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A CASA DAS ROSAS

 Mal a noite caiu, a casa voltou a exalar o perfume envolvendo Mariana num torpor mágico, inebriantemente onírico, como há tempos não acontecia.
O aroma era o mesmo, sempre o mesmo desde o primeiro momento em que ela viu Pedro frente a um cavalete, salpicado de tintas, absorto na rosa que ganhava a eternidade na tela vazia.
O aroma era o mesmo que Mariana identificava de longe quando Pedro chegava cheirando rosa, rosa branca, rosa que nunca queria ir embora.
O aroma era o mesmo de todos os abraços medrosos e secretos que vinham pelo vão da noite, para amá-la intrusa como uma morna luz matinal.
Havia ela estado num tempo de estrela, longo, distante e faiscante a brincar de bem me quer com os próprios dedos, rindo da artimanha de sempre terminar no bem e quando se distraia, chamava Pedro para pintar-lhe mais um retrato.
Então ele arrumava o cavalete, preparava a tinta, examinava o pincel e o que era branco e inútil ganhava cor, luz, som, murmúrio, gemido e prazer.
Então ela desarmava o colchete, soltava os cabelos e o espartilho, abria o sorriso já pronto, amolecia a alma, e o que era proibido e sujo, ganhava cor, luz, som, murmúrio, gemido e o perdão.

Havia sido assim até o momento em que ela mudou para aquela casa e descobriu que as paredes respiravam rosas, as mesmas rosas do corpo de Pedro.
 
Ela veio descalça, com as pequeninas solas pisando leve o chão desconhecido. Ela veio voando feito pequena em colo de adultos. Ela foi colocada no chão frio com cuidado de quem deposita uma gota de cristal sobre uma mesa áspera. Ela veio e ficou ali, tateando no escuro, tentando descobrir o rumo do perfume que exalava daquelas paredes.

Trancada em seu novo mundo, da casa nova, do quarto desconhecido, dos cômodos secretos separados por concretos e tijolos, nada disso nunca passou a existir para Mariana. A casa era a parede de uma só face, a externa, lisa, como uma fotografia com duas datas, voltada para o mundo móvel, de luz, de som, de irmãs, tias, vasos e vaga-lumes. Descobriu logo a origem da fragrância: um vaso de barro com rosas, rosas brancas em botão, adolescentes. No primeiro dia ela ajoelhou-se frente às pétalas frias e pediu perdão por tê-las tirado da vida tão cedo. Estivessem no jardim onde nasceram, talvez estivessem ainda coloridas e alegres. Tivessem deixado também ela com os pés a chapinhar poças, descobrindo amores roubados atrás das portas, roubando beijos assustados de Pedro, talvez ainda estivesse feliz. Um vento vindo da cidade passou ligeiro e colheu o que restava da flor que não era mais flor. Foi-se o perfume, ficando só o amor num longo silêncio de um jardim cansado.

Havia um grilo sentinela que cantava do lado de fora e Mariana esperava que ele emudecesse em sinal de passos pesados. Pedro. Com certeza Pedro. Só podia ser naquela hora da noite. Uma coruja em conluio soltava seu canto triste. Quando parasse. .  . Ah! quando parasse, era Pedro. Mas eles cantaram a noite toda e a noite seguinte a seguiu e a seguinte também.
 
O tempo que passava rápido demais quando estava com Pedro, agora era lento, demorando a cumprir cada vez mais a sua jornada de doze horas. O sol teimoso feito criança insistia em ficar mais cinco minutos. Só mais cinco minutos boiando num vazio sem cor, sem luz e sem aroma.
Até que naquela noite o perfume voltou, envolveu Mariana e convidou-a a sair para a noite. Então ela se fez bonita, cantarolou uma canção antiga, ensaiou as palavras de saudade e cobrança guardadas no peito feminino. Uma vez no ar da lua, ela viu a parede externa da sua casa coberta de rosas, rosas brancas pintadas de tinta nova. Flores que não mais murchariam nem precisaria Mariana pedir perdão por arrancá-las. Rosas pintadas pelas mãos de Pedro e assim eternizadas na casa de Mariana.
Com as mãos trêmulas, Mariana colheu algumas ainda molhadas de tinta, fez um discreto buquê prendendo-as com uma mecha dos seus cabelos em forma de fitilho e foi até a casa de Pedro duas quadras e três passagens depois da dela.
Corujas e grilos silenciaram a cantoria enquanto ela pisava distraída nos tocos de velas com suas tristes e inúteis luzes.
Eugenio Asano
Enviado por Eugenio Asano em 07/09/2005
Código do texto: T48475
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Sobre o autor
Eugenio Asano
Guarulhos - São Paulo - Brasil, 59 anos
9 textos (340 leituras)
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