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NÓS, VILÕES- UMA BIOGRAFIA FALSIFICADA: Estágio Um: Como me tornei um Neurótico Medroso e Pavio Curto

Eu já tinha plena consciência de que impérios e palácios têm fundações feitas de gelo, sabia inclusive que um dia o planeta Terra inteiro vai sucumbir, pois ele está sustentado sobre calotas de água solidificada, e o dia em que elas se derreterem, os mares vão comer o resto de terra firme que nos sobrou. Nossas casas serão flutuantes, terão cascos e velas, e nossas ruas e avenidas se liquefarão em planícies líquidas.

Tamanha filosofice burra só poderia vir da minha cabeça enquanto ela funcionava lendo um número da Herói, com uma resenha do mais novo(novo?) filme de Kevin Costner, Waterworld. O jornalista autor do texto dizia que a película seria um sucesso, os cinemas se lotariam, as bilheterias arrecadariam fortunas de dígitos intermináveis. Há um ponto que diferencia o profeta dos fanáticos: enquanto os primeiros recebem e interpretam sinais, para assim dizer os acontecimentos de amanhã, o segundo, fruto duns pensamentos perdidos, desfiam fatalidades, espetáculos, grandes acontecimentos, guerras, catástrofes, revoluções. Quanto mais a vida promete ser arrastada como uma lesma, mais insistem eles em que este verme vai criar asas e se tornar borboleta.
 
Mas eu só lia aquela revista de resenhas sobre ficção científica, desenhos, histórias em quadrinhos, seriados e outras miríades do entretenimento por causa dos Cavaleiros do Zodíaco. Geralmente, as matérias sobre eles ficavam nas páginas finais, antes da seção de missivas dos leitores. Uns textos truncados, mal-digitados, com erros de tradução, alinhados com imagens fotografadas das transmissões da Manchete ou figuras capturadas de livros importados, tudo mixado num projeto gráfico caótico e desorganizado, nada agradável. Mas a Herói sabia como laçar seu público, sempre contava os finais dos filmes dos Cavaleiros, antecipavam os inéditos, nem se precisava assistir na televisão com seus resumos ipsis literis.
 
Jogado sobre o carpete do apartamento, que fedia a mofo e me deixava com um perfume de bolor ao final da tarde, minha cama ao lado, uma pilha de revistas jogadas sobre a colcha, a Sharp 14 polegadas com a antena ajustada para um edifício vizinho, única maneira de sintonizar a emissora dos Bloch, eu esperava pela abertura do desenho dos meus ídolos, quando a campainha tocou e a faxineira da época veio me tirar de meu santuário particular:
 
- Marcelo, o Jorge chegou!
 
O Jorge Luís só tinha a mim como amigo, mas eu também não poderia criticá-lo, pois minha situação não era tão diferente. Bem mais alto do que eu, cara de turco charlatão, ele veio me contando das suas viagens, que testemunhara o vôo dum OVNI nos céus de Bauru. Ele queria mesmo era jogar Super Mario no meu SNES. Mas só depois que terminasse o Clube da Criança.

Isso foi antes do surgimento da Santa.

*  *  *

Aquele fantasma, aquela maldita, a Santa, mas não pensem que estou cometendo uma heresia, não venham fiéis me apedrejar, nem padres considerando-me um desequilibrado. Chamo-a de Santa unicamente por ela lembrar uma imagem católica, mas de divina, ela só tem o seu apelido. Porque aquela sombra tangível, aquela alma penada vívida, aquele monstro humano, tinha uma forma estranha, que por mais que me assustasse, sempre sumia de minha mente. Mas a idéia continuava. Tinha um rosto impossível de definir, andrógino, sem nenhuma expressão, um semblante frio e plano, feito de metal. Nem imagino o timbre de sua voz, embora a tenha ouvido várias vezes. Ela também nunca me feriu, mas nunca me machucou na carne, pois quando ela me perseguia(e quando eu não era pego por ela, pois fugir da Santa é quase impossível), decepava-me a alma, com uma dor horrível, que começava gelada e depois se aquecia. Por isso, eu vivia fugindo, saía correndo sempre que via o seu corpo em forma de lençol, lembrando um véu de vidro solto numa ventania.
 
