Letras e nenhum desfecho

Trato aqui de um assunto desagradável malcheiroso muito em voga hodiernamente e diz respeito aos maus-tratos que sofre um dos nossos importantes afluentes. Seria até desnecessário trazer à baila este fato tão explorado pela mídia e ardilosamente utilizado pelos oportunistas de plantão que buscam alavancar pretensões escusas no terreno político.

Contudo, haja vista que nem só de versos vive o poeta achei por bem registrar a minha indignação quanto ao que ouço sobre os motivos da enorme poluição.

É um rio sem vida cujas águas desembocam abaixo do nível dos oceanos. Barco algum nele flutua; a mata ciliar zarpou com raiz e tudo ao encontro de outra freguesia; cardumes inteiros de peixes abandonaram o rio em disparada feito atletas de triatlon perseguindo outra etapa da disputa; os batismos pentecostais foram proibidos pelo espirito santo ao constatar num documento emitido por fonte fidedigna o severo risco de morte (do corpo e da alma) a que estavam sujeiros os bem-aventurados discípulos; o vento passou a deslocar seu trajeto bem para longe do caudaloso rio com o fito de não infectar com o terrível mau cheiro exalado de suas águas as narinas dos cidadãos assentados nas aldeias circunvizinhas.

Até mesmo os urubus, chegados a um tenra carniça, ao entrarem em rota de aproximação com as ditas águas tendem a procurar ascendências térmicas no intuito de alcançarem altitudes inatingíveis pelo insuportável odor.

Equipados com forte aparato protetor recentemente especialistas no assunto colheram amostra do líquido por determinação do governo federal, porquanto, segundo um porta-voz do paqlácio, a causa da contaminação deve ser apurada e combatida com urgência.

Pois bem, estão dizendo, à boca pequena, que o seu manancial é utilizado por uma recatada e honesta camarilha, oriunda do próprio poder governamental, altamente qualificada em desviar dinheiro público por meio fluvial. Obviamente tenho resoluta certeza que esse não seria o motivo de tamanho estrago ambiental.

Penso que o caro leito há de concordar com este humilde escrevinhador.

Wagner de Oliveira
Enviado por Wagner de Oliveira em 12/03/2012
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