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O CÉREBRO

 
Conto
O  CÉREBRO

Antônio Maragno Lacerda*
 

     Quando um primo de sua esposa, o embaixador Carlos José Pinheiros passou a visitá-lo, o Dr. Rafael Nunziato sentiu que a segurança de sua casa estava ameaçada. Diante daquele homem magro, alto, de maneiras melífluas, ele sentia uma estranha opressão no peito como se estivesse prevendo um desenlace que fosse terminar com a felicidade que ele, laboriosamente havia arquitetado. Sua esposa, no entanto, parecia não perceber coisa alguma, e recebia o primo com alegria, recepcionando-o com lautos manjares. Quando ele se mostrou descontente a mulher respondeu muito ofendida:

- Ora Rafael, você sabe que não podemos deixar de receber o Carlos... é uma honra para nós... não é toda família que pode recepcionar um embaixador.
- Um fila bóia...
- Oh! Rafael, onde estão as suas boas maneiras?

As boas maneiras já o estavam saturado. Quando voltava exausto do trabalho, desejoso de tirar a roupa e meter-se num robe-de-chambre, aparecia o primo Carlos, e ele tinha de envergar o apertado "dinner - jacket" e fazer salamaleques na mesa para comer o guisado. Passou a odiar o "embaixador Carlos" - como costumava chamá-lo - no dia em que, desastradamente, o seu garfo resvalou, atirando longe o pedaço de carne.

O embaixador pôs nele uns olhos horrorizados, e estendeu-lhe, compungidamente o guardanapo. Depois do jantar, o Dr. Rafael procurou a mulher na cozinha:

- Se ele voltar aqui, juro como pego o guisado, arranco a carne com os dentes, atirou-lhe o osso em suas fuças.
Mas no outro dia, quando o embaixador apareceu, foi obrigado a destrinchar o frango direitinho e a ouvir suas arengas sobre questões políticas.
 O Dr. Rafael não compreendia porque o primo de seu esposa fazia questão de visitá-lo quase que diariamente. Somente depois de algum tempo, percebeu que Carlos estava apaixonado pela prima; sua mulher. Ao chegar a esta conclusão, não levou nenhum choque - apenas passou a odiá-lo um pouco mais que de costume.

Então aconteceu o inesperado. O embaixador Carlos José Pinheiros morreu de apoplexia, no meio de uma importante conferência. A esposa do Dr. Rafael pôs-se a chorar ao saber da notícia, e ele ficou surpreso ao constatar que fora escolhido para fazer a autópsia. A Embaixada e o hospital desejavam que ele especificasse a natureza do derrame.

Foi com um misto de nojo e revolta que entrou na sala de operação, traçou violentamente dois cortes na cabeça do morto; aparou o sangue na bacia, passou o fórceps pela abertura e fez saltar o cérebro que embrulhou na capa plástica para mais tarde, levar para casa. Pretendia fazer análise durante a noite, para livrar-se o mais breve possível daquela tarefa revoltante.

Durante o percurso sopesou o cérebro imaginando os pensamentos que por ali haviam passado. Seria capaz de jurar que aquela massa inerte só havia pensado inutilidade. No portão encontrou a empregada esperando-o ansiosamente. Chamavam-no urgentemente ao hospital - estavam precisando de médicos para as vítimas de um pavoroso desastre ocorrido. Dr. Rafael perguntou pela mulher:

- Não para de chorar - foi a resposta - a coitadinha está triste por causa da morte do "baixadô".
Entregou o cérebro para a empregada:
- Guarde isto. - e depois de refletir - Diga à Belinda que não me espere para o jantar!
 Passou a noite cuidando dos acidentados e regressou de madrugada. Mal deitou, e, quando acordou, dia alto, sentiu-se perfeitamente refeito. A noite de trabalho aguçou-lhe o apetite: sentiu uma fome de lobo. Quando desceu, a mesa estava pronta e sua esposa já estava sentada ali. Não notou que a mulher estava com o rosto vermelho e os olhos inchados.


Ele, naquela hora, só tinha atenção para os pratos saborosos enfileirados no centro da mesa: peixe, macarrão, ovos, salada, arroz e bolinhos. Deu um olhar aprovador e reconhecido à empregada que permanecia na porta da cozinha. Maria fora um achado. Descobriu-a na cozinha do hospital. Ofereceu-lhe o dobro para trabalhar em sua casa. Aqueles pratos saborosos dizem que havia acertado. Serviu-se de arroz, elogiou-o, e sua mulher provou algumas colheradas, Depois tomou um gole de vinho e atacou a macarronada, o peixe e quando chegou nos bolinhos arregalou os olhos:

- Belinda, estes bolinhos estão deliciosos - simplesmente deliciosos!
- Para você toda comida é uma delícia...
- Esta é especial! - experiente. Sua mulher comeu alguns. Teve um movimento de admiração. Acenou à empregada.
- Maria, qual foi o tempero que você usou nisso?


- Chá de tempero de aipo, dona. Ele dá cheiro. Depois assei em forno brando.
- O Dr. Rafael acenou com a cabeça, aprovando. Acabou o copo de vinho e foi digerir na varanda. Pegou a revista "Cirurgia" e mergulhou na leitura. Fazia meia hora que estava lendo quando viu o artigo intitulado "Autopsia", e lembrou-se do cérebro e da análise que estava por fazer. Correu à cozinha e chamou a empregada:

- Onde você pôs o pacote? - Pacote?
- O cérebro, mulher!
- Ah! O cérebro. Misturei com milho verde, temperei e fiz o bolinho.
 

Don Antônio Maragno Lacerda*
Prêmio UNESCO/JORNAL/POEMAS
jornaldosmunicipios@terra.com.br

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DON ANTONIO MARAGNO LACERDA
Enviado por DON ANTONIO MARAGNO LACERDA em 02/07/2005
Código do texto: T30067
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Sobre o autor
DON ANTONIO MARAGNO LACERDA
Campinas - São Paulo - Brasil, 79 anos
55 textos (2587 leituras)
2 e-livros (95 leituras)
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DON ANTONIO MARAGNO LACERDA