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Marias Medíocres

       Segundo o que se registram nos boletins, laudos periciais e notas vertidas pela imprensa local, o engavetamento ocorreu por volta das duas da manhã, na Via Anhangüera, o quilômetro onde o feroz acidente ocorreu não conseguiu ser precisamente apurado, mas sabe-se que foi longe de qualquer trevo ou posto de gasolina, num trecho deserto naqueles momentos, escuro, sem nem um cão vadio a tentar atravessar o asfalto. Os plantonistas dum posto da Polícia Rodoviária, montando num tripé um aparelho de monitorar velocidade que lembrava um híbrido de secador de cabelos com uma luneta futurista, captaram aquele veículo que vinha com os faróis altos, voando baixo, os pneus quase a saltarem contra a faixa amarela do meio da pista. No mínimo, o condutor, querendo se passar por um espertinho, sangrava as duas faixas, numa vã tentativa de escapar dos olhos eletrônicos dos radares nas margens.

O automóvel, uma perua Corsa branca, os vidros pesadamente filmados, reinando um breu substancioso em seu interior, ignorou o braço levantando de um dos policiais, o que os obrigou a saltarem na viatura e dispararem atrás dos infratores, as sirenes gritando enlouquecidas.O resultado, não poderia jamais ser dos melhores; o veículo fugitivo arrancou ainda mais, disputando em velocidade com os policiais, terminando por colidir com o pára-choque duma carreta. A traseira do caminhão, ironicamente, ostentava uma frase jocosa até mesmo para a gravidade da tragédia: “o apressado come cru, isso se não se espatifar antes”.
 
As colunas que sustentavam o pára-brisa deslocaram-se até porta-malas; nem mesmo os pneus escaparam da batida sem enrugarem-se, as câmaras de ar dilaceradas, lembrando uma fruta apodrecida; das portas traseiras até as luzes de ré, o Corsa era o mesmo; na frente, uma pústula deformada e supurada de ferragens retorcidas e peças amassadas, fundidas numa única massa caótica de metal. Nem o motorista na boléia da carreta abalroada e nem os oficiais resistiram à cena, responderam a ela com náuseas, vômitos e tonturas de pânico. Convocaram reforços, bombeiros, ambulâncias e um guincho.

Os corpos das três moças que viajavam ali também foram destroçados, a pequena lagoa cor de vinho a manchar o asfalto não negava que elas não escapariam. Quase doze horas completas para livrarem-nas de sua prisão fúnebre e darem-lhes um enterro digno. Os únicos que não derramaram lágrimas perante essa morte estúpida foram as próprias três; enquanto a lataria da perua era serrada numa cascata de faíscas, o trio caminhava pelo mato do acostamento, alheias à escuridão, atadas umas às outras por correntes.
 
- Filho da puta desse motorista, deve estar bêbado- a menina do meio, a mais rechonchuda e atarracada, arrastava os braços acorrentados das amigas- agora olha isso, meu pai vai me matar.

- Olha só a educação desses homens da lei, Maria Renata- dizia outra, à sua direita- vamos lá conversar com esses cavalos, que além de nem olharem na cara de gente ainda nos algemam!

Puxou-as, formando um V com os elos, percebendo-se logo em sua face esburacada de cicatrizes e sulcos, causados por crises copiosas de acne, que ela tinha os dons da liderança. Os guardas e bombeiros continuavam passando à frente delas, alheios, ignorando-as. Ela cutucou com o dedo em riste, as unhas pintadas e cheias de adesivos de estrelas, as costas do condutor do caminhão. Este, instantaneamente, retesando os músculos do tronco, desmaiou.

- Vamos embora, pessoas- falou a chefe das acorrentadas- esse ambiente cansa a minha beleza e suga minhas energias positivas!