E, além de tudo, ela tinha sangue nos olhos. Olhar fixamente para as pupilas da Santa significava pôr a própria sanidade a prêmio.
 
Ela caiu como clandestina nesse mundo, o meu mundo, nos primeiros dias de aula da Quarta Série, num ciclo de festas de aniversário numa pizzaria de Araraquara. Naquela época, os meninos ainda eram protegidos pelas mães e as meninas não tinham peitos, de modo que não conhecíamos ainda o que era beijar. Ainda estávamos no esconde-esconde, pega-pega e polícia-e-ladrão. Corríamos por todo o estacionamento do restaurante, que imitava as muralhas duma fortalezas, e depois nos refugiávamos no salão, dentro dum prédio que imitava um castelo, para repôr nossas energias perdidas nas brincadeiras. Daí vinham os triângulos assados de frango desfiado com catupiry, aos quatro queijos, à moda portuguesa, de brócolis com queijo e toucinho, ao alho e óleo.
 
Ao chegar de um desses aniversários, minha mãe me empurrando para tomar banho, eu me sentei no sofá e peguei um número aleatório de uma revista qualquer, não sei se X-Men ou uma daquelas de resenhas. Naquele momento, Cid Moreira, com o veludo rouco de sua voz veiculada em rede nacional de segunda a sábado, chamava uma reportagem sobre não me lembro o quê, talvez dum atentado em Israel ou duma nova tentativa de paz na antiga Iugoslávia.

E então ela apareceu, flanando pelo vídeo, deslizando às costas de Pedro Bial, ou esbarrando no cinegrafista. Eu precisava fugir de seu ataque, antes que ela me amaldiçoasse, agarrei o controle remoto, afundei com o polegar o botão da Cultura, estava no final do desenho do Doug. Senti que a Santa rilhou os dentes de raiva, ao me ver protegido e escondido agora.

- Mas o quê? Volta lá na Globo, eu tava vendo o Jornal Nacional- ralhou meu pai, retornando à sala.
 
Sem chances, sintonizei novamente a outra estação. A Santa deve ter soltado um riso de canto de boca, carregado no sarcasmo, e eu, encolhido na almofada, encurralado, recebi em cheio uma gota do sangue que ela disparava pelos olhos, mesmo tentando fugir dos estilhaços que escapavam pela tela da TV. Meu pai estava impassível, ele não conseguira ver aquela explosão.
 
Eu já carregava a maldição. Como todos os amaldiçoados, passei a viver como um fugitivo, arrastando-me dia após dia, entre o nascer e pôr-do-sol. Não tardou para que ela viesse testar o seu sortilégio, num domingo à noite. O Fantástico noticiava os gols da rodada, depois retornou ao estúdio, Celso Freitas apresentando. E bem na última matéria da edição, ela veio me visitar. Eu segurava em frente à minha cara uma Ação Games das mais recentes(eu não gostei nem um pouco do novo projeto gráfico. Ela estava bem mais cara por causa disso, mas nem por isso parei com meu vício de comprar revistas), e tentei me proteger atrás da estratégia dum jogo do Mickey para Super Nintendo. Mas ela veio e me arrancou um pedaço da alma, abrindo uma ferida das mais doídas, aquela dor que começava gelada como uma faca moldada em neves eternas e depois esquentava como se eu fosse um hambúrguer deitado numa chapa.
 
Além de mim, na sala estavam meus pais e uma prima que fazia faculdade e morava conosco. Nem perceberam o que se tinha sucedido. Fui dormir tremendo, suando em bicas sobre o carpete, a dor da ferida ainda me matando. Tentei ler uns gibis Disney, nem assim meu espírito parava de latejar. Deitei-me com a luz acesa, não importava a posição em que me punha, sempre havia aquele incômodo. Eu sangrava duma energia azulada, levemente fluorescente, cheia de lantejoulas, uma cascata escoava para fora de minha alma ferida.
 
