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AGENTE DE DÍVIDAS

Mais um dia em busca de emprego.Há oito meses, pelo menos, que estou a procura de um trabalho e nada, meu último emprego foi de calculista para uma dessas multinacionais da vida.Era um bom trabalho, bem remunerado, mas infelizmente, com os atuais programas de informática, não é preciso mais que um ou dois empregados para desenvolver planilhas completas.Mas continuando...
Era uma segunda de verão, daquelas de fritar ovo nos asfalto, saí eu em direção ao endereço indicado no jornal. Um escritório de cobranças que estava empregando “agente de convencimentos” (nunca tinha ouvido falar nessa função), não pedia experiência e eu estava precisando, qualquer coisa servia. Pois bem, lá chegando, fiquei bem impressionado com o lugar. Era um sobrado com quatro salas no andar de baixo e, ao que parece, somente a sala do dono, no andar de cima. Tudo muito bem arrumado, móveis aparentemente novos, todas as mesas com micro, um “luxo”.
Fui recebido por uma senhora bem simpática, que me pediu que eu aguardasse. Pegou meus documentos e levou para o Advogado, muito provavelmente, o dono do escritório. Uma hora depois, fui chamado e recebido por um homem, de uns 45 anos, moreno e muito bem trajado. Muito educado, perguntou-me sobre minha experiência profissional, nível escolar, além de se preocupar com o meu nível de sensibilidade, pois é, sensibilidade. Digo isso porque o Dr.Herculano (esse era o nome dele) me perguntou sobre poesias, crise do desemprego, pena de morte, mau atendimento em hospitais e muitas outras coisas afins. Falou-me do trabalho, que consistia em tentar convencer pessoas, endividadas, a pagarem suas contas amigavelmente, fazendo-lhes uma visita, em seus endereços familiares. Parecia simples, já que me considero uma pessoa
boa de papo, já havia trabalho como vendedor e sempre soube ser convincente em meus argumentos. Disse-me a proposta salarial, dois salários mínimos por mês, mais participação nos pagamentos efetivados, além de uma boa quantia a título de adiantamento para minhas primeiras despesas (vestuário, passagens,etc...). Pareceu-me perfeito, aliás, qualquer coisa seria perfeita na situação em que eu me encontrava. Não pensei duas vezes e aceitei o emprego, assinei lá a papelada e para surpresa minha, recebi de pronto o tal adiantamento. Na outra segunda, lá fui eu para o meu trabalho, de paletó e gravata e muita disposição. Lá chegando, recebi minha primeira missão, visitar uma tal senhora Hermínia, ela devia um bom dinheiro, mais precisamente, seis mil reais. A dívida fora contraída junto a uma grande loja de eletrodoméstico. Recebi como recomendação que eu usasse a seguinte frase para início dos trabalhos: “ NÃO SOU COBRADOR, SOU O SEU ANJO DA GUARDA” . Bem, aquilo me pareceu meio
ridículo, mas era novo na empresa e não estava ali para discordar do patrão. E lá fui para o endereço indicado, e como não poderia deixar de ser, bem longe, do outro lado da cidade. Chegando no dito endereço, encontrei uma casa bem simples, dois quartos pequenos, paredes descascando, móveis velhos..., Comecei a ficar preocupado. Fui recebido por um senhor de aproximadamente 75 anos, marido da devedora, me identifiquei e disse a tal frase  -“ não sou cobrador, sou o seu anjo da guarda” – e o pobre homem me convidou a entrar. Foi logo me oferecendo um café
– adoro café, mas não sei explicar o porque, mas não
aceitei. Ele me levou a um dos quartos e me mostroua uma senhora que dormia na cama,  era a dona Hermínia. Tinha uma aparência horrível, como se tivesse para morrer. Realmente estava bem debilitada. O velho me explicou a situação do casal. Seu único filho fora assassinado no ano
passado, era ele quem os ajudava , viviam da sua aposentadoria, que nem chegava a dois salários mínimos, ela nem isso tinha. Quase todo o dinheiro recebido por eles era gasto em remédios, já que a velha tinha
contraído um câncer e ele tinha sérios problemas de
coração e coluna, que o impediam de fazer esforços mínimos
e conseqüentemente de trabalhar. Ele falava e eu pensava em como cobrar a dívida. Que coisa, minha rimeira “missão” e eu sem saber o que fazer. Eu tinha recebido a instrução de somente negociar a dívida, no máximo em 3 parcelas, o que significava dois mil reais por mês. Por outro lado, fiquei curioso em como teriam chegado a um montante de seis mil, já que não via nada de eletrodoméstico dentro da casa. O velho disse que tinha comprado geladeira e fogão em parcelas, mas não pode pagar e o os juros se incumbiram do resto. O pior de tudo é que nem mesmo a geladeira e fogão tinham mais, pois a casa tinha sido arrombada e os
