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Título? Para quê!

        Novamente tento escrever algumas páginas. Algo me corrói internamente. Só escuto o barulho interior de algo sendo consumido, rasgado, dilacerado. Bela imagem poética. Mas meras palavras jamais deram conta daquilo que alguém sente. Dispus-me a escrever, mas não sei sobre o que falar. Falar sobre minha vida? – muitos já fizeram biografias e mais uma na estante de alguma casa, enchendo-se de pó não seria ganho para ninguém: nem para mim muito menos para o aficionado que quer entender os outros.
Penso que biografias são a maneira mais fácil de descrever tudo aquilo que uma pessoa não é, mas que gostaríamos que fosse. Este ato heróico deveria ser louvado... Mas não estou aqui para falar sobre isso. Aliás, porque estou escrevendo tudo isso mesmo? Claro, busco algo sobre o que escrever.
Talvez todos esses rodeios possam ser interpretados como medo de caracterizar aquilo que me corrói. Mas porque caracterizar – categorizar – aquilo que não tem nome, nem uma existência concreta? “Ah!, você me diria, e a necessidade de sentido?” Acredito que não esteja com esta necessidade tão latente assim. Podemos tentar organizar alguma explicação posterior, mas nada que me faça querer dizer algo de importante agora.
Aliás, quem mede o grau de importância de algo? ISO 9001 para os medidores de coisas importantes certificados? Talvez. Mas garanto que não sou um deles. Continuando neste raciocínio, posso dizer que não sou também.
Eu sou.
Soa bonito, mas não verdadeiro. Não acredito que seja, mas que estou sendo. O importante é o movimento: são as transformações ocorridas que formam o que estou sendo. Hum, nietzscheano demais... melhor procurar algo mais “eu” para escrever.
Mas espere aí! Não era justamente eu que não queria escrever uma biografia? Mas uma biografia minha para quê também? Ninguém me conhece! Talvez vendesse uma cópia para minha mãe e tentaria empurrar uma para minha avó, que adoraria saber que o neto querido virou escritor.
Escritor? Acho que estas poucas linhas que acabo de escrever já fizeram subir à cabeça a possibilidade de terem algum valor.
Que valor poderiam ter? O que vejo aqui são apenas elucubrações acerca de nada, com estilo literário algum, cercadas de uma grande mediocridade e falta de senso de quem escreve. Está certo, fui crítico demais. Mas já dizia o velho dito popular: “Foda-se”.
Olha só, um palavrão. Que coisa feia. Como pretende que alguém leia isso com um palavrão impresso logo nos primeiros parágrafos? Mas espere um pouco, eu realmente quero que alguém leia isso? Não comecei a escrever apenas para ver se esquecia daquilo que me aflige? E, afinal, o que me aflige? Olha! Apareceu a necessidade de sentido! Mas já diziam aqueles sábios: palavras não servem de nada, ações muito menos e o que vale é se resignar perante aquilo que não tem solução. Está certo, eu inventei isso. Mas que alguém pode ter dito isso eu não tenho dúvida. Ou tenho. Este negócio de não responder à nada está me irritando. Dialética: a arte de ludibriar os outros se escondendo de alguma resposta definitiva. É, Sócrates, a cicuta veio em boa hora.

Θ Θ Θ Θ Θ

Devo agora dizer aquilo que me aflige. Não para informar à alguém específico, muito menos para informar à alguém. Quero – e devo – dizer o que me aflige para realmente me convencer de que posso fazer o que quiser quando estou praticamente velado pelas palavras. Por sinal, bom uso para as palavras: velar aquilo que não queremos mostrar. Mas, pensando bem, um texto não mostraria mais do que aquilo que pensaríamos estar escondido? Por mais que nos valhamos de uma retórica praticamente inviolável o sentido não pularia pelos espaços em branco? Nada de ler nas entrelinhas, mas sim um sentido que percorreria todo o texto, como um câncer que está velado no momento mas que, querendo ou não, se mostrará cedo ou tarde. Mas algo como uma “alma” do texto, um sentido imanente, seria demasiado metafísico para mim. O texto só existe quando é lido e reinterpretado infinitamente, sem possibilidade de se fechar em um sentido, um sistema, uma vontade de fim.
Vontade de fim... tema bastante controverso. Mas o que quero agora? Discutir temas tão debatidos e pensados à exaustão? As palavras também se gastam. Primeira regra para os que procuram escrever algo de novo. Ou melhor: existiria algo legitimamente novo e não somente re-adaptado? Mas que merda, não consigo me prender à algo para escrever!
Tento novamente então. Agora espero que consiga algo substancial. Substância... Chega! Vou direto ao que interessa. Pelo menos o que “me” interessa.