Apaguei a luz, e o suplício foi pior. Minha boca secou, a garganta ardia, mas minhas pernas se tinham travado, não tinha ímpeto de correr até a cozinha, mesmo porque ela deveria estar lá, espreitando-me, atocaiada na geladeira ou no guarda-comida. A sangria continuava, eu ficava cada vez pior. O vulto da Santa pintava-se no teto do quarto, projetado pela penumbra causada pela lâmpada acesa do banheiro. Tudo para mim perdia o frescor: a cidade de Araraquara, minha coleção de revistas, meu Super Nintendo, as brincadeiras com os primos de Poloni e de Araras, o Palmeiras de Wanderley Luxemburgo, as feijoadas do restaurante do Cidinho.
 
Levantei na hora em que minha mãe acordava para fazer o café, moído, suado, ainda um pouco pálido. Com a cafeteira na mão, só faltou ela jogar a bebida quente na minha cara, de tanto que me interrogou:
 
- O que deu em você, hein? Posso saber porque não dormiu à noite? Fizeram alguma brincadeira na escola que te deixaram desse jeito? Você tá com medo ou encucado com alguma coisa?
 
Não respondi. Liguei a televisão nos desenhos do SBT, ali eu tinha certeza que ela não atacaria. Só então percebi, no meio duma aventura do Pica-Pau, que eu não conhecia mais as cores e as nuanças. O mundo tinha desbotado aos meus olhos, agora ele era somente em tons de preto, branco e cinza. Um filme P & B tridimensional e permanente. Só a pústula deixada pela ferida é que tinha cor, aquela película de carne maltratada e pele em fiapos tinha se tingido de púrpura, um roxo de alface podre, com algumas brotoejas pretas.
 
Assim fui para a escola naquele dia.

*  *  *

Acostumei-me à vida acinzentada, pois os hábitos logo tendem a se enraizar, mesmo sendo esta uma raiz venenosa. Só tinha contato com os colegas de escola...na escola! Não gostava mais de futebol, então não podia jogar futebol com Francisco, Tiago e Brunão, meus colegas de classe. Ali, todos me perseguiam, até o Ricardo, que antes era amigo meu, mas parecia mais que minhas amizades tinham-se derretido, e eu vivia uma vida inundada, nadando para não morrer afogado. Perseguiam-me porque eu gostava de Cavaleiros, e os moleques da quinta e mesmo da minha classe diziam que era “uma babaquice”. Através de Renato, um mulato gordo, de bochechas caídas e com um boné grudado na cabeça, os dentes escapando pelos lábios, todos conheceram os filmes de sacanagem. Menos eu, é claro.
 
Só conversava mesmo com o Marquinho, um coreano lutador de taekwondo que enchia de murros quem o confundia com um japonês ou um chinês. Ele também sofria nas mãos dos grandões da sala, inclusive de Brunão, esse que eu mais temia e que nossa professora dizia que tinha um “físico de Tarzan”.
 
Não mencionei a Tia Maria, mas a mencionarei agora, para não me omitir. Aquela mulher media pouco mais de metro e meio de estatura, andava mancando, era ligeiramente atarracada, mas era o diabo! Enchia lousas e mais lousas, dez, vinte, trinta, quarenta exercícios de Língua Portuguesa, que nós tínhamos de copiar no caderno e depois resolver, pois ela passava vistando. Vez ou outra, quando as meninas brigavam com os meninos, pois nós éramos duas potências acidamente inimigas, vinha ela com suas lições.
 
A voz da Tia Maria, além de corrigir o Francisco quando ele soltava algum anglicismo, pois ela era adepta ferrenha do português castiço, ecoava e balançavam as divisórias que serviam de parede da sala, por pouco não rachando a lousa. O assoalho rangia, as carteiras ameaçavam sair do lugar, pois o estrondo de sua voz tinha o efeito dum terremoto. Ela gritava sempre comigo e com o Torres, pois este, que andava comigo há 365 dias atrás, agora me perseguia para me bater e me irritar. Pudera, eu era o menor da turma, o mais fraco, o mais gordo, o mais tímido, o mais irritado. Todo recreio terminava em pancadaria, insultos, vergões e choros. As meninas, algumas já amadurecendo, olhavam-me com nojo.

