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Hipóteses

Era uma vez uma vila chamada Hipotética. Nesta vila viviam diversos moradores (hipotéticos), com todos os problemas comuns de todos os dias, mas eles eram relativamente felizes. Caçavam, pescavam, plantavam, cantavam e viviam normalmente. Ocasionalmente envolviam-se em disputas e brigas por ganância e mesquinharia, mas estas eram raras.

Até que um morador começou a fazer algo que nunca fora antes feito com muita freqüência: perguntas. Seu nome era Estereótipo, e graças a sua grande capacidade inquisitória em pouco tempo ele tornou-se conhecido como a pessoa a quem deveriam recorrer em caso de dúvidas, pois além de perguntas, ele buscava incansavelmente por respostas.

Eis que, certo dia Estereótipo foi visitado por três aldeões com perguntas esquisitas. Por que existimos, de onde viemos, para onde vamos, é bonito lá? Estereótipo, que até então nunca havia se preocupado com essas questões, voltou-se para a mulher que aparentemente os liderava:

- Minha cara senhora, qual seria seu nome?

- Metafísica. E estes ao meu lado são Mero Figurante e Vaca, de Presépio, mas eles não são de falar muito, por isso me pediram para vir até aqui.

Estereótipo esfregou a longa barba grisalha, avaliando se teria condições para responder às perguntas de Metafísica. Pensou mais um pouco, e então exclamou, irritado:

- Eu não sei, pombas!

Os aldeões saíram correndo, envergonhando o velho Estereótipo, que naquele momento decidiu que não daria mais as costas às perguntas de Metafísica. Imediatamente colocou-se a pensar, estudar e resmungar. Dias depois, sem encontrar as respostas que buscava por conta própria, decidiu retirar-se até um monte próximo, onde meditaria em jejum até encontrar explicações para as questões propostas. Sentou-se embaixo de uma árvore frondosa por dias, semanas. Os hipotéticos começaram a ficar preocupados com o destino de seu sábio, que definhava a olhos vistos.

Mas ele não morreu. Num dia especialmente chuvoso, retornou à vila e chamou todos os habitantes para uma reunião. Lá, refeito após um farto banquete, bradou aos ventos:

- Eu tenho as respostas para as questões de Metafísica! - Pausa dramática, esfregando as mãos e sorrindo com o canto da barba. - Somos criação de uma divindade assombrosa, uma criatura tão sábia e poderosa que não só criou todos nós, mas também todo o mundo, o céu e as estrelas. E ele pessoalmente me explicou de onde viemos, para onde vamos e porque estamos aqui. É por isso que voltei, para redigir estas instruções, para que sejam seguidas por todos nós.

- E qual o nome dessa divindade? - perguntou Cético, pouco satisfeito com a explicação.

- Ele não tem um nome terreno, mas creio que podemos considerá-lo um dos nossos. Desta maneira, podemos chamá-lo, a partir de hoje, de Deus Hipotético.

A vila, com exceção de Cético, que ainda não estava completamente satisfeito, exultou e uma grande festa se seguiu. Estereótipo levou meses para finalizar o que chamou de Evangelhos Hipotéticos, e rapidamente aquelas palavras se tornaram verdades absolutas, afinal, haviam sido ditadas pelo Deus Hipotético em pessoa! Os ensinamentos de Estereótipo traziam a chave para a felicidade não só terrena, mas também celestial, e os cidadãos hipotéticos os seguiam à risca.

A vila prosperou nos anos seguintes. Estereótipo, que já não era nenhum moço, adoeceu e caiu de cama. Seu jovem aprendiz, Coadjuvante, cuidou dele o tempo todo. E quando estava às portas da morte, Estereótipo chamou-o ao pé de seu leito.

- Sim, mestre?

- Coadjuvante, já é hora de você tomar conta de tudo. A mensagem foi passada, e só tenho mais um ensinamento a transmitir antes de minha morte.

- Sim, o que é mestre? - perguntou ele, ansioso.

- É tudo mentira! Nunca falei com porcaria de divindade nenhuma. Nada do que está escrito nos evangelhos hipotéticos é verdade. Eles precisavam de respostas que eu não podia dar, e simplesmente inventei-as. E eles ficaram felizes com minhas mentiras, e pude manipulá-los para alcançar a paz que tanto prezamos. É hora de você continuar com essa história. Abandone o nome que tens, e adote um novo. A partir de hoje, deixas de ser Coadjuvante, e torna-se Protagonista.

