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Sem Adeus.

                        Dor. Desespero. Morte. A pior parte é a incapacidade em poder fazer alguma coisa para impedir. Impedir? Sem chance. Quando ela aparece para cumprir sua triste sina, não há jeito.
                        Ontem tão alegre e brincalhão. Hoje, apenas aquele corpinho, de pouco mais de cinco anos ali, inerte dentro do pequeno caixão. Não dá para conter as lágrimas da perda. Meu filhinho, meu pobre e lindo filhinho, morto. Nenhum dos sonhos e planos que tive e fiz para ele poderão se concretizar.
                        Bom de bola. Com aquela canhota ele seria mortal no ataque da seleção, sim da seleção, pois se puxasse a garra do pai e a perseverança da mãe, ele galgaria o ponto mais alto na carreira de um jogador, a seleção. Ou então quem sabe um grande nadador, como o Xuxa ou o Gustavo Borges, dando braçadas e mais braçadas numa olimpíada. Mas agora ele só poderá jogar no time do céu e suas braçadas serão infinitas por lá também.
                        A dor recomeça. O sorriso do sonho sai do meu rosto. Por que tinha que ser assim? Tão novinho. Por que Deus não me levou? Se é que foi Deus, se é que Deus pode ser responsável por isso. Isso é coisa do cão. Do Anhangá Tinhoso. O Diabo levou meu filho. Deus não faria isso nunca. Não dessa forma, com um tiro em sua cabecinha. Uma bala perdida e pronto: fim de todos os sonhos. O resultado da violência que há anos assola o país e ninguém resolve. Ninguém resolve. Eu grito e todos olham para mim. O velório está triste. Que pensamento bobo, velório é triste. O pai não sai do lado do caixão com a camisa da seleção na mão, que havia acabado de comprar para ele, quando soube do ocorrido. Entrou em choque. E assim ficou. Até agora nem uma palavra sequer com ninguém. Talvez sua vontade seja até ir com ele, ou no lugar dele. Mas isso não é possível.
                         E eu? Bem, eu não sei o que fazer da minha vida. Só desespero. Exasperação. Tristeza e comoção. O que mais seria? Um filho me sai das entranhas. Mostra vida em meus braços. E nos mesmos braços que o apresentam a vida, vem a morte. Nos meus braços.
                         Entra o padre para a oração. O caixão é fechado. O cortejo fúnebre se prepara para sair. O último caminhar de meu filho. Ai, meu filho. Não dá mais para definir a dor. O desmaio. E nem o último adeus eu pude dar ao meu filhinho.
Léo Rodrigues
Enviado por Léo Rodrigues em 21/11/2006
Código do texto: T297657
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Léo Rodrigues
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 39 anos
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Léo Rodrigues

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