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Máscaras

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Beijou a mão. Os seios. A barriga. Foi descendo a avenida, nu. Chegou na infância, cortou a adolescência, tempo de gente bem nascida, ele não, pobre, trabalhador.  Enfiou nela toda a insanidade, já ia pelos sessenta. A dentadura vacilou na hora do rush, disfarçou.  Ela se contorcia.
O quarto cheirava a sabonete barato, os lençóis brancos se desgastavam sob os corpos lubrificados – suor, cremes, secreções, perfumes.  Abraçou-a: este é o melhor momento de minha vida, o mais é hipocrisia – as palestras, as aulas, as viagens, o casamento, não passam de condições materiais necessárias, sem desejos.
Corpos colados, êxtases clandestinos. Ela se entregou sem reticências. Fez algumas perguntas,  ignorou respostas ambivalentes. O tempo era pouco, uma vez por semana, às tardes, filosofias e futuros submetiam-se às emergências do toque. Penetraram-se bocas e sonhos. Na recepção, moças uniformizadas controlavam entradas e saídas, serviam bebidas e lanches nos apartamentos, o sol afetava mentes e peles expostas, morros verdes abrandavam o cenário de trafego intenso. Ela via no espelho do teto as paisagens que os circundava, as trilhas por onde se prometiam namorar breve, os filmes que assistiriam juntos, os livros que leriam abraçados -  deleites românticos. Ele prometia fidelidade e sinceridade, sem restrições. Mas às escondidas. Ela não compreendia o paradoxo. Chamem um filósofo!
Muitos tentaram dissuadi-la de  explicações, o homem é um bicho insano, e basta. Não aceitava, queria ouvir dele as verdades antes sussurradas. Mas ele desaparecera. Chovia muito então. Ruas alagadas, marasmo nos rostos molhados da avenida principal. Ela caminhava sem destino. Sabia que ele morava em frente  a uma praça antiga. Seguiu para lá, num impulso.  Subiu as escadas que davam para a portaria do prédio. O segurança avisou pelo interfone,  a empregada respondeu que viajavam pelo nordeste.
Deu as costas e saiu, apática. Gente, cães, gatos, carros, carretas, cavalos na praça. O coreto no centro aludia a barrocos remanescentes, pouco explícitos. Falta de aprofundamento no conhecimento das formas! Recordou-se dos tempos de alegria, quando apontava, com perspicácia, em cada pequeno objeto, a malícia que o concebera.  O rosto adquiriu tristeza ancestral que se espalhou pela noite, volúpia de poeta.
Cida Sepulveda
Enviado por Cida Sepulveda em 17/09/2005
Código do texto: T51394
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Sobre a autora
Cida Sepulveda
Campinas - São Paulo - Brasil
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