Pobre garoto

Ele andava agora mais rápido do que precisava e do que seu joelho machucado permitia. Não tinha um horário marcado e nem ninguém especial o esperando. Parecia um jovem nas roupas, pois bem, era um jovem. Tinha no máximo dezoito anos, mas seus olhos pareciam mais velhos que isso. Se um dia você o conhecesse, veria que suas palavras eram também mais velhas que a sua idade. Andava com pressa pra esquecer um pouco as complicações da vida moderna que ele não levava. Talvez esse jovem tivesse algo pra esconder, ou que apenas não merecesse ser contado. Algo que tornasse seu caminhar tão rápido e seu olhar tão velho e cansado. Em sua mente ele sabia, todo dia e todo momento, isso se passava em sua mente. Ele sabia muito bem... Pobre garoto.

Pobre garoto, empurrado para as mentiras do mundo como um garoto alemão empurrado para um metralhadora na Berlim nazista. Fizeram-no acreditar que tudo era fácil e simples, que a vida era algo tão vaga que poderia ser enfrentada com um manual, e que ele realmente tinha tudo que precisava para vencer. Pobre garoto, viu a primeira base que o sustentava ruir, enquanto seu pai saía pela porta da sala com todas as malas feitas, praticamente expulso da casa que ele mesmo havia construído. Pobre garoto, jovem demais para entender que a culpa do choro silencioso de seu pai era da mulher que ele mais amava, a mulher que o pôs no mundo. Afinal, que motivo ela teria para aquilo? Ele havia criado a filha dela com o mesmo amor e carinho que os filhos dele.

Pobre garoto, viu sua vidinha mudar tão novo. Que bom! Assim ele poderia se acostumar desde cedo com a realidade da vida e mais tarde tornar-se um adulto exemplar, responsável e bem sucedido. Não, claro que não. Ele só tinha sete anos.

Pobre garoto, jovem demais para entender coisas sobre homens e mulheres, pra entender que não foi só o seu plano de encontro que reuniu pai e mãe novamente. Pobre garoto, nunca esqueceu da noite de sexta-feira em que sua mãe o acordou e disse: "Filho, o pai voltou pra casa".

Pobre garoto, teve que fingir que não ligava quando dessa vez foi a mãe quem foi embora. Um pequeno caminhão para levar a mudança dela. Não teria sido seu pai quem pagara. Sua mãe não tinha dinheiro pra isso. Então, quem fora? Pobre garoto, bem lá no fundo já sabia a resposta. Pobre garoto, viu-se forçado a dizer que estava tudo bem, pois ele já tinha doze anos, era quase um homem. Pobre garoto, ouviu da boca cansada de seu pai que agora eles estavam sozinhos. Será que ele entendia o garoto?

Pobre garoto, viu-se forçado a aprender a fazer coisas que as mães de seus amigos faziam por eles. Não que isso faça mal para qualquer garoto, mas é meio constrangedor ter de voltar embora do campo correndo porque está chovendo e você esqueceu a roupa no varal.

Pobre garoto, por muito tempo enganou a todos, inclusive a si mesmo, que não se importava com o tipo de coisa que acontecia com ele. Sorriu mentirosamente quase a sua vida inteira. Cada sorriso como uma bala daquela metralhadora alemã perfurando e estraçalhando o corpo de um judeu, um inglês ou um soviético, um ser humano.

Pobre garoto, tinha por volta de dezesseis quando percebeu a falta que uma mãe fazia. Ainda bem que ele conheceu a Antônia. Garota linda, interessante e gostosa. Tinha um sotaque gaúcho mas era daqui mesmo. Seu abraço repunha toda a falta que uma mãe havia feito todo esse tempo. Pobre garoto, ficou dependente daquele abraço, daquele beijo, daquela voz, daqueles olhos... Ah! Que olhos ela tinha... Azuis como o oceano que ele não conhecia. Profundos como o universo à noite. Duros como dois diamantes.

Pobre garoto, por que não ficaria dependente dela? Ela era uma mãe jovem que ele nunca teve, e que ele podia beijar, e poderia tocar... Para ele aquilo era um final feliz. Antônia, primeira e única em sua vida, era o que poderia ter sido... Para ela, o sorriso dele foi verdadeiro. Pobre garoto, conseguiu um emprego pra ter grana para levá-la onde ela quisesse. Claro que ele faria isso! Por ela ele faria qualquer coisa. Por ela, que representava um novo começo na vida, uma nova chance de fazer valer aquele velho sonho de família feliz. Como um garoto alemão brincando de ser o Führer, acreditando no Terceiro Reich, ele acreditou em uma mentira. Seria cômico se não fosse trágico.

Mas é claro que isso não fora um final feliz, não fora nem um final, e esse tipo de coisa só acontece nos filmes do James Cameron. E a Antônia foi embora. E é claro que ela resolveu dizer isso a esse pobre garoto que os dois não dariam certo, que o final feliz dele era com outra pessoa, enquanto tocava lá no fundo, num rádio velho, aquela velha música daquela velha banda, Mother do Pink Floyd.

"Mãe, você acha que ela é perigosa para mim?"

(Ah! Ela é perigosa para qualquer um...)

"Mãe, você acha que ela é boa o suficiente para mim?"

(Ah! Boníssima, meu filho...)

"Mãe, ela vai rasgar seu garotinho em pedaços?"

(Ah! Claro que vai, por que não rasgaria?)

"Uh, mãe! Ela vai quebrar meu coração?"

(Já quebrou, filho, já quebrou...)

"Calma, bebê, não chore"

"Mamãe vai checar todas as suas namoradas pra você"...

(É, mamãe vai...)

Mamãe foi embora. Antônia também. Ele apenas continuou andando rápido. Um dia ele entenderá todo esse tipo de coisa, o por que elas ocorrem, como lidar com elas, como superá-las. Chegará o dia em que ele vencerá tudo isso. Eu espero, antes que esse joelho não aguente mais.

JANascimento
Enviado por JANascimento em 23/02/2015
Código do texto: T5147677
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