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Breve Anatomia da Realidade

Despertar pelas primeiras horas do dia estava a tornar-se uma obsessão. Nos últimos tempos tinha que acordar exactamente um minuto antes do sol nascer e com a aproximação do Verão esse minuto era cada vez mais cedo. Este exercício de rigor ajudava-o a enfrentar com mais certezas o resto do dia, talvez porque lhe permitia levar algum tempo de avanço sobre os outros que continuavam entregues aos seus pesadelos. Ele ainda não sabia que proveito poderia retirar desse pequeno gesto mas pressentia que seria crucial para a sua sobrevivência. À cabeceira da cama em vez de um livro de leitura, uma revista, jornal ou até a Bíblia não encontrava-se um mapa completo com os horários do nascer do sol, a consulta do mapa permitia-lhe cumprir sempre o seu objectivo; assim antes de se deitar consultava o mapa directamente enviado da NASA e regulava o despertador para a hora exacta do final da noite. Era esse o seu soporífero, adormecia exactamente no momento em que pousava o pequeno despertador electrónico e se recostava sobre a almofada. O despertador era a pilhas, por causa dos cortes de corrente, e a pilha era mudada regularmente para que o relógio não falhasse nunca.
Aquele primeiro minuto de expectativa passava-o sempre na cama a reflectir, às vezes colocava um disco, de preferência uma ária de Mozart cantada pela Cecília Bartoli. Durante esses sessenta segundos dava-se ao luxo de pensar no que lhe viesse à cabeça. Eram sempre ideias transgressoras como por exemplo entupir a sanita da casa de banho das senhoras com preservativos cheios de gesso, rapar os cabelos do peito, ir descalço para a rua, beber pela manhã uma garrafa inteira de Brandy em vez do tradicional copo de leite morno sem mais nada, masturbar-se a pensar na empregada do café que nunca o olhou mais do que as duas vezes necessárias para lhe perguntar o que queria e receber o dinheiro, até que houve um dia em que teve a mais ousada das ideias: ficar mais um minuto na cama. Foi um choque, não estava nada à espera de tal atrevimento e esqueceu-se rapidamente do que havia pensado. Mal sabia ele que aquele dia seria o prelúdio duma negra esperança que ele iria alimentar cada vez mais intensamente e que acabou por ocupar o minuto inteiro. Desesperado passou a regular o despertador para dois minutos antes para ver se aquele pensamento o deixaria em paz, de nada serviu porque depressa esses dois minutos foram ocupados pelo desejo absurdo de ficar mais um minuto para além do nascer do sol. Teve que alargar o intervalo de tempo de dois passou para três, quatro, cinco minutos, depois tentou acrescentar meios minutos, quartos de minuto, poucos segundos mas a sombra daquele pensamento continuava a alastrar; acabou por ter que ficar acordado a noite toda a pensar se poderia ficar mais um minuto na cama. É óbvio que deixou arrastar esta situação por dias, semanas e até meses. Não sabia que solução haveria de dar a este problema e pareceu-lhe que iria enlouquecer. Pensou perguntar a opinião a um colega do trabalho mas quando formulou mentalmente a pergunta que lhe iria fazer pareceu-lhe tudo tão ridículo que desatou a rir sozinho em pleno comboio, ficou tudo a olhar para ele e isso ainda lhe deu mais vontade de rir, deparou com o seu rosto reflectido no vidro e reparou que para além do rosto deformado pelo riso estava com umas olheiras invulgarmente profundas, já nem se conseguia ver os olhos, e nesse momento parou imediatamente de rir e recolheu-se no livro que estava a ler. Continuou a sentir os olhares dos outros passageiros durante mais uns minutos até que deixou de os sentir, quando voltou a erguer a cabeça reparou que já estavam todos entregues aos seus problemas, reflexões ou simplesmente a nada, com excepção de uma rapariga que não deixava de o fixar mesmo depois de ele a olhar directamente nos olhos. Entregou-se à leitura e só voltou a olhar para o que estava à sua volta quando chegou a altura de sair da carruagem, e lá estava a tal rapariga a fixá-lo intensamente. Ela levantou-se ao mesmo tempo que ele e ao sair da carruagem dirigiu-lhe a palavra. Perguntou-lhe se ele era quem era e ele disse-lhe que sim, de seguida apresentou-se como o seu sono e disse que estava farta de não existir. Ele olho-a estupefacto e disse-lhe que sempre pensou que o sono fosse uma personagem masculina, ela riu-se e disse que era o que todos julgavam mas que isso não tinha qualquer importância. Ele disse-lhe que lamentava a situação mas que se achava impotente para poder resolver o seu problema, que também era o dela. Ela ficou muito triste e disse-lhe que sendo assim a única solução era ter que se deitar na cama com ele, que isso era arriscado porque ele podia ficar a dormir eternamente mas que não havia outra alternativa. Ele concordou e combinaram que seria já nessa noite que iriam dormir juntos. Ela elogiou-o pela sua coragem, ele corou e retirou-se a correr porque já estava atrasado para o trabalho.
