Dona Carmelina, e é meu trabalho fazer o lacre do túmulo, o que levou toda a noite, em virtude, da família ter resolvido enterrar a defunta no extremo do dia, praticamente no crepúsculo.
Agradeci ao Senhor José Messias, e segui rapidamente pelo caminho acima, olhava por todos os lados e nada da presença de meu filho, parei um pouco na cachoeira e fiquei ali pensando e buscando uma possibilidade de rota seguida por ele, até que olhei pra água e vi uma sujeira incomum, algo negro e sobre a água. Neste momento, olhei pra cima, apenas a imagem da Boca do Inferno era focalizada. Meu corpo gelou, fiquei arrepiado, senti um calafrio tão inesperado e uma profunda comoção tomou conta de meu peito. Neste exato momento, minha esposa, acompanhada de meus filhos e alguns amigos mais íntimos, estavam a se aproximar de mim. Com um pressentimento ruim, ou melhor, muito ruim, os encaminhei a caverna.
Durante o caminho, que é curto por sinal, não sei porque, mas comecei lembrar de momentos tão felizes com meu querido filho, de sua imagem sempre alegre, e ao mesmo tempo, sentia aquela dor no peito. Chegando próximo da caverna, já tinha plena certeza do que encontraria ali, não tinha dúvidas de que o que estava sentindo era na verdade a perda de Carlinhos.
Quando aproximamos, tive uma imagem bem formada de meu filho caçula caído por entre as pedras dentro das corredeiras do rio. Não era mais eu que ali estava, minha alma morreu ali. O sofrimento foi tão grande que desejei minha morte, não restava em mim, nenhuma fagulha de vida, apenas a desilusão reinava em minha alma.
Olhava para os lados, minha esposa, meus filhos, todos gritando de dor advinda do sofrimento. Virei-me para o céu, não conseguia nem sequer amaldiçoar a Deus por isso, estava por demasiado fraco, indefeso, impotente, enfim, insignificante diante o destino inexorável. Peguei meu filho nos braços, não sentia aquela vida que ante ali estivera, nada sentia, o corpo gélido, sem expressão, sem vida.
Neste dia, em particular, minha vida mudou. Não conseguia encarar mais nada com naturalidade, tudo que estava a fazer não me trazia a satisfação. Tudo perdeu a magia, em nossa casa, todos, sem exceção, sentiam-se derrotados. Dali em diante, tudo que esperava, ansioso, era o dia da minha morte, para livrar-me daquele abismo de infelicidade.
Os dias foram se passando e hoje me sinto um pouco melhor, mas em certos tempos não acordo bem e durante todo o decorrer deste dia, não consigo me concentrar em qualquer coisa, fico apenas a sonhar e lembrar do tempo que podia sorrir.
Ontem, fui à cachoeira, desejava ficar por lá algum tempo e pensar na vida, tentar talvez relaxar e abrandar este sofrimento acumulado pelo tempo. Mas, antes disso, tive uma vontade quase que incontrolável de conversar um pouco com um amigo, um velho ermitão que vive as margens do lago.
O velho Chico da Mata, um amigo de meu pai. Até hoje não consigo entender como um homem de sua idade ainda está ai, vivo e com uma saúde de ferro. Ele sempre nos traz idéias que nos forçam a raciocínios bem mais simples e eficazes.
Nossa conversa não foi longa, ele como sempre me mostrou uma saída magistral, fiquei pasmo tal iluminação gerada por nossa conversa. Já em instantes de partir, ele disse-me:
- A natureza traz para si seus filhos e estes felizes vivem ao seu lado.
Fiquei tranqüilo, e fui a cachoeira. Lembrei-me quando criança e saltei de um ponto alto, senti meu corpo expandir toda a água envolta, como se os problemas fossem carregados por ela. Mergulhei fundo, até ficar quase sem fôlego, praticamente perdi o fôlego, mas ao retornar a superfície estava renovado. Percebi claramente a interação magnética entre meu corpo e suas águas frias e refrescantes.
Após um banho extremamente revigorante, esperei por alguns minutos a margem e resolvi seguir em direção a caverna. Estava tranqüilo como nunca, aquele aperto no peito sumira, tudo que sentia de ruim não existia mais, nem sequer sentia o peso do corpo, menos ainda das minhas roupas. Estava singularmente transformado.
Ao chegar a entrada da caverna, resolvi olhar para a cidade, estava agitada, pois era sábado e a feira estava em pleno funcionamento. Virei-me para a Boca do Inferno, como era conhecida a caverna e entrei.
Mal pude atravessar a iluminação externa, não enxergava mais nada. Em breu puro, andei em linha reta a margem do córrego que ali nascia. De repente senti meu corpo cair. Não conseguia parar, o buraco não tinha laterais, tampouco fundo. Cai, cai, cai. . .
Acordei assustado, estava em um lugar claro, sem sombras, mas com várias árvores. Frutas de diversas espécies pareciam ser suculentas, uma grama verdinha nunca vista antes e um lago mais lindo do que o próprio céu. De longe vi alguém se aproximar, vem vestido totalmente em branco, com um semblante preocupado. Esperei se aproximar, quando chegou próximo a mim, me agarrou com força e, sem entender nada tentei me libertar. Não consegui, e com uma camisa com lado invertido prendeu-me e levou-me para uma sala sem janelas, apenas uma cama, tudo branco como o paraíso. Só tem uma diferença, ali eu sintia dor.
Nunca pensei que fosse crime sonhar, se a realidade não posso alcançar, porque não tenho o poder de ser livre para, com meus pensamentos brincar?
Mas, hoje estou feliz, me sinto bem, agradavelmente leve. Tenho visitas, e vou vê-las agora. Já posso vê-los, gritando:
- Meu bem!
- Veja seus filhos, estão aqui para lhe ver. E desta vez, todos puderam vir, até o Carlinhos que estava com febre.
- Meus queridos, seu pai os ama!
- Paulo! André! E o pequeno Carlinhos!
- Estou tão feliz que estão aqui, estava preocupado de não poder vê-los mais, nunca mais. Esta espera de longos meses foi realmente agraciada com esta bênção, que é estar aqui juntos, novamente.
Everton Cangussu
Enviado por Everton Cangussu em 21/04/2006
Código do texto: T142698

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Sobre o autor
Everton Cangussu
Imperatriz - Maranhão - Brasil, 38 anos
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