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velhinho high-tech

a cidade de que se fala aqui é Porto Alegre, que é vizinha da cidade onde moro, aqui no RS, no Brasil. o velhinho ( que será apresentado na segunda parte) é um velhinho real, que eu e minhas benditas mães e irmã vimos quando passeávamos pela Redenção. Buenas, isso aqui não pretende ser nada demais:

"(...) Félix Chevalier pulou para fora do inconsoante Land Rover, segurando a prancheta de desenho em uma mão, e na outra a alça da mochila pendurada no ombro. Seu par de tênis All Star levantou poeira do chão assentado por britas. Ele puxou do bolso a chave, e entregou-a ao flanelinha, em seguida indo até a casinha de uma berrante cor verde-limão e preenchendo uma fichinha de papel reciclado.
Saiu pelo portão do utilíssimo estacionamento 24 horas, para a calçada apinhada de carros. Não havia um lugar no meio fio para se estacionar em um raio de muitos metros. Não era à toa. Todos os habitantes de Porto Alegre pareciam ter tido a mesma idéia, naquele domingo deslocado em pleno julho. Fazia calor, apesar do céu nublado, e uma grande massa de pessoas se concentrava no Parque da Redenção (que, em linguagem oficial, deveria ser o Parque Farroupilha). Era uma grande are no Centro, com grandes e sombrias árvores, monumentos, pessoas, cachorros, um mini-zoológico, um ou três lagos, um play ground, e até uma fachada onde se acumulavam banquinhas vendendo produtos diversos. O famoso brick da Redenção. A variedade de compras ia desde esculturas de arame até mel, e uma outra gama de produtos artesanais.
Felix já estivera ali muitas vezes, e sempre achava que já conhecia o parque inteiro. Mas sempre que aparecia ali, descobria que o lugar lhe reservava novas surpresas. Estátuas e cantos ocultos cuja existência ele ignorava. Além disso, a fauna que circulava pelo lugar, composta por uma miscigenação confusa de EMOs, góticos, ativistas e pessoas perigosamente normais era extremamente curiosa. Félix se sentia bem em sentar e observar as pessoas, o que lhe valia muitas idéias e aprendizagens em reação aos seus desenhos. Mas, infelizmente, como ele descobrira após adquirir algumas discussões e um olho roxo, as pessoas não gostavam de ser observadas. Então ele se contentava em observar objetos inanimados. Fazer o que.
Felix olhou em volta, buscando se localizar. Avistou um prédio familiar, com algumas palmeiras altérrimas plantadas na frente. Estava na rua Venâncio Aires. Ok. Virou à esquerda, e começou a trotar sobre os paralelepípedos, entre as pessoas e postes manchados de mijo. Graças a Alguém, estava numa parte em que não precisaria transpor o atrulhado brick. Atravessou a rua de asfalto, tropeçando num pug de cara preta que vinha na direção contrária, seguro pelos donos em uma coleira vermelha. Ultrapassou a barreira imaginária que separava o parque do resto da cidade.
Suspirou, segurando a prancheta na frete do corpo para esconder a camisa aberta até o quinto botão. Não tinha deixado-a aberta com a intenção de exibir seus praticamente inexistentes músculos frontais, mas simplesmente por que os botões tinham caído, e todas as suas outras roupas tinham sido socadas de uma vez na máquina de lavar por Leopoldo Campbell, seu alegre e otimista companheiro de apartamento. Do tipo maluco-beleza, Campbell parecia não se incomodar em ser inconvenientemente feliz e despreocupado, o que apenas fazia Félix parecer mais deprimido e problemático. Era assim, desde que tinham se conhecido no impecavelmente limpo manicômio estadual. Sua cela acolchoada era pequena e seus movimentos eram limitados pela camisa de força, mas ele se sentira melhor quando seu médico deixara Campbell entrar e conversar com ele. Não estava numa camisa de força, mas Félix percebia que tinha tomado uma boa dose de tranqüilizantes. Era normal, naquele lugar. Campbell fora parar lá por sua estranha alienação e alguns problemas de regulagem, que o impediam de uma forma hilária de distinguir a fantasia da realidade. Nível leve. Felix fora internado por suas compulsivas tentativas de infringir dano a si mesmo. Depois que tinha falsificado a própria alta e caído fora, ele passara a se auto-desprezar de forma menos intensa. E até achava que conseguira atingir um certo grau de amor próprio. Tinha seu emprego mesquinho, que ajudava a pagar o aluguel ao senhor Turra, o ex papa que secretamente sofrera um impeachment há muito tempo atrás. Tinha um hyrax falante chamado Nietzche que era viciado em biscoitos plic-plac, por bichinho de estimação.Tinha uma namorada, o que revertia um pouco a idéia de que não valia nada. E ia passear no Parque da Redenção, num quente domingo de inverno. Pitórico, não?