O delegado, de jaqueta de couro acolchoado, conduzindo a operação, caiu pálido sobre as rodas da carreta, ao ver, perplexo, que o Corsa destruído tentava dar a partida, mais assustado ficou quando aquela sucata soltou o freio de mão e começou a se arrastar, queimando óleo, para longe da rodovia.


Nenhuma delas tinha o nome composto, nem se chamavam Maria, mas gostavam de se tratar adicionando o sufixo aos seus nomes marcados nas identidades. Maria Renata, Maria Paola e Maria Giovana. Conversavam a referiam-se a si mesmas com essa terminologia, mais um dos bizarros códigos com os quais elas se comunicavam e deixavam os outros à sua volta em dúvida. “Socializar”, na linguagem delas, tinha outro significado atribuído. Se elas quisessem agarrar e beijar um rapaz, elas “socializavam”, truncando o léxico, alterando a inflexão do verbo. “Causar”, este era um vocábulo mais flexível, poderia ser passear, conhecer, curtir, aproveitar, desfrutar, dar risadas, contar piadas sem graça. “Cabeçuda” não era um adjetivo, tampouco um novo advérbio, mas sim um apelido prosaico, uma espécie de aposto, outro maneira de elas se dirigem a si mesmas.

As três Marias, sem ofender aos três astros luminosos e às três mulheres da Bíblia, viajavam todas as sextas-feiras para assistir às apresentações de sua banda preferida de pagode (cujo nome será omitido aqui, para preservar as identidades dos integrantes), sem se importar que seu gesto fosse um ritual mecânico e igual. Sabiam todas as letras de cor e salteado, decoraram a ordem do setlist, invadiam os camarins para pedirem os mesmos autógrafos, repetirem as mesmas conversas e tirarem as mesmas fotografias. Bem naquela fatídica madrugada, nem se importaram com os saltos da agulha do velocímetro, nem com a advertência e a perseguição dos guardas, de tão inebriadas que estavam em seus delírios orgásticos. Agora, depois de Maria Renata bater o carro, elas tentavam voltar para casa.

- Ai, meu Deus, ai meu Deus- gritava a desastrosa motorista- meu pai vai me matar.

- Mas isso não importa, cabeçuda- interrompeu-a Maria Giovana- nós estaremos aqui para te ajudar, amiga! Pode contar conosco, juntas nós conseguiremos vencer o mau humor do teu velhaco.

- Ai, como é bom a gente estar juntas, né- falou ela, numa voz infantil- vocês são as minhas amiguinhas queridas, sempre juntas e aprendendo juntas!

Não saberiam é explicar os grilhões que elas carregava nos pulsos, mas, enfim, estavam todas juntas, isso era o que importava. Quando estacionaram a perua em ruínas na garagem da residência de Maria Renata, Maria Giovana reclamou de frio, retesando a pele, justamente ela a mais calorenta, a que mais usava decotes e saias curtas. Também Maria Paola comentou de suas sensações estranhas, parecia estar nua.

- Mas que besteira, cabeçuda! Vamos, vamos entrar, vamos ver se meus queridos papai e mamãe tão num sono de pedra!

Vestiam-se iguais uma à outra, e suas indumentárias variavam conforme suas fases; agora, gostavam de regatas leves e coloridas, com colares de contas de plástico e búzios sobre os seios, saias longas de cetim e sandálias ou chinelos artesanais, nunca mais as botas de cano alto que antes eram uma mania. Por sorte, a casa estava vazia; no quarto, a cama de casal desarrumada, como se deixada às pressas, o telefone fora do gancho. Maria Paola sugeriu pedirem sanduíches, comeriam ali e logo depois sairiam para mais um passeio noturno.

- Tudo bem, mas cuidado, não vamos engordar, senão os meninos não vão socializar com a gente, pareceremos umas bruacas nojentas- comentou a dona da casa, lutando para segurar o fone que lhe escorregava pelas mãos. Parecia que o tinham untado com manteiga derretida, até que conseguiu enfim pegá-lo e discar o número da lanchonete. Do outro lado da linha, a atendente só ficava falando alô, até que desligava. A linha deles deveria estar com algum defeito.

