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Bilhete Vermelho


Há quanto estou boiando nesse mar sem fim... Oceanos de várias águas e línguas e cores. Flutuando ao sabor do sol e da chuva. Vencendo tormentas. Preciso entregar meu recado ao seu destino...Fui lançada nesse mar sem fim para levar minha mensagem em papel vermelho. Por onde voam os pássaros que rondam as praias? Onde estou? Não há nada por aqui. Não vejo barcos nem velas nem cais nem porto. Ilha...qualquer ilha...algum habitante que entenda minha língua de chamada no pedido há tempos emanados de...não sei...não li a missiva...tenho uma finalidade: entregar a carta. A carta vermelha em meu recipiente transparente.

Onda vai. Onda vem. Me leva. Me arrasta... Eu sigo nessa estrada de águas. Sem bússola. Sem culpa nenhuma. Só. Eu, o mar e o bilhete vermelho. Onde estão os habitantes que rondam os oceanos? E as águias que voam ao longe?

Meu coração de garrafa agora é vermelho e prisioneiro. Por favor, viajante! Abra-me e liberta minh’alma. Estou adoecendo com o meu pulsar enferrujado e lento.

O papel carmim geme, sofre calado, grita acordado. Nem dormir, dorme mais. E eu – garrafa descrente – apenas procuro um porto de um nativo qualquer, que me abra e me livre dessa obrigação.

Uma terrível tempestade se forma e daqui a pouco irá me atingir. Vai me lançar pra bem longe de um outro longe que não sei onde fica. Onde vou? Busco refúgio. Estou longe do longe que não sei onde começa e onde tem fim. Procuro um retirante ou um chegante. Ou uma presença de terra pra encostar meus contornos gelados. Estou ofegante. Alguém venha me libertar e me salvar!

Sereia? Netuno? Soturno? Saturno? Diurno. Noturno. Qualquer um dos Deuses, já que homens não há nesse mar de peixes, tubarão, e mais nada ... Qualquer um que venha. Cansado ou renegado. Feliz e amado. Acreditante, abnegado ou agnóstico.

Ou então, sangrarei minhas veias inexistentes, arrebentarei na enseada que hei de encontrar. O pedido urgente em vermelho carmim, hei de abandonar na água, até desbotar todo o sangue dos dedos pedintes, até escorrer todas as palavras cifradas e metafóricas, e morrer afagado em água.

Eu sou a Garrafa da Praia. Este é meu último apelo às águas geladas. Estou levando um missiva. Vermelha mas... em paz. Que os Deuses apiedem-se de mim e tragam-me o gênio da garrafa. Que irá me abrir e realizar o desejo do que aguarda, impaciente, para que eu sinta a presença do vento e descansando em terra: respire em paz.

Sou a Garrafa de vidro da Praia que navega perdida no mar com um bilhete vermelho nas águas.


Rose de Castro
A ‘POETA’

Rose de Castro
Enviado por Rose de Castro em 24/05/2006
Código do texto: T162256
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Sobre a autora
Rose de Castro
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 59 anos
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Rose de Castro