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ENCONTRO COM A ILUSÃO

E lá estava ele, naquele pequeno quarto com paredes cor de caqui e cortinas de seda bordô, para encontrá-la. Finalmente iria poder tocar e amar quem só conhecia em seus sonhos e devaneios.

Chegara mais cedo que o combinado, talvez pela simples ânsia do encontro ou pelo puro prazer de simplesmente chegar antes  dela.

Era noite e chovia torrencialmente. Por trás das cortinas, sentia a água escorrendo pelos vidros, feito lágrimas tristes num rosto desiludido. Ao fundo, relâmpagos bordavam o céu-chumbo que teimava em ocultar as estrelas, tristes por não poderem testemunhar aquele instante.

Nervoso, suando na testa e no buço, caminhava nervosamente, sem parar; do quarto à ante-sala. Após alguns minutos dessa irritante e temporária rotina, pegou uma garrafa no frigobar, sentou-se e bebeu meio sem vontade um pouco de água mineral.

O tempo se arrastava, fazendo com que a demora fosse implacável com o desejo de que ela aparecesse logo. Afinal – perguntava-se – por que ela não chega nunca? Será que vem? Só faltava ter esquecido... E recomeçava a caminhança, inquieto.

Minuto sim-minuto não, olhava para o relógio e nada dela chegar. Esforçava-se para se convencer que ainda não era o momento da aparição. Tomou um outro gole d’água, coçou a cabeça, deu um suspiro e sentou-se novamente. A essa altura, seus olhos já acostumados com a luz fraca do ambiente, começavam a perceber detalhes mais íntimos daquele santuário libidinoso. Isso o acalmava...

Subitamente, um arrepio na nuca lhe desceu pela espinha; suas mãos ficaram frias e úmidas quando imaginou que em poucos instantes os dois estariam compartilhando o mesmo espaço, as mesmas emoções. Colados no teto, pedaços assimétricos de espelhos refletiam todas as imagens e pensamentos que ousassem se expor. O chão de carpete grafite vibrava mansamente, combinando as batidas do coração com o som imperceptível das partículas de ar que pulsavam, acomodando-se por todos os espaços do quarto.

Caminhou até a janela, afastou um pouco a cortina e pode perceber que a intensidade da chuva era agora bem mais sutil. O vento assobiava baixinho, penetrando pelas frestas das venezianas, sem qualquer cerimônia nem pedidos de licença. Mas não se incomodava com detalhes, pois sentia que naquele momento tudo era normal, natural. Estava mais compenetrado em imaginar um tapete vermelho, desenrolando-se do nada, aguardando a chegada dela.

Pausa para mais um gole de mineral, agora já quase sem gás. Enquanto bebia, seus pensamentos se reagrupavam num canto qualquer da cabeça, preparando uma nova invasão. Tentava inutilmente repeli-los, a fim de concentrar-se para o instante crucial, mas sua resistência era em vão. Dessa vez o ataque foi mais voraz! Sem ao menos ter tempo de soltar o copo na mesa, foi tomado por um torvelinho de desejos e fantasias. As imagens que se formavam, pouco a pouco em sua mente, o transportavam para um futuro que estava prestes a se materializar.

Nesse exato instante ouviu uma leve batida na porta, e num sobressalto, como que acordando de um pesadelo, começou a recuar, afastando-se lentamente da porta até tocar a parede. Sim, era ela! Finalmente ela chegara! E agora, o que fazer? Olhou para o chão à cata de um buraco onde pudesse se jogar e fugir daquela situação, tão esperada e ao mesmo tempo tão aterradora...

Na tentativa de recompor-se, correu até a pia, passou uma água no rosto e ajeitou o cabelo. Em seguida voltou secando as mãos nas calças e na camisa; parou atrás da porta e ouviu uma nova batida, dessa vez mais insistente. Em seguida fechou os olhos, respirou fundo, diminuiu a luz ao máximo e girou a chave. Lentamente começou a puxar a maçaneta e foi percebendo a sombra dela se formando no chão do quarto, por causa da luz forte do corredor.

Do lado de fora, hesitante, ela espiava ameaçando entrar. Ele, ainda atrás da porta, totalmente paralisado, com o coração pulando, murmurou quase imperceptivelmente: - entre!