A entrada entre aspas do parque daquele lado era um espaço ao ar livre, rodeado pelas árvores antigas, no centro do qual se erguia o que deveria ser uma imitação do Arco do Triunfo, na Alemanha. Não tão monumental, era conhecido como Monumento ao Expedicionário, ali em POA, e era onde as pessoas se apoiavam para beber, falar, ou alongar o corpo entre uma ou outra corrida ou caminhada. Atrás dele, num pedestal, estava uma estranha figura esculpida que Félix interpretava como uma mulher com um elmo, um vestido, e um rabo muito comprido. Samantha, sua namorada, pacientemente lhe explicara que aquilo era uma cobra parada do lado da moça. Então ta...
Félix se dirigiu para mais perto da orla do “mato”, evitando o movimento dos pedestres. Começou a vasculhar o ambiente, em busca de inspiração para preencher as folhas de papel em branco na prancheta de desenho. Foi quando ouviu uma música estranha, difundida entra a cacofonia do parque.
  Procurou em volta, mas não localizou a fonte. Seguiu pelo largo caminho do parque, e foi caminhando, até ver o velho.
Demorou até reparar nele. Discreto, afundado em um casaco grande demais para ele, com uma boina escondendo os cabelos grisalhos. Sentado no banco, de costas para Félix, de forma que esse não conseguia ver sua expressão, nem o que estava fazendo. Mas a música vinha dele. Uma música lenta e melancólica, de uma gaita de boca sendo assoprada por lábios rachados. Uma onda de desânimo estragou seu parco ânimo, quando juntou os fatos mentalmente. Um velhinho sentado no banco do parque, sozinho, sob as carícias da brisa sulina, tocando uma gaita enferrujada para conseguir alguns trocados.
Félix foi tomado por uma mistura confusa de pena e um sentimento não identificado, fitando aquela cena triste e bucólica, ilhada na caótica Porto Alegre. A música era tocada, sem ser notada pelas pessoas que passavam, deprimente. Tão deslocada em meio à cidade. Félix inevitavelmente se sentiu infeliz. A cena tinha uma simbologia intensa, algo abstrata, soando nas notas da gaita de boca. Era surreal, e tinha farpas de magia urbana, que faziam coro as nuvens brancas e cinzentas que fechavam o céu. Algumas folhas deram cambalhotas pelo chão, enquanto o ritmo da musiquinha se alterava.
Uma ótima situação para um desenho, mas não o alegrou nem um pouco. Levou a mão livre ao bolso, ignorando o ensinamento “não dê esmolas”. Catou algumas moedas de um real, e girou-as entre os dedos, depressivamente admirado em contemplar aquele ser, que parecia não pertencer aquele lugar ou àquela época. Discretamente, começou a dar a volta no banco, evitando chamar a atenção do velhinho. Ia se aproximar, quando pousou seus olhos no banco e no velho, e estacou, estupefato.
O velhinho estava com as mãos nos bolsos, e olhava distraidamente as pessoas que caminhavam ante seus olhos semicerrados. Do lado dele, um rádio portátil irradiava a música de gaita, fazendo companhia a uma pilha de Cds que estavam adornados por algumas tabelas contendo os preços destes. Félix olhou aquilo, com a boca entreaberta, e o velhinho se virou para ele, com um largo sorriso de quem está passando um bom dia.
__Posso ajuda-lo, filho?
__Não.__ sacudiu a cabeça, e guardou as moedas, constrangido__ Não, obrigado. Eu estava só dando uma parada...
O sorriso do velho se alargou, e ele lhe deu um aceno de cabeça, depois voltando sua atenção para o resto do parque. Félix o olhou, durante mais alguns instantes, a sensação de decepção afetando-o de novo. Suspirou, ruminando aquela verdadeira “magia” do século 21, e continuou seu passeio, pelo Parque da Redenção."
 
Júlia Palazzo
Enviado por Júlia Palazzo em 08/08/2006
Código do texto: T212210
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Sobre a autora
Júlia Palazzo
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 23 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 17:48)