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Época de Escrevinhar Sobre Andarilhos Idiotas

 O cheiro entorpecedor da debilidade, da sublimação arrogante, da ilusão fétida, fez explodir num espasmo de loucura e lucidez, enfim, o grito há tanto abafado:
 -Óh seres ingenuamente hipócritas e decadentes! Os sonhos hão de lhes mostrar como vós sois. Sim! Os sonhos... inconscientes e verdadeiros, onde os desejos mais sujos se revelam, se exaltam, querem viver. Aqui vós vos escondem, aqui procuram  a elevação de espírito, a cura, a verdade... a vida envolta de beleza e significados majestosos em suas divindades! Pois saibam: se encontram no ventre da cegueira. - disse o andarilho errante.
 Subito silêncio! Semblantes confusos e perturbados quanto aquela cena estranha e insana.
 -O que procurais aqui? - indagou o pastor - Tu que te julgas conhecedor das vontades instintivas, das máscaras que as cobrem, das verdadeiras intenções das doutrinas religiosas, tu que dizes que a igreja deforma a razão e adoece o espírito, responda-nos, em tua elevada sabedoria, o que te faz pensar que és sábio? que possues a verdade, que tens o direito de difamar a fé estimada às divindades?
 O andarilho olha fixamente o pastor por um minuto. Sai da capela e volta a vagar. Já em sua velhice, em sua vida arruinada por delírios e infortúnios, mergulha em sua própria decadência espiritual, antes sublimada por sua "sabedoria".
 Conscientizando-se do verme que era, verme como os vermes que difamara, diferenciando-se apenas por se alimentarem de cadáveres de cores distintas, decidiu ser, no curto tempo de sua vida, o verme que sempre fora, admitindo-o sem máscaras, sem mentiras.
 Chegando em seu barraco, o andarilho deixou-se aceitar o ódio que sentia pela igreja, por suas divindades, pelos pregadores, enfim, odiava tudo e todos que tinham relação com tais valores doutrinários. A raiva começou a arder-lhe o coração, inflamando todo seu ser e sob um enorme êxtase, sentiu-se forte em sua irracionalidade revigorante! Armou-se e destinou-se à capela.
 Entrou e com movimentos violentamente rápidos, anormais pela idade que possuia, avançou sobre o pastor, esfaqueando-o, rasgando-lhe a carne com os dentes, numa destreza agressiva fora do normal. Os indivíduos tentavam em vão arranca-lo de cima do pastor já morto, até que a histeria dos fieis foi paralizada por alguns segundos pelo barulho ensurdecedor de um tiro, disparado pelo desesperado irmão do pastor, acertando o alvo que mirara.
 Em meio aos gritos, gemidos e choros, estirado no chão, o andarilho ensanguentado ainda tem forças para gemer a dúvida com a qual morrerá sem resposta:
 -Perdido sempre estive, será que me encontrara agora?
 E morre com os olhos abertos voltados à imagem do Deus crucificado.
Orbe Sardônico
Enviado por Orbe Sardônico em 24/07/2005
Código do texto: T37394
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Sobre a autora
Orbe Sardônico
Porto Feliz - São Paulo - Brasil, 30 anos
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Orbe Sardônico