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Legend of Kankan

Kankan era um simpático camponês que, mesmo quando ia regar sua horta de tomates, não deixava nunca a sua espada de samurai. O boneco eletrônico que o representava na tela era nada mais que um amontoado de pontos luminosos, e quando andava mais parecia ele se arrastar pelos cenários. Porém, sua namorada Juju foi raptada por um bruxo, e cabe agora ao simpático caipira sair em seu resgate. No meio do caminho até a fortaleza do feiticeiro, contudo, Kankan terá de passar por florestas sombrias, rios bravios, uma cidade inteira dominada por monstros, cavernas cheia de lava e até mesmo um cemitério maldito.
 
Durante sua jornada, Kankan pode pular em plataformas e usar sua espada contra os inimigos, além de itens especiais, como bolos e bombas de chocolate que lhe dão mais energia, um chaveiro que lhe concede uma vida extra, um capacete de Fórmula 1 que o torna invencível e os poderosos tiros que dispara pela boca. A cada soldado ou aranha que explodem aos seus golpes, novos números se somam ao seu escore. A cada duas fases, um chefe, um pouco mais forte, o primeiro é um leão de juba verde com asas de morcego, com a habilidade de vomitar estrelas e granadas.

Enquanto aguarda pelos fregueses, no horário de almoço o movimento da locadora é quase nulo, e mesmo assim o patrão insiste que ele passe fome ali, ao balcão onde se expõem os cartuchos, ele lê uma das revistas de jogos eletrônicos, exatamente uma resenha sobre o título mais locado e procurado da loja. A lenda de Kankan, afinal, o que esse cangaceiro atarracado com jeitos de samurai tem que fascina tanto a molecada que vai à locadora para se divertir? Nem mesmo ele consegue responder, nas poucas vezes em que arriscou jogar não foi muito bem, embora tenha considerado o cartucho divertido.

O patrão tinha nada menos do que seis cópias de Kankan, três ficavam nos expositores de locação, os outros disponíveis para quem quisesse jogar ali na hora. Raramente permaneciam nas prateleiras ou estavam disponíveis, sempre havia uma fila. Além das suas funções costumeiras de balconistas, agora tinha que também cuidar para que os moleques não se lançassem aos murros e pontapés, na sexta passada brigaram na rua à frente da porta e um deles até mesmo saiu sangrando. Tudo por causa daquele cartucho intitulado Legend of Kankan.

Os pais começaram a vir até a locadora, rosnando de raiva, acusando-o de desvirtuar seus rebentos com aquela aberração ofensiva à moral. Um dos pais, dos mais em enfurecidos, esmigalhou as placas de silício do jogo contra os pneus de seu automóvel, por isso, sigilosamente, comprou uma cópia e a repôs, pedindo desculpas, mas seu filho já se tornava um viciado terminal. Depois um padre sentou-se ao pé das televisões onde estavam conectados os consoles, examinando a rotina dos fiéis jogadores. Num relatório tendencioso e duvidoso, impresso num panfleto distribuído na saída das missas, relatava o sacerdote que as crianças que tinham contatos prolongados com Kankan sofriam de acessos de irritabilidade, desequilíbrios e apresentavam comportamentos estranhos. Já o pastor, que ministrava seus cultos numa garagem ao lado da locadora, enumerou cinqüenta mensagens subliminares escondidas no cartucho, o que indicava ele ser uma artimanha satânica.

Nos jornais, saíam notícias de jovens que morreram após longas partidas, e médicos alertavam sobre o poder nocivo daquelas emissões de luz colorida. Um rapaz na Coréia do Sul, ao perder todas as vidas, tombou falecido; já na Romênia, um moço teve tonturas, náuseas, alucinações e ataques de daltonismo. Na Rússia, Legend of Kankan tornava as crianças esquizofrênicas. Em Buenos Aires, uma menina incendiou a própria escola, na Recoleta, influenciada pelos feitos do personagem do vídeo.

