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Paralelo (incompleto)

[não vou postar o texto inteiro aqui, mas apenas parte dele, por pretendo publicá-lo mais tarde, em algum outro lugar]


   Bianca estava começando a ficar assustada. Dirigia de forma tensa seu Volkswagen na estrada de mão dupla asfaltada, ligeiramente inclinada, que subia os morros da serra com muitas curvas ameaçadoras. As nuvens se condensavam, formando toucas de umidade no topo dos montes, e atrapalhando a visibilidade de quem lá estivesse. Bianca não ligava. Sua pressão sanguínea vinha aumentando constantemente nas últimas horas. A seqüência de acontecimentos estranhos estava afetando sua habitual calma e segurança. Desde que saíra de casa, planejando passar um agradável dia no frio da serra, as coisas tinham começado a desandar. Uma por uma, ela não sabia bem onde tudo começara. A primeira coisa que notara haviam sido as cidadezinhas. Ou melhor, a ausência delas.
   Geralmente, quando se subia a serra por aquele caminho, eram visíveis na beira da estrada muitas casinhas e vilas de clássica arquitetura colonial, ou mesmo bairros mais modernos. Todos isolados da civilização ao nível do mar. Algumas pessoas e lojas apareciam, vendendo coisas e socializando com os turistas. Bianca rodara já grande parte do caminho. Não vira nenhuma cidade. Nenhuma. Nada. Nenhum sinal de pessoas que não estivessem nos carros. Apenas mata fechada e formas de relevo bruscas. Ela ficara um pouco preocupada, mas era impossível que tivesse errado a estrada. Concluira que estava confundindo suas memórias. E afastara esses pensamentos, se concentrando na estrada. Um erro. Ali notara a segunda coisa.
   Os carros andavam, normalmente, rodando, pela estrada. Faziam as curvas, se mantinham nas pistas certas. Nada de errado. Mas então Bianca olhara através dos pára-brisas, e vira os bancos dos motoristas, de todos os carros que passavam por ela, vazios. Não havia pessoas pilotando os carros. Eles estavam andando sozinhos, sem nenhuma mão humana no volante. Não era uma peça da visão. Uma peça de sua mente, talvez.
   Ela demorara até se convencer de que estava realmente acontecendo. Perguntou-se se teria ficado maluca. Talvez tendo uma alucinação inesperada. Porém não havia nada que indicasse que não estava mentalmente sã. Estava conseguindo raciocinar direito, não entrara em pânico, não estava vendo amebas gigantes com olhos avançarem pela rodovia. . Estava consciente do que estava acontecendo, apesar de confusa. Tentou se convencer de que estava sonhando. Mas era tudo nítido demais, detalhado demais.
   Tudo muito real. Naquela manhã nublada, tudo era extremamente real para Bianca, por mais que ela quisesse se convencer do contrário.

   Estava dirigindo, trêmula, tentando prestar atenção na estrada, ao invés de ter um ataque. Seus pensamentos teimavam em se desorganizar. Metade de seus miolos insistia em que aquilo tudo não passava de uma ilusão, um sonho, um delírio, quem sabe. Mas a parte mais esperta da cabeça lhe dizia, com assustadora insistência, que estava firmemente acordada.
  Não conseguia imaginar o que fazer. Havia algo errado, e era mais provável que fosse com ela do que com o resto do mundo. Mas o que fazer? Parar na beira da encosta e pedir carona para os motoristas inexistentes?
   Poderia parar o carro, sentar no chão e gritar por socorro. Seria mais seguro do que sair por aí andando. Se aquilo tudo pertencesse apenas a seu cérebro, ela poderia se machucar. Mas não havia onde estacionar na beira da estrada estreita. O acostamento desaparecera alguns quilômetros atrás. Assim como qualquer noção de distância, e qualquer probabilidade de levar uma sexta-feira tranqüila. Já imaginava como aquilo tudo terminaria. Seria levada por um aparente fantasma a um hospital, de lá para um psiquiatra.
  “Ei, você não está tendo alucinações. Está aí, não vê?”
   Como qualquer mente humana, a sua tentava admitir qualquer coisa, antes de aceitar que pudesse ter ficado levemente pirada. Entretanto, era mais seguro pensar que tinha algo falhando dentro de sua caixa craniana. Mais seguro. Muito mais seguro.
   Bianca esfregou a testa, e percebeu que suava em bicas. Não podia acreditas que havia poucas horas ela estivera pegando a bolsa, o cantil, e saindo de casa, sorridente, apenas passeando, como uma pessoa comum, num mundo comum. Agora estava ali. Com carros sem motoristas, no meio do nada, sem cidades, sem pessoas, sem lugares onde pedir ajuda. Nem mesmo um mísero espaço onde fazer o retorno e voltar.
   Olhou para o céu. Estava avermelhado, com tons de laranja e rosa. A iluminação diminuía rapidamente. Por do sol? Ao meio dia? Olhou para o relógio, e descobriu que este estava rodando no sentido anti-horário.
   Precisava de um ponto de referência. Só isso. Alguma coisa que ligasse a paisagem surreal ao mundo que ela conhecia. Claro. Tinha a estrada.
  O que isso prova?
  “Você não está louca. O mundo é que está.”
   Ela engoliu em seco, e olhou pelo retrovisor, o carro que vinha se aproximando.
   Estava se aproximando depressa. Era uma Mitsubishi, um monstro L-200 amarelo berrante, contrastando com as cores cada vez mais escuras do dia. Bianca o olhou, crescendo no espelhinho pendurado no teto, maior, maior, mais perto.
   Atordoada, demorou até se dar conta de que a caminhonete tinha um motorista, ao contrário dos outros veículos, e que ela estava indo propositalmente em sua direção. Quando percebeu que iria bater contra seu pára-choque traseiro, já era tarde para acelerar ou desviar.
   
