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Ponto de vista das formigas

Mundo, vasto mundo, hostil e cruel. Assim sempre foi tudo: difícil, caro, um parto para cada coisa. Cada pessoa, nova dificuldade. Criança-periferia, escondia-se do mundo. Criança-bicho, pelos cantos, espiando tudo debaixo da cama, atrás dos móveis. Tudo estranho: gente.

Só se interessava por formigas, gravetos, poeira. Horas mergulhado no só, construindo,com palitos de fósforos, mundos pequenos e secretos; um universo de besouros e grilos. Andava assim, olhando para o chão, não encarava ninguém. Fixava-se em coisas sem préstimos: cachorro cagando, lesmas deixando seus rastros na parede, alguma pedrinha solta na correnteza d’água da chuva na guia da calçada – que seguia por tempo e ruas.

Com o tempo passado, especializou-se em inferioridades, em relutâncias, incertezas, miudezas, vidas nas calçadas. Pelo ponto de vista do chão, sua visão de formiga, o fazia privilegiado em pouca coisa, dinheiro miúdo, desgrandezas em geral.

De tanto só que se fazia, que caiu olhos em livros e,ao invés de prestar atenção nas histórias e heróis, se ocupava mais das palavras. Passou a colecionar as mais belas. Com o tempo foi juntando várias como se fossem mantimento para o inverno, balas para uma guerra futura. Dentre estas preferia algumas: Abraxas, acauã, aldeia, aldebarã, nexo, extra, lucas, zabelê, poema, água, aldeia... Sem perceber, depois, foi usando-as, dando nomes a gente, gatos, apelidando outras com estas.

Depois das palavras vieram as frases. Encheu cadernos com elas e, mais uma vez, buscou a distorção, os ditos daqueles escritores de visão torta, subversiva. Só queira inadaptáveis, especializara-se em olhares oblíquos, transversais. Quando já havia um bom estoque, passou ele mesmo a escrever coisas que lhe estalavam de repente.

Lá foi de novo. Voltou-se às coisas abandonadas pela vida, personagens seus, suas crias: Gente da favela, das ruas, vielas  e becos, crianças sem-pátria-dos-faróis, pés descalços, barracos, sertão, índios e heróis derrotados: Lampião, Antônio Conselheiro, Che Guevara...

Voltou seus olhos para dentro, quando todo mundo queria o exterior. Foi ao sertão de trem, quando todo mundo ia litoral. Olhava tudo pela ótica do soslaio. Passou a ter fixação pela imagem do santo flechado, São Sebastião, pelo despojamento de São Francisco. Por todos os santos de pés-no chão; pelos heróis desvalidos, pelas causa que não deram certo. Vestiu-se de Brasil.

A compulsão para olhar para tudo pela ótica das formigas ainda lhe perseguiu adulto. E foram tantas coisas que achou pelo caminho: cacos da vida, muita; descasos com gente, aos montes. Tudo que viu, recolheu com o olhar, matéria densa, simplicidades mil, flores arrancadas, folhas mortas, pedrinhas soltas, chutadas... Armou-se disso e  construiu um canto. Pra que seria? Se perguntavam a ele.  - Poesia, respondia sempre: Poesia!
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 31/07/2006
Reeditado em 31/07/2006
Código do texto: T206209

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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