- Não faz mal, a gente pode dar uma volta- sugeriu Maria Giovana, ainda enlaçando-se com os braços, friorenta- vamos passar em frente das baladas e perseguir nossos alvos.

- Vamos, amiga- concordou Maria Renata, a face com um sorriso esculpido com linhas grosseiras.

Nem percebeu as marcas que seus dedos deixaram sobre o teclado do aparelho, um pó branco e reluzente a polvilhar os números, levemente verde-limão.


O mesmo roteiro, um traslado nas ruas à frente dos bares, lanchonetes, casas noturnas e boates, inúmeras vezes seguidas, enfrentando sem parar as filas de automóveis e motocicletas. Sempre reparando nos cabelos, roupas, trejeitos e veículos onde chegavam os boêmios.

- Olha lá, Maria Renata, aquele otário do Rodolfo!
 
- Ah, Maria Paola, mas pelo menos ele tá bombado, ele até que tá bonitinho com esses músculos!

- Só mesmo a Maria Giovana pra gostar de músculo, viu, pelo amor de Deus- arfou a motorista, com as mãos sobre um volante pendendo da coluna de direção.

- Pelo menos não fui eu que socializei e chupei o dito-cujo dum ripongo que não toma banho todos os dias- rebateu a amiga, e mais uma vez as três riram, histericamente, de suas trocas de farpas.

Porém, quando passaram bem devagar à frente de um dos bares, ainda lotado e movimentado considerando-se o horário, detiveram-se sob um dos rapazes à porta, cabelo espetado com muito gel, camiseta de grife, descansando apoiado sobre o seu Audi A3, uma lata de cerveja à mão. Maria Renata deu uma freada brusca, o carro miando tortuosamente, e depois soltou um grito ensandecido, um brado endoidecido, esmurrando o painel estilhaçado. As outras, puxando suas pulseiras de metal, seguiram-na no inusitado gesto.

- Ai, vou chorar, vou chorar, que bonitinho- Maria Renata quase babava sobre a ignição rachada, acompanhando com os olhos o rapaz. Depois, estacionou na esquina duma rua paralela, espreitando até que sua paixão deixasse o bar. Depois saiu em seu encalço, não durante muito tempo, pois ele, apavorado, afundou o acelerador ao ver no retrovisor um carro destruído, sem nenhum motorista a comandar.

- Bom, gente, estou com sono- falou Maria Giovana, bocejando com a mão em concha sobre a boca- e aí, onde vamos agora?

- Ah, amiga, vamos filar aquele hambúrguer de fim de noite, lá naquela lanchonete onde se recusaram a atender a nós, nós, justamente as freguesas de toda semana! retrucou Maria Paola.

Esperaram, esperaram, mas nenhum garçom aproximou-se da mesa delas. Maria Renata se levantou, escandalosa, e começou a querer puxar briga, mas tanto fregueses quanto os funcionários do caixa e os chapeiros a ignoravam. Uma mácula dolorosa para uma pessoa tão mimada como ela. Foram embora, não sem antes uns clientes, a uma mesa do canto, estranharem que a mobília tombasse sem nenhuma lufada de vento a lhes desequilibrar.


Devido aos grilhões que as prendiam, tiveram de montar uma escala de noites, para organizarem na casa de qual iriam dormir. Os pais as ignoravam, mas enfim, nas palavras de Maria Paola, azar o deles, o que importava é que elas seriam amigas para sempre, eternamente, conforme os juramentos informais que selavam entre si. Raramente apareciam nas classes de suas universidades, nem se importavam mais com reprovações, afinal, tinham coisas mais importantes para se dedicarem. Ir às festas todo sábado, correrem atrás dos rapazes mais belos e causarem, a vida já lhes estava de bom tamanho.

