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Coisas sem credibilidade e outras tralhas

Mexer em coisas de ontem é sempre um perigo. Entre perdidos e esquecidos, acabo achando lembranças, memórias, história inacabadas... É como se tudo tivesse que ter um the end, um velho seriado, enlatado americano, com sorrisos, sem mistérios no fim. Tudo resolvido, o bandido na cadeia, mas não é assim.

Abrir gavetas, rever fotos, é sempre um ardil, basta fazer frio numa manhã de sábado, ouvir um um blues, um Dylan. Pensar na época perdida, na alegria prometida para sempre. Sessenta e oito, o poder da flor. Fora a guerra. Paz amor. Sexo, droga, música, poesia. Pé na estrada.

Num dia assim, sempre pinta histórias de outrora, hora de enfeitar o passado, como se fosse uma sapato velho, passar um graxa, dar um brilho. Falar besteiras, heresias, coisas sem nexo, ETs e magia.

Limpar gavetas é sempre providencial, embora sempre caia uma lágrima, uma foto de um filho pequeno, aquela praia deserta, a barraca, os amigos que se foram, os que ficaram loucos, os poucos que restaram. Aonde foram?

Jogar fora coisas sem nexo: Agenda vencida, amores de ontem, poemas inacabados,ingênuos, decisões não acatadas, medalhas de mérito, imposto de renda de 20 anos atrás. Quanto papel carimbado...

Coisas que não fazem mais falta: Um filme não revelado, com gente que não deixou nada, nem lembrança, sacolas de grifes. Não sei pra que clipes enferrujados, botões sem par, um recorte de jornal da década de 70, com notícias de um velho líder sindical. Coisas sem credibilidade, hoje.

Amontoar tudo no canto da sala, essas tralhas todas, as transas mal feitas, as não dadas, as mágoas lembradas. Picar tudo, jogar no lixo. Tocar fogo, fazer cinzas.

É sempre assim: desabor. Mexer no passado não me agrada, detesto o ontem, roupa que não me serve mais. Aproveito e faço uma trouxa de calças jeans, quase uniforme, camisas brancas puídas, camisetas de campanhas eleitorais. Quem sabe alguém precise.

Não sei o que é, mas fico assim, nessa. Parece que mexi em vespeiro. A impressão de que tudo o que foi, foi tarde. País que não deu certo, mundo torto, sem paz...
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 29/08/2006
Reeditado em 21/10/2006
Código do texto: T228132

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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