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A CEGUEIRA


Juro! Foi difícil não reagir! Me segurei no último segundo. Tive vontade de partir pra cima dele e lhe arrancar os olhos com minhas próprias mãos, de arrebentar sua cabeça à pedrada, de estrangular seu pescoço, de sentir seu sangue vivo pulsando em minhas mãos. Foi tanta raiva! Naquele instante pensei em ter uma 380 e esgotar as minhas balas no crânio daquele filho da puta! Mas depois... Matar? Eu sou casado, tenho filhos, tenho emprego: nunca tive antecedente criminal. E daí? A toda hora escuto no noticiário casos parecidos, mas ninguém saber explicar realmente, seja em qualquer lugar que vamos: o mundo é uma cegueira só.
Outro dia mesmo, Carlos ultrapassou essa barreira e só parou quando o sangue caindo no chão começou a coagular-se em negro, das vinte e duas facadas que dera; escoando seu grito de desespero e alívio na apara de carne estripada que a lâmina trouxe em idas e voltas do estômago de Maurício. Li no parágrafo seguinte da Manchete: ...dias antes, Carlos fora despedido e encontrava-se atrelado ao banco em uma dívida que consumira toda a sua rescisão de contrato. Em depoimento à polícia, o suspeito, afirmou que só percebeu o que fez muito tempo depois, quando já estava preso: “Matei o garoto num ato de extrema irritação”. Por não ter gostado de uma brincadeira que este havia feito. Quando os repórteres aglomeraram em torno dele, gritou: “Eu não sou um assassino! Fiquei cego! estava cego! pelo amor de Deus, não era eu!” Mas de repente, como que caindo em si, falou diminuindo a voz e abaixando a cabeça: “eu sou engenheiro, eu sou pai, sou homem”
Imediatamente entendi o que Carlos queria dizer, porque confesso que eu também estou agindo estranho. Me seguro no último instante da raiva, no limite em que percebo que no próximo segundo poderei me transformar num animal perigoso, de volta aos primórdios da pré-história onde não existia a moral nem Deus.
Eu confesso que antes daquele dia eu havia assistido todo tipo de noticiários sensacionalistas, mas também noticias que nas entrelinhas de certo modo me faziam sentido. E, desse modo, eu até mesmo tinha a sensação de ter a minha vida noticiada de alguma forma: como ter que sorrir para minha chefe, com medo de perder o emprego, enquanto ela me chamava a atenção por eu não ter conseguido melhorar as metas do ano passado que já haviam sido melhores demais. Ela me disse que as metas da concorrência estavam quase batendo as nossas. E eu disse: Mas as nossas metas ainda estão melhores que as deles. E ela rebateu que mesmo assim teríamos que ser ainda melhores que o ontem, porque certamente amanhã já estaríamos superados: “Um tubarão maior nos engole”.
Ela também está sentido os seus medos. É disso que eu falo, tenho que ficar constantemente pensando nisso, pensando em ser melhor, essa coisa invisível. Por isso quando ando nas ruas tenho que ficar atento, olhando pra todos os lados, porque tem pessoas querendo ser melhores que eu em todo lugar, não posso respirar. Ninguém pode, é esse inferno. Isso vai pingando dentro de todos nós, como ácido sulfúrico. Vai se fermentando, se transformando em veneno, até que um dia explode.
Naquele dia empolou-se no meu estômago e acumulou-se na garganta querendo sair de uma vez pelo orifício, junto com meu sangue incandescente. Ele? Veio com seus medos. Suas angústias. Chegaram. Ele e um outro – que ficou no carro – um monza, 94, preto, somente ele desceu, apontando a arma para Kleber, ficamos perplexos.
Estávamos sentados na calçada, não houve tempo para reagir. Senti a súbita mudança nos nossos olhos revestidos de medo, sem distinguir a imaginação da realidade, até que a realidade destilasse sua verdade de chumbo. “Aí cú”, ele disse, “sua hora chegou”.  Kleber o havia derrubado a socos quando este dissera que a sua irmã era uma puta. Não importa se sou papa ou ladrão, ninguém mais querer deixar barato a desvantagem, dar chance ao perdão, estamos na ditadura do eu sou melhor. E se eu não quiser ser, outro vai me atropelar, vou morrer em convulsões sob caixas de papelão em alguma praça suja ou trucidado por skinheads de classe média alta, porque escolheram matar em vez de curar suas culpas com sacos de altruísmo e piedade.
Às vezes, até tenho a impressão de que a felicidade está sendo vendida em qualquer esquina, exposta com variedade sobre prateleiras decoradas. Mas eu não entendo, então, por que esta angústia?
Dias atrás foi preso o filho de um publicitário Gaúcho que faturara milhões só o ano passado em campanhas de grande porte e que tinha uma linda família sorrindo na capa da revista quinzenal que encontrei na sala de espera do meu dentista, detiveram-no depois que acabara as balas da metralhadora H4 que ele havia comprado pela internet, após atirar contra as pessoas de uma feira em Porto Alegre, matando quinze e ferindo outras tantas. Estou cansado de resistir contra uma coisa que não consigo desvendar.
Ele puxou Kleber pelo colarinho, jogando-o ao chão, pisou em sua garganta e atirou três vezes em seu peito, Kleber estrebuchou, jogando o pé dele para trás, ele avançou com mais raiva, com superioridade, com a aura de que era inatingível – meu sangue foi incandescendo – deixei de ver em redor. Ele descarregou o restante das balas na cabeça de Kleber. Senti a dor no meu peito convergir em soluços, desespero, a raiva e por fim o rancor.
Quando era amena a vontade de cravar meus dentes em sua carne, furar com minhas próprias mãos seu abdome e comer-lhe coração. Já quando a terra pesava sobre o corpo de Kleber, que não tivera tempo de aprender a frear a palavra que desencadeara o soco que cravara as balas que puxara a tampa do caixão que colocara a cruz sobre o peito que chamara os vermezinhos e que plantara margaridas mirradas em redor da lápide, onde ficara murchando cravos selvagens e crisântemos deixados pela procissão indiferente de acompanhantes, por fim, quando não existia a sensação de não termos a escolha da paz.
Kleber era um garoto de vinte anos eu já tinha trinta e sete. Fico pensando quanto tempo ainda tenho até o dia em que alguém lerá nos jornais: Mário entrou no congresso armado com uma calibre doze e disparou várias vezes contra os parlamentares matando nove pessoas e deixando treze feridas, depois atirou com sua própria cabeça, morrendo instantaneamente estirado no centro do salão oval. Segundo os familiares, Mário Empregado de uma metalúrgica em São Paulo, há seis dias estava desaparecido, até hoje quando se dera essa tragédia. Mário... Talvez nem saibam que meu nome é Mário. Talvez meus familiares nem percebam que sumi por seis dias. Talvez... Tudo acaba comigo deitado no chão do salão oval, uma sinfonia poderia tocar, mas não estamos em Hollywood e sei que sou só mais um. Todos nós estamos em retrocesso. Eu gostaria de saber como vão se sentir os brasileiros com a história que vão contar os telejornais. Eu gostaria de saber mesmo é se vão lembrar do teu nome quando você... É inevitável.

Sérgio Caldeira
Enviado por Sérgio Caldeira em 21/12/2010
Reeditado em 10/08/2011
Código do texto: T2683935

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Sobre o autor
Sérgio Caldeira
Itapecerica da Serra - São Paulo - Brasil
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