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A mão morena...

A mão morena, pura, casta, delicada, caída por sobre coxas de quimera, em que o vestido deixava a mostra sua tez dourada que se refletia em meus olhos com tamanho resplendor. A mão morena que eu tanto desejava, mas não ousava tocá-la, já que era tão imaculada e idealizada, tão macia e desenhada. A parte esquecida pela morena era a única cena que eu contemplava afogado em devaneios no meio de uma conversa onde éramos três. A mão compunha uma obra de arte cujo espectador ficava extasiado com a profunda perfeição que atingia o ser viril como uma vaga que bate e rebate prendendo a atenção do amante que teme por não saber nadar. A mão morena continuava na mesma posição como se estivesse numa exposição de relíquias protegida pela sua própria exclusividade. Não precisava de ouro ou diamantes para enfeitá-la, sua modéstia adornava-a, transformando-a numa espécie de princesa dos encantos. Por mais  que se tente parar de olhar, contemplar e decifrar aquela mão – não completo com cobiçar, porque seria um pecado contra aquela tão venerável mão – não é possível isto fazer, visto que ela fica congelada diante de nossos olhos esquentando todos os músculos de nosso corpo e os sentidos perdem-se em si e o mundo fica restrito ao poder daquela mão, que com sua humildade e formosura nem sabe o mal – ou o bem – que faz a sua figura àquele que pára diante deste quadro vivo que despercebido deve ser louvado em todos os lugares que passa. Como pode uma singela mão morena, aveludada, rica de uma vivacidade cobiçada, dominar por completo não só os meus olhos, mas os meus pensamentos como uma deusa em nosso tempo? Eu que sempre fui dono de mim mesmo, encontro-me, agora, como um vassalo atônito...
Era o que eu lia nos olhos dele quando, então, resolvi parar de me massacrar. Enquanto eu o cobiçava por inteiro, ele estava a perder-se na mão dela, na mão morena que não tinha sentido ele desejar. A conversa foi perdida com ele a admirar, comigo a contemplá-lo e afogada no que diziam seus olhos e com ela pensando no homem que dentre a poucas horas ia encontrar-se. Preferi ler que era a mão que ele enamorava, porque, assim, era menos doloroso saber que enquanto isso, eu o desejava por inteiro...
Gabriela Ferper
Enviado por Gabriela Ferper em 15/10/2006
Reeditado em 15/10/2006
Código do texto: T264697
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Sobre a autora
Gabriela Ferper
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 30 anos
7 textos (361 leituras)
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Gabriela Ferper