ladrões levaram quase tudo que encontraram. Meu deus, era muita desgraça para um casal. Lembrei dos meus pais, dos meus avós, eu simplesmente não sabia como cobrar aquela dívida. Já estava a ponto de voltar para o trabalho, pedir minha demissão e procurar outra coisa, quando o velho me disse que tinha recebido uma pequena quantia de herança, de um irmão seu, que morava no Ceara, aproximadamente uns
quinze mil reais. O dinheiro estaria disponível no final do mês, mas nem o da passagem ele teria para ir assinar a papelada e ir buscar a herança recebida. Nessa hora, o velho começou a chorar, o pior, a senhora que até então, estava dormindo, acordou e vendo o velho naquela situação, desesperou-se e junto com ela, eu também. Foi tragicômico, uma choradeira só, e nesse desespero tive uma idéia. Eu tinha recebido como adiantamento, dois mil e quinhentos reais. Poderia emprestar dois mil para os velhos e mais o da passagem, negociaria a dívida que eles tinham, motivo da minha visita,  em três vezes sem juros, foi o que disseram na empresa, e quando o velho recebesse, tudo estaria resolvido. Pagaria a mim e a empresa e ainda sobraria para eles. Mais calmo, conversei com os dois sobre a minha idéia. Foi inacreditável, eles choravam e sorriam ao mesmo tempo, eu também me comovi e de certa forma, fiquei orgulhoso de mim mesmo. Bem, assim foi feito. Voltei para o escritório com a proposta assinada
pela velha, o pagamento da primeira parcela e ainda recebi os elogios do próprio dono, Dr, Herculano. Naquele dia, fui para casa me sentindo o próprio Jesus Cristo. Pois é, esqueci que Jesus foi crucificado, e no final do mês, fui visitar os velhos, saber como ia a saúde da dona Hemínia e cobrar o empréstimo feito por mim. Agora a situação era outra, estava tranqüilo e certo que não encontraria mais aquela desgraça da primeira vez. Bati na porta e nada, bati várias vezes e ninguém me recebeu. Fui ao vizinho e qual não foi a minha surpresa. Ele me informou que aquele casal tinha se mudado naquela semana, e causaram curiosidade e até mesmo desconfianças, pois no dia seguinte em que chegaram,começaram a receber visitas, sempre duas ao dia, uma pela manhã e outra a tarde, sempre homens bem vestidos e que eu, tinha sido o último.
No outro dia após a minha estada lá, os velhos se foram, sem falar com ninguém. Não sei explicar o que se passou pela minha cabeça naquele instante. Revolta, decepção, sei lá, tudo ao mesmo tempo. Não sabia o que fazer, onde procurar o casal, o que dizer na empresa, já que o mês não foi bom, recebi poucas cobranças e não tinha efetivado nenhuma, e ainda teria que pagar algumas coisa,
relativo ao adiantamento que recebi. Bateu em mim um desespero, uma vontade incontrolável de chorar e foi exatamente o que fiz, sentei no meio fio e chorei..., Muito. Passada o primeiro instante, resolvi voltar para a empresa e dizer toda a verdade para o Sr, Herculano, ele me pareceu uma pessoa bondosa, razoável, saberia me entender e estender o prazo de pagamento do adiantamento até que eu começasse a receber minhas comissões. Assim eu fiz, expus tudo ao dono da empresa, que me ouvi em silêncio. Quando eu terminei de falar, ele se levantou, acendeu um charuto e disse que eu ficasse tranqüilo, que essas coisas acontecem e coisa e tal. Falou que eu fosse para casa, até porque vários clientes tinham rescindido o contrato com a empresa e que ele estava no momento, com agentes demais. Me disse que aquilo não era uma demissão, até porque eu ainda estava em experiência e nem a carteira ainda tinha assinado, mas que logo a coisa se normalizasse eu seria chamado novamente. Quanto a minha dívida, ele iria pensar uma maneira de como resolver o problema.
Fui para casa arrasado, desacreditando de tudo e de todos. Passados dois meses e nada, fui a empresa umas oito vezes e não consegui ser recebido pelo dono e sempre me diziam a mesma coisa, você será chamado em breve e não se preocupe com a sua dívida. Dos velhos, não consegui levantar nada, ninguém os conhecia, nem mesmo a empresa me fornecia os dados, apenas diziam que teriam informado aos órgãos competentes. Até pensei em ir a polícia, mas não tinha como provar nada, foi tudo na confiança, nada assinado, que droga!! Alguns dias depois, qual não foi a minha surpresa, quando pela manhã, bateram a minha porta. Fui atender, era um jovem, bem arrumado, paletó e gravata, se identificou e foi logo dizendo: -“ NÃO SOU COBRADOR, SOU O SEU ANJO DA GUARDA”...
Jose Carlos Cavalcante
Enviado por Jose Carlos Cavalcante em 06/12/2004
Código do texto: T553
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Sobre o autor
Jose Carlos Cavalcante
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Jose Carlos Cavalcante