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O encontro

O encontro

Nem um sopro, nem uma nuvem sequer, só aquele agonizante céu azul aberto com o sol maldito a arder soberano.

- Ei, se quer ouvir uma história digna de nota, apareça aqui mesmo, daqui.. vejamos.. umas 3 horas – ao que imediatamente eu acedi com um meneio de cabeça sinalizando a confirmação do convite. O sujeito, um homem já velho metido num capote de couro amarelo que não demonstrava se perturbar minimamente com o calor de 40 graus que a todos os outros emputecia, viu-me lá na vitrine observando as bromélias que iam-se murchando precocemente em virtude da atmosfera insuportavelmente rarefeita, que caía pesada sobre as cabeças tornando-as de certo modo mais sujeitas à irritação e ao desvario.

Saíra de casa e ia caminhando com o propósito de ir ao mercado, ou ao açougue, não lembro bem, e antes da metade do caminho já sentia o suor escorrer em todas as partes do meu corpo, grudando a camisa e encharcando o cabelo. Meus olhos ardiam e eu estava a pouco de desistir de andar em direção ao sol, quando avistei no outro lado da rua esta banquinha que também vendia flores, cuja tenda oferecia um desejado pedaço de sombra. Parei lá, e meio débil e fatigado repousei meus olhos semi cerrados naquele ponto onde estavam as bromélias murchas, e comecei a pensar na estranha relação que rege o mundo das plantas e dos homens, a existência patética do absoluto desdobrado em coisas tão irritantes quanto bromélias murchas e cenhos enrugados e de como a eternidade poderia estar presente numa fração daquela intragável tarde ensolarada, e de que, ao bater a porta esta manhã, isso também, o ranger da porta à noite do desgraçado vizinho que sempre me acorda uma hora antes do necessário, e destarte, me rouba uma hora de sono, também tem lá a sua importância para um panteísta estúpido qualquer. Não sei bem como se deu, mas começou quando eu desejei com todas as forças do meu coração que aquele ventiladorzinho insignificante do dono da banquinha estivesse uns dois centímetros virados para a direita, para que o vento a atingir minha testa me trouxesse um instante de fútil contentamento. Foi quando eu avistei aquele homem de capote amarelo parado no outro lado da rua em que eu estava antes de me dirigir à banquinha a me observar enquanto esperava idiotamente o sinaleiro abrir quando não passava um carro sequer.

Assim que o sinal de pedestres abriu ele atravessou a rua molemente, e tinha um jeito de andar de forma a deixar as penas meio abertas, parecendo um veterano que a guerra deixara seqüelas, e desta forma se dirigiu à banquinha provavelmente buscando também a sombra que esta proporcionava. Ao se colocar ao meu lado fitou-me por um instante com um sorriso malicioso em seus lábios secos, e após erguer suas enormes e peludas sobrancelhas desatou a rir-se repentinamente enquanto inclinava a cabeça maquiavelicamente para trás.

 - Que foi? – eu perguntei diante daquela atitude patética. Foi quando sua réplica me veio na forma daquele convite, o qual eu aceitei com um meneio débil de cabeça.  Ao que ele reagiu com outro riso súbito, desta vez mais rouco que o primeiro e por isso algo repugnante, o qual ao que tudo indica foi de contentamento, pois se pôs a dar tapinhas nas minhas costas como se estivesse demonstrando que sua expectativa fora atendida. Sem mais dizer virou-se e foi caminhando reto pelo lado direito da rua, e eu o observei até que desaparecesse no horizonte. Recobrando minha disposição num longo suspiro e tendo esquecido a razão pela qual eu saíra de casa, retornei e aguardei até a hora combinada para retornar ao lugar do encontro. Antes de sair de casa cochilei no sofá com um copo d’água na mão, e despertei 2 horas após com a minha barriga levemente molhada. O sol então já não era tão intenso, e a caminhada até a banquinha menos exasperante. Ao chegar, o homem ainda não chegara, e eu decidi por polidez aguardar uns 10 minutos além do horário combinado. Ao concluir que ele não viria, olhei novamente meu relógio e já ia saindo quando o vendedor que estava no interior da banquinha perguntou-me se eu aguardava alguém.

 - Sim, eu aguardava aquele cavalheiro de capote amarelo que o senhor deve ter visto algumas horas mais cedo, hoje, aqui em frente à sua banca, conversando comigo. Mas ao que tudo indica não virá – respondi. Ao que o sujeito, após três risadas secas disse-me:

 - Ah, se isso faz sentido. Ele faz isto com todos os que param aqui!



Grasiela de Barros
Enviado por Grasiela de Barros em 05/09/2006
Código do texto: T233628
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Sobre a autora
Grasiela de Barros
Curitiba - Paraná - Brasil
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