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Lady Myaco

Este eu classificaria como bizarro...Na verdade, ele foi um background - leia-se histórico - de um personagem de RPG. Gostei tanto que acabei por transformá-lo em um conto. A carta de uma mulher que vive em um país vigiado, em uma época  inexistente, com medo. Foi fortemente inspirado em "Akira", o célebre Mangá, e "1984", o clássico livro de George Orwell, o verdadeiro "Big Brother".
 
                           
                        LADY MYACO
     Estranho é contar a alguém sobre minha vida em uma época em que já pouco importa estar viva ou não, contanto que estejam pagos os impostos exigidos pelo Partido. Intrigante teu interesse... Creio que saibas do risco que corres caso algo sobre mim escape de teu poder.

     Se ainda assim te causo curiosidade, aqui vamos nós.

     Era uma época difícil para se viver na Eurásia. O ano era 1959 e o avanço tecnológico aliado a grande produção de cereais com que o país se deparava - anos de fartura - fizeram com que outros lugares do mundo tivessem suas atenções voltadas para nós. Dentre estes a Oceania que, através de espiões descobriu as falhas de nosso exército e sem demora invadiu nosso território, dominando e oprimindo o povo.

   Eu estava nesta época então prestes a nascer. Meus pais, David Crocket e Madeleine Windsburn Crocket  trabalhavam no comércio de antiguidades, um ofício que se iniciou com a mania de meu avô colecionar quinquilharias e,com o passar do tempo após a invasão, o início do domínio do Partido e do Grande Irmão, tornou-se um dos poucos lugares onde ainda eram encontradas as boas coisas da vida. Meus pais tinham discos em vinil, vinhos e chocolates finíssimos, cintas-liga e gravatas de seda, café com cafeína e cigarros ainda com nicotina e alcatrão, além de revistas e artesanato do mundo todo.

   Contando com boas relações dentro do Parlamento, meu pai decidiu fugir. Tínhamos um parente que era político e nos assegurou que uma verdadeira guerra não tardaria a estourar. Eu estava com pouco mais de um ano e, através deste mesmo parente meu pai pediu asilo político á Oceania. Sim, meu caro amigo... Meu pai foi um desertor. Em honra a sua família, que era tudo o que realmente possuia de valioso, meu pai traiu seu país, entregando informações sobre outros parlamentares á este parente, em troca da garantia de nossa fuga segura. Se o culpo? Não. Definitivamente não. Se não tivesse nos trazido para cá, hoje eu não estaria te escrevendo esta carta. Sabíamos do alcance das mãos do Grande Irmão, com seus exércitos fortemente armados e força de vontade inabalável, criada através de lavagens cerebrais. Estou viva, não estou? Devo isto ao meu pai.

    Na Oceania já dominada, gozávamos de alguma liberdade. Parecia que estávamos mais longe do alcance do Partido e até certo tempo isto era verdade. Na ocasião, nos estabelecemos em um local distante do centro, onde hoje se fixou a sede do Parlamento da Oceania. Naquela época ainda era um bom lugar... Hoje acredito que um bom lugar pode estar a sete palmos abaixo da terra... mas enfim, atualmente, os líderes políticos e todos os simpatizantes do Governo vivem nesta região. Naquele tempo, precisavámos de um local mais afastado por causa da loja de antiguidades, já que meu pai continuou exercendo a mesma profissão de antes, com uma grande diferença: Agora não vendíamos antiguidades, éramos contrabandistas de artefatos caros.

     Entretanto, as coisas não iam tão bem quanto pareciam. Tínhamos algumas regalias concedidas pelo Partido as custas da traição mas, pelo povo, as pessoas a nossa volta, meu pai era fatalmente visto como traidor, um fracassado que se entregou ao inimigo sem lutar. Pela vida triste e toda a discriminação que meu pai sofreu na Oceania, tanto por parte dos políticos como do povo, ele faleceu em 1972 e três anos mais tarde minha mãe juntou-se a ele, provavelmente de desgosto. Os amo muito, e sinto imensamente esta falta. Mas voltemos ao passado mais distante.

       Em 1969, enquanto eu brincava com outras crianças entre os destroços de uma casa, caí e machuquei severamente a cabeça. Os médicos constataram uma especie de angioma de localização inoperável, ou seja, ganhei uma bomba-relógio que me causa dores lancinantes somente amenizadas por uma droga chamada PLUG, que creio ser de teu conhecimento. Mas não aconteceu só isso.

      Enquanto estava caída o chão, vi um grande clarão, acompanhado de uma voz estrondosa, que dizia que um dia eu lideraria todo aquele povo, os libertaria de sua opressão e alcançaria o poder trazendo paz e liberdade de pensamento á todo o mundo. No mesmo instante, senti uma energia estranha percorrendo meu corpo e vi que pequenos objetos a minha volta flutuavam, movimentando-se de acordo com minha vontade, assim como percebi que também conseguia destruí-los com um breve pensamento.

     Anos mais tarde, depois de  tratada e ser constatado que nada mais poderia ser feito por minha doença percebi que, ao ingerir a tal droga conseguia ter "flashes" do futuro e curar algumas enfermidades de pessoas que fossem colocadas a minha frente nestes momentos em que me encontrava em transe. Contudo, o poder de cura não atingiu a mim... Se me preocupo? Creio que não exista motivo para isso. Em meus transes converso constantemente com a Estrondosa Voz e ela me assegurou de que sou imortal. Acumularei alguns danos físicos durante minha vida mas não morrerei. A Voz me assegurou de que eu sou a Salvadora de nosso mundo e eu creio, creio nela!!! Acredite em mim enquanto há tempo! Eu salvarei sua alma!!!

     Sobre o resto de meu passado? Sim... bem,como meu pai precisava conseguir a PLUG para mim acabou por se envolver com o tráfico de drogas, além do material ilegal que detínhamos no antiquário. E te garanto, meu amigo, é uma atividade altamente rentável e permitida pelo Partido pois, a mesma droga que tranca a mente das pessoas, embotando os sentidos, abre as portas de minha percepção... mas o Grande Irmão não precisa saber disso... Citando Aldous Huxley: "Quando as portas da percepção se abrem, tudo se revela ao homem como é: Infinito..."
Disponho também de boa literatura em meu "antiquário", gostaria que pudesses ver...

     Como podes perceber, minha vida baseia-se em enriquecer as custas de membros do Partido viciados em PLUG e revistas pornográficas, assim como ajudar o povo oprimido por este governo totalitarista e imundo, preparando-os para gozar de um futuro iluminado que a Voz lhes ofertará ainda em vida, quando a hora chegar.

     Tua amiga agora se despede, deixando abraços afetuosos e recomendações - uma vez mais - de cuidados com as informações que agora carregas. Não tenho próximos a mim os Policiais do Pensamento que trabalham para o Partido, vigiando a mente do povo, mas te asseguro que tenho formas de saber, se desejares me trair, o que se passa pela tua mente. Mentes claras e abertas, nestes dias que vivemos, valem ouro, sobre bandejas.

                          Beijos com carinho e saudade.
                          Lady Myaco

                          .../.../ 1984.
Carla Umbria
Enviado por Carla Umbria em 03/08/2005
Reeditado em 03/08/2005
Código do texto: T40085
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Sobre a autora
Carla Umbria
Curitiba - Paraná - Brasil
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