   O mundo girava. Girava loucamente, numa velocidade incrível, em volta de sua cabeça, como uma mosca tonta. Tinha consciência da dor na perna, e na cabeça cheia de vácuo. Cheiro forte de terra molhada e coisas em decomposição. A floresta. Vista através do pára-brisa quebrado, com um padrão em forma de teia de aranha. Havia galhos invadindo o carro pela janela quebrada do lado esquerdo. Havia sangue no seu tornozelo. Haviam pequenos pontos pretos pairando diante de seus olhos marejados, e uma pilha de absorventes caída no seu colo, através do porta-luvas aberto. Estava viva. Puta que pariu, estava viva.
   Teve a impressão de estar acordando, religando partes de seu corpo parcialmente, devagar. Deu-se conta de que desmaiara. Só poderia ter desmaiado. Lembrava da Mitsubishi batendo em cheio contra seu pequeno e indefeso Volkswagen, e de ter gritado, quando vira o que aconteceria a seguir. O carro foi empurrado, em direção à curva, e iria cair. Despencar pela ladeira abaixo, até o vale, numa queda de uns 5oo metros, antes do impacto com o chão. Pensara que iria morrer, agora. Pensara em como seria doloroso ser esmagada pelo teto do carro afundado contra o solo. E então devia ter perdido os sentidos. Não podia recordar-se da queda, nem como viera parar naquele lugar, inteira, com apenas ferimentos leves.
   Aos poucos, a imagem dos carros sem motoristas lhe veio a mente. Uma idéia lhe deu uma esperança momentânea. Ela poderia ter tido uma espécie de transe, enquanto dirigia. Imaginara tudo aquilo. E acabara saindo da estrada, enquanto mergulhada em si mesma.
Aquilo explicaria muito. Mas não a posição do carro.
   Estava preso, de cabeça para baixo, entre a forquilha formada por dois grossos galhos de uma árvore tombada, á poucos metros do solo. Salva pelo cinto de segurança e pela sorte. Uma sorte impossível, se levando em conta o que acontecera. Ou não.
   Bianca olhou através da janela do passageiro. Não viu nenhum sinal de morros ou elevações, em ambos os lados. Nenhum sinal da estrada, o que talvez se devesse à grossa neblina que baixara sobre o lugar. Ela registrou a luz clara que transpassava a névoa, e concluiu que não estava mais no crepúsculo. Mas estivera, agora há pouco, mas poderia não ter estado...
   Ela respirou fundo. Nunca acreditara em algo como Deus, parado em todo lugar, se preocupando com todo mundo. Mas agora gostaria sinceramente de ter alguma fé pela qual pudesse pedir alguma coisa. Acordar em seu quarto, na Rua dos Andradas, em Porto Alegre, se remexer um pouco nas cobertas, e rir do próprio sonho babaca, e da maneira estúpida em como acreditara em que era tudo real...
   Respirou fundo, fechando os olhos por um instante. Abriu-os, e olhou para o banco do passageiro, novamente. Suas pupilas se contraíram, bem como seu peito, enquanto um grito escapava por sua garganta.
  Um corpo estava pendurado pelo cinto no banco ao lado dela. A pele estava coberta de feridas inflamadas, onde pus e secreções diversas se acumulavam e escorriam, de forma quase caudalosa. O abdômen estava inchado, e um rasgão expunha a rede de intestinos que ficava semi-pendurada para fora da barriga. As tripas também tinham pequenos cortes, através dos quais se via restos de comida digerida. Apresentavam um aspecto pútrido, reforçado pelos centenas de vermes acinzentados que se banqueteavam em sua superfície. Os braços pendiam, inertes, sustentando mãos nas quais faltavam dedos. Os olhos fitavam o nada, vidrados. As pálpebras pareciam ter sido arrancadas, bem como os lábios. A arcada dentária entreaberta deixava à mostra a língua arroxeada, com o dobro do tamanho normal.
   Bianca gritou, as mãos agarrando-se ao banco, ao fecho do cinto, tentando tira-la dali. O clique metálico anunciou sua pré-liberdade. Ela caiu de cabeça no teto amassado do Volkswagen, se precipitando para a janela. Procurou uma fresta entre os galhos que invadiam o carro, tentando escapar.
  Sentiu a mão gelada pegar seu colarinho por trás. Foi puxada, com uma força assombrosa, de volta para dentro. Aquela coisa a tocou, fazendo-a se encolher de nojo e horror. A virou, com violência. Bianca voltou a berrar. O rosto morto á poucos centímetros do seu. Sorria, debochadamente, vendo as lágrimas vazarem dos olhos castanhos. As bordas da boca se esgaçaram, enquanto ele emitiu as palavras, numa voz áspera.
__Onde pensa que vai, garotinha?
   Bianca tentou cobrir os rosto. Aquilo segurou seus pulsos, e ela não conseguiu se mover, quando a coisa se inclinou para frente, e beijou sua boca, empurrando a língua decomposta contra a sua. Bianca sentiu o gosto de carne pútrida. Fechou os olhos, tentando inutilmente se livrar.

  Quando os abriu, estava fitando o escuro. Nada mais.
Júlia Palazzo
Enviado por Júlia Palazzo em 07/08/2006
Código do texto: T211399
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Sobre a autora
Júlia Palazzo
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 23 anos
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