Uma noite, antes de visitarem a república estudantil duns moços com os quais elas trocavam beijos e confidências, Maria Giovana, enquanto preparava tapiocas e macarronadas, acidentalmente tocou com os dedos nas chamas do fogão. Não sentiu dor, nem a temperatura do fogareiro, nem mesmo se machucara. As meninas, ao seu lado, também estranharem a sua pele intacta, sem nenhuma bolha. Maria Paola estranhou mais ainda ao encontrar o casarão dos universitários trancado, mais ainda quando descobriu seu talento prestidigitador ao abrir o cadeado como nem Houdini conseguiria.

- Não acredito, não acredito, NÃO ACREDITO! exclamaram as três, em uníssono- estão fazendo um churrasco, chamaram um monte de vagabundas e nem avisaram a gente. Que ódio!

Mais uma vez, elas eram ignoradas no meio da festa, não lhes perceberam nem quanto subiram numa mesa e começaram a chorar e a gritar, fingindo uma birra que não se vê em pessoas de vinte e poucos anos. Não conseguiam nem mesmo acertar os seus pretendentes com beliscões e tapas, o máximo que conseguiram foi deixar uma menina possessa, grunhindo palavras bizarras, instilada duma raiva irracional. Uma bêbada, puta, vadia, patricinha fútil, pensou Maria Paola ao mirá-la nos olhos.


Continuaram indo às festas, dando voltas de carro, fofocando pela Internet, vasculhando a criticando a vida dos seus pares. Não se importavam com a mesmice daquela ridícula cidade de interior onde moravam, só mesmo um muro sólido, coberto de arame farpado e cacos de vidro, erguido nos limites do município, impedia-as de ir aos seus shows de samba e pagode. Também era impossível escalar aquela muralha chapiscada, e ela era tão maciça que nada lhe abria fissuras. Porém, conforme elas observavam, havia pessoas que conseguiam transpor a barreira. Mas, enfim, nem se importavam, tinham outras coisas importantes a fazer do que perseguir ídolos.

Numa tarde de domingo, o computador ligado com o MSN aberto, elas conversavam com várias pessoas simultaneamente, gargalhando das respostas cínicas que elas mesmas desfiavam. Foi quando Maria Giovana apontou para um relógio de parede incrustado no quarto de dormir de Maria Renata.

- Olha, aquele relógio nunca mais funcionou direito...

- É verdade. Nossa, Maria Renata, devo estar com alguma coisa nos olhos, eu estou enxergando esse relógio embaçado- comentou Maria Paola.

- É, o do meu celular também parou...o do computador aqui também deu pau!

Pelos seus pensamentos nem lhes passou a rotina que andavam tendo, nem reparavam que nunca mais viram o dia e a noite, vivendo num eterno instante de crepúsculo, um lusco-fusco perpétuo que nunca terminava em escuridão total. Pelo menos viam isso quando estavam em vigília. Pois dormiam boa parte do tempo, só despertavam para as suas monótonas tarefas.


- Maria Renata, como será que vai ser quando a primeira de nós morrer?

- Sei lá, Maria Paola. Do jeito que nós somos amigas, acho que todas nós vamos desencarnar juntas, na mesma hora, no mesmo dia.

- Mesmo no céu ou no inferno, juntas estaremos- reiterou Maria Giovana.

As três levaram as pesadas correntes para cima, esmurrando o ar com os punhos cerrados. Lá fora, a coloração afogueada do firmamento parecia cuspir fagulhas para baixo, naquele mundo tingido dum amarelado de bolor. Logo elas sairiam de casa, dariam voltas e perseguiriam os colegas, para logo depois dormirem e acordarem para repetir os mesmos ritos, com a mesma cadência e a mesma disposição.
 
No horizonte, as nuvens continuariam imóveis, ad infinitum.
José Marcelo Siviero
Enviado por José Marcelo Siviero em 01/07/2006
Código do texto: T185509
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José Marcelo Siviero
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