Depois que um vereador, acompanhado por uma turba de correligionários furiosos, invadiu a locadora, o cartucho era jogado secretamente. Chegava-se ao balcão, e pedia-se cachaça com chouriço. Tal senha era usada para jogar-se Kankan num quarto escuro nos fundos da loja, precisando-se atravessar o seu quintal coberto de capim até uma edícula em ruínas. Além disso, só a maiores de dez anos estava livre tal regalia.

Porém, numa tarde, uma moça morena, das que freqüentavam a locadora, aproximou-se do balconista, com um problema:

- Tô com um problema com o Kankan- disse ela- acho que deu pau! Eu jogo até o final da última fase, mas o jogo sempre trava e volta pro começo dela!
 
Foi até a alcova, pediu que a moça repetisse os feitos, e de fato, quando Kankan executava um corte transversal no bruxo, aniquilando-o, a tela se enchia de quadrículas, o som começava a zunir, e então se via Kankan novamente sobre a ponte levadiça do castelo. Por sorte, todos os cartuchos estavam na loja, e todos foram testados. Realmente, Legend of Kankan não tinha fim, o último estágio se repetia indefinidamente. Pensou o balconista qual seria a decepção dos fãs ao saber que seus esforços seriam em vão, frente àquele limitado jogo.

Porém, a cada vez que jogava o cartucho, e chegava aos momentos derradeiros, sentia que cada vez em que passava pela última fase era um episódio único, nunca idêntico. Por exemplo, num dia enfrentou o bruxo pela manhã; em outro, à tarde; em outro, ao entardecer; em uma outra ocasião ainda, no silêncio frio da madrugada. E cada uma dessas vezes ele enxergava os cenários de uma maneira diferentes, atento cada vez a um detalhe até então escondido. Descobriu que as caveiras do corredor do castelo sorriam; que a capela que atravessava lembrava muito a Matriz da cidade; que, entre as frases que balbuciava numa voz eletrônica, o vilão sussurrava um poema de Drummond, no meio do caminho tinha uma pedra. Ligando o rádio, surpreendeu-se um dia ao reconhecer as notas das melodias metálicas, aglutinadas numa canção sertaneja.

Dormia e, até o soar do despertador, sonhava possíveis finais de Kankan. Será que ele se casava com Juju no final? E o bruxo, estaria ele mesmo derrotado? E como ficaria a fazenda do herói ao final de sua jornada? A cada sono, via uma animação diferente para o jogo, até mesmo uma em que Kankan vestia a camiseta da Seleção Brasileira e disputava uma Copa do Mundo.

Até o dia em que viu uma coluna de fumaça se elevando dos fundos do quintal, os fregueses correndo desesperados. O videogame e a televisão tinham subitamente esquentado, enchendo o quarto da névoa de metal, e lá foi ele investigar. O televisor se inchava, as rachaduras cobrindo o vidro da tela, enquanto que das frestas de ventilação do videogame escorria um líquido viscoso e cinzento, parecia metal pastoso. Buracos se abriram no chassi da TV, e deles escorriam fios duma luz amarelada. Perdeu os sentidos quando o eletrodoméstico explodiu, lançando-o para fora da edícula.

Acordou sobre uma horta de batatas. Ainda zonzo, sentiu o toque suave de uma mulher de pele achocolatada, os cabelos enovelados e presos numa tiara de pérolas, assim como o sprite que representava Juju. À sua frente, a mesma moça que apontou as incongruências do jogo pela primeira lhe estendia um cacho de uvas. Subitamente, o céu se escureceu e um pé-de-vento a derrubou, surgindo, numa nuvem de chumbo, o mesmo bruxo, com a cara de seu chefe.
 
- Mas que negócio é esse? indagou ele, olhando a campina colorida onde estava, não a reconhecia de nenhum lugar.

- Kankan, você é o guerreiro sagrado que deve derrotar o bruxo e resgatar a moça capturada. Lembre-se, eu sou o seu guia- falou uma moranga ambulante, usando uma cartola, logo ao seu lado. Lembrou-se novamente do jogo.

- Mas eu não sou Kankan, eu sou um balconista de locadora, e, afinal que loucura é essa?

- Você tem que começar atravessando a floresta. Assim sempre foi, assim tem que ser e continuar sendo- insistiu o legume.