Quando terminavam as aulas de Educação Física, na quarta à tarde, ou de Teatro, na sexta, eu saía correndo para a liberdade, ia para a locadora à frente do meu condomínio para alugar algum filme, algum desenho animado, um cartucho de videogame. E geralmente encontrava o Marquinho. Solitário, afundava-me nos filmes de Chaplin, meu ídolo, eu morria de rir com suas besteiras. Chaplin abriu as portas de meu coração. Meus finais de tarde e começos de noite não seriam os mesmos se não fossem por ele. Mas o colorido não retornava às minhas retinas.

*  *  *

Araras, cidade das árvores. Araras produz, Sopro Divino conduz. Araras é a cidade que mais produz, de dia falta água, de noite falta luz. Araras, a princesinha do ramal. Vários outros bordões tinha a cidade-natal do meu pai, e ele ia me contando, junto com suas histórias bizarras. Algumas folclóricas, sempre engraçadas, colhidas em anos e anos de infância no distrito do Elihu-Root.
 
Meu avô morava no centro, na rua Frei Galvão, numa casa das mais antigas da rua, que somente sofreu uma reforma que lhe alterou a varanda e o quintal. Fora isso, era, na minha visão de menino, um palacete dos tempos antigos. Ali era local de festas, de animação, dos churrascos titânicos que meus tios organizavam no Natal, dos aniversários do meu avô, nunca vi alguém gostar tanto de festa quanto ele. Além da casa, no fundo do quintal havia uma edícula, com um quarto bagunçado, que nós chamávamos de “Cinco Estrelas”. Não sei até hoje o porquê.
 
Meus pais me deixaram na casa do meu primo Alexandre, nós adorávamos passar o dia inteiro jogando videogame, meu avô foi visitar uns parentes, meu tio Dú, o único que ainda morava por lá, atendia no balcão do Bar do Bambu. Na noite passada, tinha sonhado que meu avô, como todo italiano, explodia de raiva ao ver a injustiça que tinham feito a um de seus mais de vinte netos, e ele ia me defender da Santa. Ela aparecia no sítio, nós estávamos pescando, eu, meu pai, meu tio Gando e meus primos, e lá ia ele com sua espingarda e seu facão para afugentar aquele fantasma. Se ele estivesse nas outras vezes para me proteger...

De repente, uma fita japonesa, dum jogo ruim demais, que o meu primo tinha comprado por uma bagatela nas lojas da Rua Tiradentes, começou a brilhar, no canto da estante. Levantei-me, chamei a atenção dele, ele não notou nada. A etiqueta do cartucho parecia pegar fogo. Pela primeira vez, vi um feixe com as sete cores do arco-íris, azul, amarelo, vermelho, verde, violeta, anil e lilás. Uma explosão aconteceu, uma onda de choque atravessou a sala, a casa inteira, envolveu todo o município, o planeta...

Meus olhos arderam quando pude ver que o tapete ali era dum verde musgo escurecido, com manchas de umidade, constrastando com a madeira clara e envernizada da estante onde amontavam-se a televisão, o console, um vaso com margaridas, porta-retratos e um maço vazio de L&M Lights, o preferido do meu tio. À noite, antes das reuniões com lanche nos sábados que sempre aconteciam na casa da Frei Galvão, fomos à missa na igreja de São Benedito. A explosão de cores do templo quase me deixou bêbado, eu que nem champanhe ainda tinha experimentado(mas daquele Natal não passaria).
 
Meu avô só poderia ser algum mago, um feiticeiro, minha família inteira deveria ser de paranormais, Araras deveria ser alguma terra sagrada. Eu estava curado.