À noite depois de ter acertado o despertador para a hora exacta do nascer do sol, porque o minuto inicial se havia prolongado até ao momento em que se deitava, reclinou-se para mais uma insónia de reflexão; logo após ter fechado os olhos ouviu uma voz que reconheceu como sendo a voz do seu sono. Boa noite - disse-lhe ela, e depois acrescentou - o que vamos fazer é muito arriscado e quero desde já felicitar-te por estares disposto a ir tão longe. E ele respondeu-lhe que talvez não fosse um acto de coragem, apenas uma consequência do cansaço que nos últimos dias se tinha tornado insuportável. Ele só guardou memória de ter dito esta frase  e foi ao som do eco da última palavra que acordou, o sol já tinha subido no horizonte e ele nem ouviu o despertador. Reparou que para sua surpresa o mundo parecia seguir o seu curso normal, mas só depois notou que isso não era bem verdade porque os pequenos números digitais que marcavam a vermelho o fundo negro do relógio estavam a movimentar-se para trás, andavam ao contrário, se há pouco quando acordou eram 11:23 da manhã quando voltou a olhar para o relógio já eram 11:22; ao contrário do que seria de esperar não entrou em pânico e pensou que assim é que estava bem, a vida não era mais do que uma contagem decrescente para qualquer coisa, que podia ser um encontro, a morte, mais um acaso ou tantas outras coisas espartilhadas pelas agulhas digitais ou mecânicas de todos os marcadores do tempo. Voltou a fechar os olhos e só despertou ao som tão familiar do relógio que estranhamente tocou ao som do terceiro andamento do 3º concerto para piano e orquestra de Rachmaninov, era a hora do sol se erguer mas agora ia acontecer exactamente o oposto. Em vez de desligar despertador deixou-o estar e  levantou-se para se preparar para ir trabalhar, só alguns segundos depois é que reparou que tendo em conta o que estava a acontecer aquela seria a melhor hora para se deitar e não para se levantar, como já não tinha sono optou por vestir-se e decidiu sair. Era novamente noite mas o movimento das ruas assemelhava-se ao que ele estava habituado a encontrar em pleno dia, cruzou-se com imensos vultos mas como estava escuro não percebia muito bem se eram de homem ou mulher ou até de algum transgender. Estupidamente, pensou ele, foi para o comboio e entrou no que costumava apanhar, sentou-se e recolheu-se na paisagem que lhe era permitido vislumbrar através da janela da carruagem, ao fim de algum tempo sentiu que alguém o estava a olhar fixamente. Tentou descortinar através da penumbra quem seria o vulto que o prescutava tão intensamente e deu de caras com a mesma rapariga que dizia ser o seu sono, sem saber porquê subiu-lhe uma espécie de arrepio. Deixou de olhar para ela e quando deu por si tinha chegado ao fim da viajem. Levantou-se, ajeitou a borda do casaco e quando ia a sair da carruagem reparou que a tal rapariga continuava a olhar para ele. Após um primeiro momento de hesitação, respirou fundo e foi ter com ela. Pensou em dizer-lhe Boa dia como está ? mas não o fez porque afinal não era de dia e também porque havia qualquer coisa nela que lhe tolhia as palavras, talvez a ausência de brilho nos olhos. Foi ela que tomou a iniciativa e disse: Então fizeste uma boa viajem ? ao que ele respondeu: Sim, como sempre. Não tens nenhuma pergunta para me fazeres ? Ao que ele respondeu: Por acaso até tenho. Então diz. Afinal quem és tu ? Eu ? Sou a tua morte.
Rui Guerra Figueira
Enviado por Rui Guerra Figueira em 10/10/2006
Código do texto: T260850
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Sobre o autor
Rui Guerra Figueira
Portugal
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