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A sombra de sua ausência

A meia luz dum quarto escuro, refugio-me dos pensamentos alheios e sou possuída completamente pelos pensamentos do meu desejo. Olho as sombras nas paredes e os seus traços é o que vejo; suas formas saem perfeitas, formas que eu tanto almejo. Começo a rabiscá-los com os olhos, dar cor, vida e cheiro. Elas começam a se balançar, mas quando passam da sombra, eu não mais as vejo. Seu cheiro ainda persiste um tempo dançando sobre o ar que me rodeia como uma brincadeira infantil, em que eu não posso tê-lo. Quando penso em alcançá-lo, ele já se verteu simplesmente em ar. Procuro a luz para não mais te desenhar e ao deparar com o pó dos móveis, uma declaração começo a delinear. Como uma menininha ao seu amante, até a declaração fico a enfeitar e lembro que aqui não estás para lê-la e seria vão continuar. Apago com os próprios dedos criadores dos versos, os versos que dentro de mim ainda querem aflorar. Fico com os dedos sujos de poeira, sujos por tanto te cobiçar. Limpo-os na minha própria roupa da mesma forma que de mim queria tirar-te. Não, não queria. Cercada da ausência desta luz, rodeada por teus traços em minhas paredes, com a poeira das declarações que tu não quiseste, continuas aos meus pensamentos dominar. Passando os olhos pelo quarto como que com a esperança de te encontrar, eu avisto uma rosa já a murchar e lembro do dia que a colhi, do dia que vi você a minha rua cruzar. Colhi aquela rosa porque a ouvi te apontar e mesmo com os raios poentes a te encobrir percebi logo quem era o dono daquele andar. Hoje, a flor murcha e não tem mais forças para me contar ao te ver passar; também, tamanha é a loucura quando te vejo que me fez a pobre rosa arrancar. Ainda, cicatriza a marca deixada pelo espinho, no entanto, aumenta a marca deixada pelo pranto. Estou só neste quarto escuro, todos ficaram de fora deste pequeno mundo, todos brindam no asfalto, enquanto eu, aqui, contento-me em sentir o tato de sua falta. Aqui está mais deserto do que eu já percebera. Até os meus ursos que me enamoram dormem, até o meu rádio que sempre canta pra mim morre, até os meus livros que me seduzem escondem-se... O que faz você que não me acompanha em meus devaneios, que não deseja os meus desejos, que não me vê nas suas paredes? Começo a conformar-me com a sua ausência, mesmo com ela eu te sinto, te vejo, te beijo. Talvez sem ela, eu só te veja. Observo uma capa de um livro jogada no tapete e imagino você a folheá-lo e lê-lo como forma de me acalentar; escuto a sua voz, com as pausas que só você sabe dar. Uma mão segurando o livro e a outra a me acariciar. Fico louca para que acabe o livro ou ele de sua mão tirar para que você pudesse me acalentar por inteiro e ao invés de simplesmente sonhar, um sonho realizar. Sua voz ecoa dentro de mim como se fosse o meu próprio ar e entranha em minha alma e começa a evaporar. Tento segurá-la com as mãos, mas elas escapam com perspicácia e eu volto a só ficar.
Lembro e relembro dos tempos que vivia sem em ti pensar, mas concluo que um vazio habitava naqueles dias; ou você que o alimenta demais hoje? Meus braços, sim, estão vazios a espera de te abraçar. Frio, sei que não estás a sentir, a noite está quente e lá fora há um lindo luar. Ah, se pudéssemos juntos contemplar aquele luar! Prefiro ficar aqui dentro enquanto não chegas, esperando você vir me chamar. O relógio já rodou bastante, falta pouco para os ponteiros se cruzarem novamente. Vou pará-los quando este momento chegar para que os ponteiros por mais tempo possam namorar.
O luar começa a refletir em minha janela, o quarto fica mais claro, as sombras correm das paredes. Maldito luar que te transfigurou das minhas paredes, agora não podes mais me olhar, ou estás olhando-me escondido atrás dessas formas desfiguradas?
Se estiveres, vou deitar e te esperar, quem sabe você não vem me amar sob a luz do luar...
Gabriela Ferper
Enviado por Gabriela Ferper em 15/10/2006
Código do texto: T264701
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Sobre a autora
Gabriela Ferper
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 30 anos
7 textos (361 leituras)
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Gabriela Ferper