Fui surpreendido por aquela prova sem saber, pois os episódios inéditos dos Cavaleiros tinham estreado naquela manhã. Uma avaliação de Ciências, cobrando de nós uma introdução à Botânica, ministrada pela Tia Maria. Ali, à minha frente, surgia uma flor, e flechas indicavam seus órgãos, eu deveria assinalar o nome nas lacunas em branco. Corolas, estames, estigmas, pétalas, sépalas, pólen, pedúnculos, folhas, nectários, pericarpos...não lembrava de nada. Puxei da apostila debaixo do tampo, não havia outra maneira. Marquinho entregou meu crime.

- José Marcelo, confesse, você colou na prova? Eu só sabia de colas lá pra sétima e oitava séries, mas em plena quarta...que educação você recebeu em casa? apontou o Torres, no fundo da classe- ele, mais honesto, me entregou a prova em branco dizendo que não sabia nada...

Bolinhas de papel chocaram-se contra minha nuca, gargalhadas, gracejos e esporros invadiram-me as orelhas, as ofensas desabavam aos cântaros sobre mim, aquele gordinho de óculos com a face encharcada de lágrimas, tremendo de raiva e culpa, encolhido em sua carteira. Traído pelo seu talvez único colega dentro daquela sala cheia de crianças. Quando a “tia” acalmou os ânimos de seus pupilos, os dois que se sentavam nas fileiras atrás de mim mostraram solidariedade. Conrado e Felipe eram amigos desde bem pequenos, nos tempos de parque, e eu um forasteiro, tinham-me conhecido há pouco tempo, eu ainda era um outsider ali. Mas ali, com eles me acalmando de minhas bufadas de raiva, eu firmei minha primeira amizade verdadeira em Araraquara.
 
Há dias em que não devemos acordar, e aquele foi um dos exemplos mais fortes. No recreio, as meninas puseram-se a jogar futebol, correndo de um lado para o outro e chutando bola, a porção masculina resolveu invadir o match, terminando numa batalha campal travada no próprio pátio do colégio, com inúmeros chutes na canela e tapas no rosto. As meninas nos xingavam de veados e bichas, nós rebatíamos chamando-as polidamente de lésbicas e putas. Apanhei como um condenado aos piores suplícios naquele quebra-quebra, dos dois exércitos, pois eu me perdi um momento naquela confusão. Dolorido, arrastei-me pelas escadarias, chegando atrasado na sala de aula. A voz de Tia Maria contribuiu para ainda mais me ferir as vísceras.
 
- Vocês não sabem nada disso de bichas e lésbicas, são crianças ainda, vou explicar pra deixar bem claro- fez desenhos de testículos e úteros na lousa, grosseiros para não serem obscenos- vão crescer pêlos aqui em vocês, vocês vão ter sensações novas, como, por exemplo, todo mês as meninas vão menstruar, já os meninos vão ter ereções e vão liberar o sêmen...

Machucado, tive minha primeira aula de educação sexual. Mas, como já disse, naquele dia eu não deveria ter deixado as minhas cobertas. Descemos para o porão, aula de Teatro. A professora, uma atriz da velha guarda, experiente em pisar nos palcos e encarnar de Chapeuzinho Vermelho a Anna Karenina, pediu-nos para começar o cenário de nossa peça. Íamos mexendo com jornais, logo nossas mãos cobriam-se duma luva de tinta de imprensa. Só havia uns vidros de colas branca para se lavar as mãos, corri e peguei um tubo de Tenaz, esfregava meus dedos quando um murro cantou em minhas costas.

- Essa cola é minha, quatro-olhos! Larga dela agora, gordo folgado! E nem pense em ir chorar pra mamãe, ouviu!
 
- O que está acontecendo aqui? perguntou a professora.
 
- Esse tonto tá mexendo nas minhas coisas- respondeu meu carrasco, ao que ela somente balançou a cabeça, bem quando ele afundou os punhos na minha espinha.
 
Não tive forças nem para escolher o cartucho de Super Nintendo, mal conseguia ver os rótulos nas prateleiras, levei ao balcão junto dumas fitas do Chaplin e do Gordo e o Magro, e depois também mal conseguia ligar nem o videocassete e nem o SNES. Não jantei, tombei na cama, minha mãe já me sabatinando, temerosa de inúmeras moléstias imaginárias. Mas ainda assim queriam que eu fosse repôr aulas na academia de natação.
 