Após alguns segundos que pareciam eternos, ela começou a entrar vagarosamente. Ele respirou, aliviado ou preocupado - não sabia ao certo - e num gesto mais lento ainda, começou a fechar a porta. A luz invasora do corredor entendeu aquele momento e começou a desocupar o espaço onde agora só cabia o casal.

Talvez o pior instante tenha passado, por isso era importante agora deixar a emoção se encarregar do resto. Mas tudo ainda era indefinição, pois mesmo após sua entrada, notou que ela ainda continuava parada, imóvel e de costas para ele. Só então pode perceber que o seu pavor não era diferente do dela. Talvez, por isso, seus pés e o resto do corpo não aceitavam ordens superiores, nem da razão, nem da emoção.

A tensa indefinição acabou fazendo com que ela tomasse a iniciativa. Lentamente foi largando a bolsa sobre a mesa e desvestiu a gabardine gelo. Sem olhar para trás, estendeu o braço para que ele pegasse a capa respingada de chuva. Ao segurá-la notou que nervosamente ela ajeitava os óculos escuros, empurrando-os contra o rosto. Percebeu também os detalhes do discreto lenço de seda - preto com bolinhas cinzas - cobrindo seus cabelos claros e curtos.

Após assentar a capa sobre o encosto da cadeira, sentiu-se fortificado pela coragem dela e começou a se aproximar devagar, até chegar bem próximo - tão perto que podia sentir seu perfume e a respiração ofegante. No mesmo instante, tomado de uma estranha intrepidez, perguntou-lhe: -com medo? – e ela respondeu: -um pouco.

Essa breve troca de palavras bastou para que ambos ficassem de frente um para o outro. Em seguida, num gesto terno, ele abriu-lhe os braços ofertando-lhe um carinhoso e afetuoso abraço. Ela retribuiu deixando-se envolver e  repousou a cabeça em seu peito. Finalmente o mundo e o tempo renderam-se a eles!

A partir desse momento, tudo o que foi dito que seria feito, se fez. Tudo o que era sentido, pode ser constatado e comprovado. Todas as loucuras propostas chegaram aos mais extremados exageros. Seus desejos finalmente materializaram-se sem limites e com todas as permissividades que pudessem imaginar e desejar.

Após um eterno e saboroso tempo viajando um no corpo do outro, ele viu-se só, deitado de bruços, cansado, extenuado, quase anestesiado. No instante seguinte, inexplicavelmente, ela ressurgiu com uma faca na mão. Aproximou-se da cama e apunhalou-o violenta e repetidamente pelas costas, até que desfalecesse, mergulhado numa escura e morna poça de sangue. Em seguida ela pegou uma navalha na bolsa e começou a retalhar o corpo ensangüentado em centenas de pequenos pedaços. Pedaços esses, que eram separados aos punhados, enfiados em sacos plásticos transparentes e jogados em pequenas caixas de papelão.

O mais assombroso é que durante todo procedimento macabro da mulher, ele não sentia nada e ao mesmo tempo podia assistir a tudo, porém sem direito a protestos nem perguntas. Ao fim da carnificina, as caixas, todas do mesmo tamanho e formato retangular, foram cuidadosamente fechadas. Na tampa de cada uma, havia a foto de uma parte diferente do corpo dele, além de um enorme ponto de interrogação vermelho e transparente na tampa.

Agora só faltava ele entender o significado e o porquê daquilo tudo. Por isso, esperou pacientemente que ela retornasse do banheiro, onde foi lavar as mãos, a faca e a lâmina ensangüentadas. Quando finalmente voltou, pediu-lhe que explicasse; e ela, após vestir a gabardine, colocar o lenço, os óculos e acender um cigarro, chegou perto do que ainda restava dele e disse:

- Queres saber o porquê de tudo isso, não é? Não posso responder, pois nem eu mesma sei. Só tenho certeza de uma coisa: sou de todos e de ninguém, por isso jamais serei tua; exceto em sonhos e pensamentos. Mas se deixares tua porta entreaberta, sempre que desejares, estarei presente nos teus...

Dito isso, calmamente pegou a bolsa, abriu a porta e foi embora...

Pakisa Rasquinha
Enviado por Pakisa Rasquinha em 21/09/2006
Reeditado em 21/09/2006
Código do texto: T245385
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Sobre o autor
Pakisa Rasquinha
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 59 anos
3 textos (98 leituras)
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