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A volta

Garoa. Sigmund ouve os pingos baterem no telhado. Vira-se na cama. “Curioso, está fria e ao mesmo tempo abafada”. Leva  a mão a cabeceira mas não encontra o interruptor. Resolve levantar-se. Senta na cama. Curiosamente não sente mais dor, aquelas injeções do Schur fizeram milagre. Percebe um leve movimento a sua esquerda e estende a mão no escuro. Reconhece Édipo pelos cabelos crespos e a forte musculatura dos ombros. Não é preciso que fale, ele pode antecipar o desconforto do rapaz. Antes de dizer qualquer coisa percebe outra presença. É Narciso. Seu odor de rosas e o discreto estalido dos espelhos revelam a sua presença.
“Mas afinal, o que estariam fazendo os dois àquela hora no quarto de dormir?”
Percorre o longo cobertor na penumbra, acompanhado pelos dois jovens.
O gabinete também está na penumbra. Decide não acender as luzes. Sente o cheiro de pó e mofo. Ao tocar um pequeno camelo de marfim trazido do Egito no ano anterior, sente os dedos envoltos numa teia de aranha. “Definitivamente, preciso conversar com a arrumadeira” - rumina.
Estirado no divã, Édipo dizia coisas aparentemente sem nexo. Mas Sigmund sabia que nada é, verdadeiramente, sem nexo. Sentou-se na velha poltrona de couro para ouví-lo.
- Desconheço o mundo. Tudo está fora da ordem. No começo achei que era modismo passageiro, afinal elas chegavam no fim do dia, banhavam as crianças, indagavam suas travessuras e as punham pra dormir. E na cama larga e fofa cumpriam o seu papel de albergue. Na época, eles não pareciam ter mudado... Tudo o que encontro hoje são babás eletrônicas. Não há maternagem, parecem produzidos em série. Enquanto os genitores - e isso quando há genitores - passam o dia fora lutando pela sobrevivência do essencial ou pelo luxo, os infantes rolam pela casa entre tevês e vídeo-games. Eu não sei onde encontrar a figura materna e paterna. Será que a antiga triangulação se dá hoje entre o tu e o computador?
Na penumbra, no outro canto da sala, Narciso ri escandalosamente.
- Qual nada maninho! Eis que a gênese do mundo finalmente encontra sua face. A cada minuto se formam milhões e milhões de narcisos, todos a minha imagem e semelhança. E eis que a humanidade encontra finalmente o seu destino. Nada de comunidades, sociedades, objetivos comuns. É a tão anunciada liberdade que chega! Cada um pode seguir o rumo que bem lhe aprouver. “Liberdade, liberdade... abre as asas sobre nós...”
Do que afinal estariam falando aqueles dois? Sigmund resolve dar uma volta. Pega a capa e a bengala e ganha a rua. Estranha a iluminação, a arquitetura, a velocidade e o formato dos carros. Mas deve ser o efeito da insônia...
Rosilane Rocha
Enviado por Rosilane Rocha em 21/05/2006
Código do texto: T160333

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Sobre a autora
Rosilane Rocha
Charqueadas - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
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Rosilane Rocha