Sonhei, sonhei e sonhei. Com as outras vezes em que a Santa me perseguiu(duas vezes ela veio pela televisão, em outra vez, saindo da catequese, no pátio escuro da escola, ela me perseguiu até a entrada do prédio), com o Mundo Gigante do Super Mario Bros. 3, com balas de morango que brotavam em galhos secos de árvores bizarras. Depois tive a sensação de que me afogavam na piscina, a mesma onde eu aprendia a nadar, porque meus pais sonhavam com um filho condecorado com medalhas de ouro. Por fim, acordei sufocado.

Passava Ben-Hur naquele começo de madrugada, e bem quando o antigo nobre romano é preso e obrigado a remar junto de outroas escravos nos porões fétidos duma galera, meus gritos de vômito encheram a noite. Com as golfadas, soltou-se de minha boca também o aparelho móvel, aqueles arames que me arranhavam a gengiva, exigência do dentista. Mares de espuma e sucos gástricos saltaram pelos meus lábios. Depois, cólicas borbulharam em meu ventre, uma diarréia fatal quase me derreteu sob a privada.
 
- Zé, vamos precisar levar o Marcelo no hospital! disse minha mãe.
 
Com a boca seca, os lábios rachados, o gosto de bile e doença impregnado em minha saliva, vi-me à frente do imponente prédio da Beneficência Portuguesa, os seus janelões me fitando como se me farejassem. Doía-me tudo, as juntas, articulações, a garganta, os músculos do estômago, os machucados provocados pelos murros de Brunão. Até mesmo começou a doer a ferida roxa, que não cicatrizava jamais por ser ferida na alma, causada pela Santa. Num corredor escuro, depois de quase arrombar a porta dum lavabo de tanta ânsia, esperando por uma fila que nunca andava, fui atendido numa saleta minúscula, iluminada por um tubo de luz amarelada, por um residente que não parava de fumar. Só me receitou uma injeção, nem mesmo lembro o nome.
 
Mais uma espera na farmácia, eu olhava para uma parede descascada, cheia de infiltrações, os canos aparentes, sentado numa poltrona rasgada, ao lado das cabines de aplicação. Uma Telefunken antiquada transmitia a saga de Ben-Hur, por entre chuviscos e saltos. Ao meu lado, uma moça que deveria ser uns sete anos mais velha do que eu, japonesa, lia um mangá.
 
- Sua injeção vai demorar um pouco mais, filho- alertou-me minha mãe.
 
- Se você melhorar, te levo no shopping pra jogar o fliperama das Tartarugas Ninjas- falou meu pai, tentando me dar uma força.
 
Deixaram-me na sala de espera da drogaria a sós com a japonesa, eu encolhido no estofado, tremendo. A ânsia iria voltar a qualquer instante, porém, sem tirar os olhos das páginas ilustradas, a menina me disse:

- Você não vai vomitar mais! Eu sei, te garanto. Seus pais acham que sim, mas eles se enganam. Não ligue. E sei também que você me acha bonita, mas você ainda é muito novo.
 
- Tô com sede- murmurei, um pouco lúcido, um pouco em delírio.
 
- Eu vou te dar água- respondeu ela, tirando uma garrafa do bolso de sua calça jeans. Pediu que eu abrisse bem a boca, e ela derramou o líquido, gelado que até me doía a testa, uma água diferente, que realmente acabava com a sede. Nunca me senti tão refrescado em toda a minha vida. Sentia-me no Pólo Norte, numa enorme piscina, numa praia...

Apaguei. Acordei no dia seguinte na minha cama, meu pai me trazendo um copo de soro, que eu sorvi aos borbotões. Só então descobri que o filme que eu tinha locado era Os Flintstones, com John Goodman e Rick Moranis, e o jogo era NBA Jam. Na televisão do quarto, ligada na Manchete, aparecia uma vinheta comemorativa: “FELIZ 1996, BOAS FESTAS”.
José Marcelo Siviero
Enviado por José Marcelo Siviero em 22/11/2006
Código do texto: T298184
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