Θ Θ Θ Θ Θ

Meio-dia. Acordei não sei para quê. Melhor permanecer na cama por hoje. Acredito que não tenha nada de importante à fazer. Na verdade, nada que seja importante para mim. Mas chega de lamentações! Hora de levantar!
Organizando o dia: primeiro, comer qualquer merda que tenha na geladeira; segundo, sair e tentar encontrar alguém para trepar; por último, dormir novamente. Tirando o primeiro item, os outros dois são sonhos para se ter um dia perfeito. Por enquanto, vou comer alguma merda que encontrar na geladeira.
Mais uma vez atravesso este lugar que chamo de casa. Um quarto com um colchão jogado no chão, montes de roupas espalhadas pelo quarto, livros mofando em uma velha estante e um telefone que nunca toca. A isso chamo de quarto. O resto da casa não foge muito a esse padrão: lixo, porcarias e um jeito todo charmoso de achar que é isso que compõe aquilo que chamam de “estilo”.
Achei algumas fatias de presunto e um iogurte vencido à apenas dois dias. Dois dias não matam ninguém. Pelo menos nunca vi uma notícia como esta: “Morto depois de comer iogurte vencido à dois dias”. Pouco importa também.
Termino meu grande café-almoço e resolvo sair. Resolvo é maneira de falar: saio porque realmente não há nada para fazer em minha casa. Andar pelas ruas sempre foi mais divertido do que nada fazer em casa à não ser coçar o saco e passar pomada pra não criar ferida. É, adoro este ditado popular.
Bom, disse que acordei para fazer coisas que não eram importantes para mim, mas depois me contradisse ao dizer que não havia nada à fazer. Estranho, não? Pode até ser. Na verdade, estudo durante o período da tarde. Nada de mais. Apenas faço um curso de Ciências Sociais numa universidade qualquer. Me vejo na obrigação de não falar onde faço este curso. Não que alguém vá me procurar lá, é claro que não, afinal, não foi eu mesmo que me fiz a pergunta se gostaria que alguém lesse este texto? Estranho, a todo momento fico lembrando o que já falei anteriormente, como se fosse uma compulsão por deixar tudo bem explicado, como que para definir um sentido com uma característica que não pode ser burlada. Aliás, um texto bem artificial este aqui.
Parece que tento me definir como alguém que não participa e não liga para nada, ao mesmo tempo em que procuro à todo instante definir o sentido em que este conto deve ser lido. Este tipo de crítica direta à mim mesmo não escapa desta última frase: afinal, o que eu quereria com isto à não ser demonstrar que não ligo e que tenho a capacidade de criticar à mim mesmo?
Viva à esquizofrenia!
        Este diálogo comigo mesmo chega a ser entediante. Tentar esquadrinhar aquilo que estou sendo (não esqueci do que disse), aquilo que posso fazer e também aquilo que posso escrever como se devesse à todo momento me policiar para não errar, não me contradizer, não esquecer de explicitar as fontes e de onde provém aquilo que digo. Compulsão pelo sentido de tudo... Pareço o Monsieur Teste de Paul Valéry, na busca de tudo aquilo que é somente dele, tentando salvar apenas aquilo que me pertence, me desvencilhando daquilo que não me compete.

Θ Θ Θ Θ Θ

        Bem, para mim chega. Não consegui escrever sobre aquilo que queria. Aliás o que eu queria escrevendo? Parece estranho, mas aquilo que me corroia, me transtornava e me afligia sumiu. Compulsão por escrever apenas? Talvez. Mas chega por ora. A necessidade de sentido esvaneceu, o texto permaneceu e as interpretações pululam. Grande imagem para terminar algo que não se pode dizer que teve um começo.
Daniel Rossi
Enviado por Daniel Rossi em 22/08/2006
Reeditado em 09/10/2009
Código do texto: T222879

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Sobre o autor
Daniel Rossi
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