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Fronteiras da Vida

Estava muito feliz, acabara de tirar férias e seriam longas, tinha trinta dias certos para descansar e aproveitar para ver-me longe de todo aquele estresse. Sou um renomado médico e, vivo, ou melhor, sobrevivo sob um alto nível de pressão, pessoas correndo desesperadas e clamando por minha atenção, outros me culpando por conseqüências geradas por seus próprios entes e, ali estou sempre, sendo bem remunerado, mas em contrapartida, morando em um hospital.
Lembro-me a última vez em que sai de férias, ainda era casado. Viajamos para Fernando de Noronha, já fazem, eu acho, uns oito anos, aproximadamente. Viajamos em nossa lua de mel, mas, certo, apenas numa ocasião tão especial para fazer-me largar o trabalho. Nestes longos anos, consegui juntar algum patrimônio, não é grande coisa, mas já é uma quantidade razoável de dinheiro. Tenho carro do ano, sempre de alto nível, uma mansão, clínica e uma fazenda com alguns milhares de bois, são pequenas coisas que nos faz sentir recompensado. Nesse período não aproveitei muito para me divertir, sempre trabalhando e trabalhando, acho que este foi um dos motivos da minha esposa ter-me deixado, e interessante, nunca quis nada meu, graças a deus. Esse tipo de gente é muito bom de se mexer e, também, relacionar. Eles têm uma historia de não precisar do que é seu, de ser livre, de não gostar de se aproveitar, blá blá blá... Coisa de gente pobre de espírito e de dinheiro. Mas, tudo bem, assim não foi necessário me dispor de algo meu e, que apenas eu, com meu esforço juntei. Por isso vivo tranqüilo financeiramente, não preciso de ajuda de ninguém, engraçado, eles todos é que precisam de mim.
Como estava dizendo, tirei umas férias e finalmente vou fazer algo que as pessoas tanto me aconselham, viajar pelo mundo, tentar aproveitar a vida, como se eu já não aproveitasse bem.
Comprei um pacote de turismo, vou pegar um avião para a Europa, mais precisamente, para Paris e de lá vou varrer toda a Europa de trem, deve ser bom, posso até ver alguma possibilidade de comprar algum imóvel e alugar, sempre é hora de ganhar dinheiro. Passando uns quinze dias na Europa, vou em direção a Ásia, afinal é onde fica todos os principais avanços tecnológicos e também fazer alguns contatos, quem sabe posso encontrar um bom profissional para contratar e fazer também um trabalho de medicina oriental, é milenar, as pessoas gostam e principalmente, pagam caro por isso. Enfim, estes são meus projetos de férias, vou me divertir muito.
Então chegou o dia de partir, o vôo sai daqui a alguns minutos, estou ansioso. Por uns instantes, fiquei ali parado, olhando para o nada, quando de repente sinto um mal estar e desmaio. Sei que algum tempo depois, já havia acordado, estranho foi o fato de ninguém ter notado meu desmaio, até que aparece, uma moça linda, talvez a mais bonita que eu já tinha visto na minha vida, ela veio em minha direção e, com um sorriso meigo, puxou conversa comigo. Conversamos sobre profissão, por sinal ela era médica, e me conhecia por nome, me elogiou bastante, e daí em diante a conversa fluiu muito bem, afinal era uma pessoa muito prudente em seus comentários e sabia que estava conversando com um dos melhores, ou talvez, o melhor neurologista do Brasil, ela realmente sabia onde pisava.
Após muita conversa, dormi profundamente, até hoje me sinto estranho, não consigo falar com as pessoas, ninguém me ouve, nem sequer olham pra mim. Em alguns momentos, ouço as pessoas comentando, provavelmente ironicamente, sobre minha morte, e o quanto eu juntei para depois deixar tudo para minha ex-mulher, certamente não sabem o que dizem. Decerto estão loucos, pois se existe algo que nunca deixaria a outros, é meu dinheiro. Afinal, trabalhei muito para arrecadar tanto, e para deixar para estes aproveitadores, nunca.
Mesmo assim, recusado por todos, vivo e sigo vivendo da mesma forma que sempre vivi. Tenho minhas posses, e não darei nada a ninguém. Pois, o que possuo, levou anos para acumular, e mereço, sinceramente, aproveitar do jeito que eu sei. E sigo isolado, mas trabalhando e seguindo minha vida, só tenho uma tristeza, nunca mais vi aquela moça linda, o quanto era bela e inteligente, mas um dia eu a encontrarei e nem a morte impedirá.


Everton Cangussu
Enviado por Everton Cangussu em 03/07/2006
Código do texto: T186935

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Sobre o autor
Everton Cangussu
Imperatriz - Maranhão - Brasil, 38 anos
25 textos (1069 leituras)
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