Primeiramente, na floresta, conversou com as plantas carnívoras, os lobisomens, esqueletos e corvos, pedindo-lhes que o ajudassem. A resposta das criaturas elétricas, a mais inusitada possível. Nem mesmo eles sabiam o porquê de atacarem Kankan, somente executavam a tarefa, mecanicamente, sincronizados. Graças aos seus aliados, conseguiram improvisar uma jangada, atravessando facilmente o rio. Já na cidade dos monstros, os mesmos, que nem eram tão monstros assim, ensinaram-lhe um atalho até o cemitério, sem passar pelos vulcões e fontes sulfurosas.

Na necrópole, entretanto, encontrou-se com os vários moleques que freqüentavam a locadora, os fãs de Legend of Kankan. Estavam todos transformados em tábuas pintadas, engastados em ícones coloridos de mosaico, parecidos com aqueles painéis de lápides. Faziam uma algazarra ininteligível ao conversar entre si:

- Mas fala a verdade, Kankan era chato demais, né?

- Ah, nem sei porque a gente viciou tanto em jogar.
 
- Eu, por exemplo, apesar de ter ficado plantado por três horas sem parar na locadora, com os braços e as costas doendo, sempre achei aquele jogo uma bosta?

- E eu então? Odeio Kankan tanto que comprei o cartucho original, custou os olhos da cara!

- Parem de falar disso! Ouçam aqui o truque que faz pra escolher as fases com vidas infinitas!

- Mas o que é isso? indagou o ex-balconista, agora convertido no herói da história, a um dos ogros que o acompanhava.

- Esses são os usuários. Eles eram tão compenetrados no jogo que acabaram virando um pedaço dele, apesar de nunca admitirem isso.

Rumou junto à sua comitiva até o castelo de torres negras, onde morava o tal bruxo. Encontrou-o sentado à lareira, rabiscando freneticamente um rolo de papiros com uma pluma. Assustou-se com a chegada de seus visitantes e, sem esboçar a mínima tentativa de resistência, desenrolou os papéis à frente do suposto Kankan.

- Tento sair disso, mas nunca consigo- vinha ele escrevendo palíndromos em suas folhas, como Roma me tem amor ou Race Car. Por mais que terminasse preenchendo os papiros, sempre havia um pedaço de folha virgem, onde ele voltava escrevendo novamente. Horizontal, vertical, transversal, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda.

- E...onde está a menina?

- Está ali, naquela gaiola. Aqui está a chave- estendeu-a a ele o homem de barbas longas e manto preto.

Abriu o ferrolho, e Juju, ou seja lá quem ela fosse, estava novamente livre. Agradecida, enlaçou-o com os braços, deslizando suas unhas compridas sobre a sua nuca. As duas bocas, quentes e úmidas, friccionando-se com volúpia, provocaram o fogo dos dois corpos. Atraídos pelo chamado da sensualidade, deitaram-se, ela servindo de almofada pra ele, ele com o corpo sob a pele da garota, sentindo o seu calor e seu perfume. Com os olhos fechados, sentiu aquele turbilhão de sensação, naquele pequeno vácuo em que não se pensa em nada.

O leito onde estavam Juju e ele era macio e morno, parecia uma lavoura de batatas recém-irrigada. Ela lhe servia uva por uva com a boca, pacificamente, até que o céu se escureceu e uma lufada violenta a derrubou sobre a terra avermelhada. Mais uma vez, o bruxo voltava, sob uma nuvem de chumbo, para lhe arrancar a amada dos braços. Nisto, surgiu a abóbora falante, a lhe dar conselhos. Mais uma vez, Kankan pega sua espada e penetra nas sebes espinhosas da floresta, à mercê das plantas carnívoras, dos corvos, dos lobisomens e caveiras animadas.

E assim sucessivamente...
José Marcelo Siviero
Enviado por José Marcelo Siviero em 29/06/2006
Código do texto: T184597
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Sobre o autor
José Marcelo Siviero
Araras - São Paulo - Brasil
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José Marcelo Siviero