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O lamentável destino de Amadeo

Estávamos no ano da graça de 1986.

Amadeo era um quarentão que tinha todo aquele jeito mooquense de ser. Freqüentava o Juventus. Era palmeirense. Tomava café da manhã na Monte Líbano. Morava num bom apartamento na Paes de Barros. Tinha um Passat Pointer com bancos RECARO, isso sem dizer do maravilhoso toca-fitas RIO DE JANEIRO. Tinha um escritório de advocacia “sito à rua Sete de Abril”. Enfim...Tinha tudo para ser feliz, mas não era. Acabara de se divorciar e de perder a mãe; sua única companhia, entretanto, era o cão... Giggio.

Um belo dia, por volta das 19:00 horas (horário de Brasília), quando chovia horrores sobre a capital paulista, Amadeu ficou preso num puta trânsito na 23 de Maio. Decidiu então ligar o rádio. Naquele instante tocava a solene e arrepiante Fantasia sobre o Hino Nacional de Gotschalk que servia como introdução aos famosos e memoráveis discursos do presidente José Sarney em cadeia nacional.

– “Brásileeeiros e Brásileeeiras.” – Depois de algum palavrório comum aos políticos, o presidente afirmou que no dia seguinte o preço de eletro-eletrônicos ficaria congelado.
– Orra, meu! Que maravilha! Vou poder comprar uma TV nova! Disse ele feliz, batendo no volante do carro.

E assim foi... Comprou um belo televisor da Invictus! No primeiro dia, pôde assistir um jogo do palestra no novo televisor. Mas no dia seguinte, aconteceu algo estranho:

Logo cedo, ao ligar a TV, não apareceu imagem alguma, passou por todos os canais, e nada. Revoltado com a nova e defeituosa TV, num momento de fúria, deu uma porrada na lateral, e para sua surpresa, a TV passou a transmitir uma imagem, uma imagem como se fosse um espelho a refletir a sua cara espantada; se ele virava a cabeça para a esquerda, na imagem da tv, sua cabeça virava para direita; qualquer movimento que fazia, a TV reproduzia. Ficou confuso e com medo. Não sabia o que fazer. Até que deu mais um soco na TV, e esta passou a transmitir uma outra imagem: Amadeo, com a camisa do Palmeiras comendo uma pizza adormecida na beira da pia... Parecia angustiado, não comeu tudo, jogou o resto para o cão que, de uma única vez, abocanhou as míseras fatias de calabrezza que haviam sobrado sobre a seca massa.

“- Isso não pode estar acontecendo. Deve ser um sonho!”. Amadeo desligou a TV e tentou se entreter com outras coisas. Foi dar uma volta com o cão. Trocou algumas palavras com o jornaleiro... Enfim, esfriou a cuca. Ao chegar em casa, sentiu fome e chamou uma pizza.

Dia seguinte:
Era dia de clássico, Corinthians e Palmeiras! Logo sacou sua camiseta verde que levava o número 9 atrás, e ao vesti-la, sentiu um cheiro que o fez lembrar de sua ex-mulher. Entristeceu-se. Foi para o Pacaembu e viu seu time perder por dois a um naquela tarde.

Ao escurecer, chegou em casa, o cão estava parado a frente do televisor ligado... Tocava a música de entrada do programa “Fantástico”, suspirou aliviado ao ver que a TV não apresentara a mesma anomalia do dia anterior. Sentou-se tranqüilo para assistir, quando ela apagou.

- “Puta que pariu” – exclamou ele.

Quando se aproximou da TV, uma nova imagem passou a ser transmitida: era Amadeo, com um aspecto cansado, de terno e gravata, colocando ração para Giggio. A imagem congelou. Ele levantou-se calmamente, olhou ao redor, e desligou a TV. Não dormiu aquela noite.

No dia seguinte, levantou-se, vestiu-se para o trabalho e serviu o cão, como era de costume todas as manhãs... Foi trabalhar, mas não conseguia se manter concentrado. “- Estou precisando de ajuda médica” – Pensou. Decidiu marcar uma consulta com um psiquiatra judeu, Dr. Cohen, lá de Higienópolis. Marcou para o fim da tarde do dia seguinte.

Chegou em casa cansado e atordoado, entretanto, a curiosidade em ver o que se passava na tela da TV foi maior que o temor... Ligou o aparelho, porém não funcionou. Abaixou a cabeça e pensou: “- Tudo bem. Eu espero”. Depois de duas horas, quando ele já estava quase adormecendo... Uma nova imagem começou a ser transmitida; nela, Amadeo não aparecia, somente o cachorro imóvel diante da tv, tendo como pano de fundo a cozinha; notava-se que era noite na imagem. A tv desligou sozinha. Tomou um sonífero e dormiu.

Na manhã seguinte saiu para trabalhar, estava se portando como um zumbi. Saiu mais cedo do escritório para não se atrasar para a consulta.

Oito horas da noite. A Tv liga, o cão corre para frente dela. Cid Moreira anuncia no Jornal Nacional:

- “Homem de 47 anos é violentamente atropelado por um ônibus em Higienópolis, São Paulo. Seu nome era Amadeo Vizentini e portava no bolso um atestado médico, onde constava a informação de que pedestre sofria de esquizofrenia”.
Raíssa Fortes
Enviado por Raíssa Fortes em 16/10/2006
Reeditado em 16/10/2006
Código do texto: T266108
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Sobre a autora
Raíssa Fortes
São Paulo - São Paulo - Brasil, 35 anos
1 textos (57 leituras)
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