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O louco da minha rua é deus ou deus foi um louco

O louco da minha rua não precisa de mim. Sou um invento dispensável, ele nada pede. Não depende. Deixa-me naquela ânsia de um dia lhe dar um trocado, mas ele não me quer. Vive bem assim, invisível.
Vive da caça em plena cidade, só se interessa pelas coisas perdidas, desprezíveis, jogadas fora. Cata aqui e ali latas, cobre velho, papelão, tudo o que a cidade rejeita lhe serve. Não se vende, não é como eu que alugo meus dias ao patrão.

O louco da minha rua dorme até tarde e me chama de doutor. Educado, me diz bom dia e só. Outro dia fui ter com ele. Falou-me que não se sente só, além dos cachorros que o acompanha e o protege – latem e avançam em quem chega perto, principalmente quando desfalece, depois de duas garrafas de caninha.

Ele me disse que está sempre acompanhado. Personagens que inventa para seu deleite, companhia e desfrute. Se está só logo lhe aparece Maria que bebe um pouco além da medida. Passa limites, mas também faz sua festa. Deita com ele e lhe aquece nas noites frias, lhe embebeda pela boca, pelas partes, lhe faz rir e se sentir galã de cinema.

Ela, diz ele num riso maroto, é gulosa, lhe retesa muito, mas sempre que ela aparece, acorda mais tarde do que o devido. É que louco não tem hora pra levantar, mas mesmo assim, diz que, às vezes, se atrasa, pra que, não explicou. Maria é seu oposto é tudo igual a ele, menos na barba, no cheiro e lá embaixo - diz num riso. Ela lhe chega limpinha, uma beleza. É um bicho manso, liso, loiro e até bela.

Falou ainda de outras companhias, todas masculinas, companheiros de bebedeiras, de caminhada pelas madrugadas, de beira de fogueira, uns eu sei é pura invenção lá da sua sua esquizofrenia, outros são reais mesmo. Vejo ele com outros mendigos e malucos, dividindo um litro de cana, ou comida. As vezes o vejo só e em grandes discussões, noutras murmura, sempre dizendo algo, dialogando, apresentando suas teses. As vezes nas nuvens, meditando, olhos abertos. Nada responde, nem bom dia.

Tento entender como isso acontece, ele diz, lúcido, é igual Deus. Ele não criou alguém pra fazer companhia, solitário que era, e depois fez outro ser, oposto dele, e depois não quis que os dois brincassem entre si, ficasem só adimirando o que ele havia feito antes, naqueles sete dias, que não se tocassem, etc. Mas deu tudo errado e um procurou o outro e deu no que deu. - E isto foi antes de inventarem a cachaça. Arrematou, inteligente.

Que conversa de louco, pensei, e até sentei no banco com ele. Fique imaginando que Deus talvez fosse um louco, ou seria o mendigo, uma espécie de Deus, ali inventando gente, fazendo milagre no meio da praça e ninguém notando. Mas ele viu que fiquei quieto e me disse: - Que foi doutor? Pensando? Não pensa muito, isso enlouquece, aconselhou.

Dei bom dia, fui em frente, mas o louco da minha rua ficou dentro de mim. Passei a ver as coisas com seus olhos por dias e por ângulos tantos, foi como se tivesse arrancado seu olhar e sobreposto ao meus, fiquei viajando em novos ângulos, vendo coisas importantes pelo chão, até achei uma nota de cinco reais, via latinhas de cerveja jogada e até me vinha o impulso de pegá-la.

Outro dia estava escrevendo um texto e enveredei pela ficção, mas me policiava. Tinha que ser realista, falar das injustiças, criticar o governo... Mas não teve jeito, enveredei por outro caminho. Tive que inventar um personagem para dar substância ao que escrevia. Alguém pra dizer e ser um pouco outro, outro olhar. E assim entrei pela fresta que a realidade me oferecia naquela hora. Dizem que essa é a função da arte, lembrei desse dito: A arte existe porque a realidade não basta.

Fui em frente nessa viagem e vi que era preciso inventar um oposto a este personagem, e nem precisei muito, logo dei asas à cara metade. Dai fui delineando formas, inventando detalhes, formatos, paisagens, matas, mar, luar, rios, corredeiras, viagens alucinadas, transas em lugares e posições inusitadas, coisas de cinema. Atrativos, histórias e novas personalidades foram chegando ao meu enredo. Um longo tempo, hiato, viagem, espaço.

Outro dia passei e fui falar com o louco da minha rua, de novo. Ele estava diferente. Queria lhe dizer que eu também tinha criado uns personagens, umas miragens estranhas e que tinham a ver com o que me havia dito. Mas não consegui. Ele não prestou a mínima atenção ao que lhe dizia. Ignorou-me por um certo tempo, até que, olhando de lado, levantando o olhar, escorado que estava sobre os braços, encostados no joelho, escondendo o rosto. – Sai, sai, vai, vai você não existe, me deixa, não me atenta.

Achei melhor ir andnado, os seus três cães já me olhavam ameaçadores. Vi que naquele momento eu não existia pra ele, era só um personagem dentre as suas crias e não estva me vendo como algo do bem.
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 06/09/2006
Reeditado em 06/09/2006
Código do texto: T233805

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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