E o velho Estereótipo morreu naquele momento. O recém nomeado Protagonista pensou ao lado do leito de seu mestre por bastante tempo, meditando a respeito do que acabara de ouvir. Dias depois, saiu da casa, e convocou nova reunião.

- O velho Estereótipo morreu, mas em seu leito de morte recebi a visita do Deus Hipotético em pessoa e ele me nomeou o seu sucessor. Portanto, a partir de hoje, sou eu o Novo Estereótipo, o representante terreno do Deus Hipotético.

E como primeira medida, Protagonista revisou os Evangelhos Hipotéticos, adequando-os à nova realidade. Criaram-se assim os Evangelhos Estereotipados, que alguns (liderados principalmente pelo filho de Cético, Crítico) viram como um veículo para que Protagonista tivesse mais poder, mas eram uma minoria, e logo suas vozes foram abafadas. Em poucos anos a Instituição criada por Protagonista já englobava não só a vila Hipotética, mas também todo o Vale da Hipótese (formado pelos asseados hipoalergênicos, pelos glutões hipopótamos e pelos enormes hipotálamos). E sua palavra era lei, mesmo quando poucos entendiam suas razões. Protagonista enriqueceu e prosperou, mesmo sua terra ficando cada dia mais empobrecida e abandonada. Mas a isso ele retrucava:

- De que adianta uma fartura nesta terra, se o que realmente interessa é a eternidade ao lado de nosso querido Deus Hipotético?

E a maioria aceitava esse destino. Com o crescimento desenfreado do número de fiéis, hipotéticos ou não, o Novo Estereótipo logo tratou de nomear ajudantes  entre os que provavam sua verdadeira fé mais
fervorosamente, que ele chamou de Ortodoxos. A eles era dada a missão de converter os infiéis (ou Heterodoxos), por bem ou por mal. Foi uma época triste, com muitos supostos Heterodoxos sendo torturados e mortos (Cético e seu filho Crítico não escaparam, assim como seus primos diretos, Racional e Coerente).

Até que, certo dia, um rapaz com idéias novas surgiu. Seu nome era Metafórico. Ele era um cidadão hipotético vindo da classe trabalhadora, estereotipado como todo o resto. Mas quando chegou na idade madura, percebeu que algo estava errado, que havia algo ruim na verdade proferida pelos Estereotipados. Começou a juntar pessoas que pensavam como ele e caminhou pelas vilas espalhando sua palavra de revolta. Infelizmente, foi preso pelos Ortodoxos, graças a uma traição de Expiatório, um de seus seguidores mais fervorosos. Após um curto julgamento, foi torturado e morto.

Usurpador, outro dos seguidores, percebeu que poderia utilizar a figura de seu antigo líder para revolucionar a história. Juntou-se a outros antigos seguidores, e começou sua pregação, fugindo para terras onde o poder dos Estereótipos ainda não havia chegado. Lá, Usurpador e os outros escreveram a história de seu mestre, seu mártir, e assim surgiram os Evangelhos Metafóricos, que seria a base para a nova Instituição que se seguiria.

Com o passar dos anos, Estereotipados e Metafóricos se espalharam pelo mundo conhecido. Tiveram contato com outros povos, que imediatamente consideraram novos Heterodoxos, cada um à sua maneira. Guerras se seguiram, com milhares de mortos. Os Estereotipados acabaram expulsos do Vale da Hipótese pelos Beligerantes, antigos proprietários daquelas terras, e sua guerra se estende por séculos.

Alheios a isso, os Metafóricos continuaram a crescer. Eventualmente seus seguidores acabaram por cometer os mesmos crimes que vitimaram seu mártir, mas poucos se importaram com isso. Descendentes do Usurpador original perceberam que haviam grandes falhas nos Evangelhos Metafóricos, e histórias que não deviam ser ditas, pois contradiziam seus interesses mais diretos. Por essa razão reescreveram os textos, criando o Novo Evangelho Metafórico, revisado e com diversos cortes (o maior dele foi o capítulo escrito por uma discípula ferrenha, Apócrifa, que alegava ter tido um caso tórrido com Metafórico). E, graças a um período onde apenas os líderes metafóricos sabiam ler e escrever chamado Idade Excessivamente Romantizada, a idéia funcionou. Os Metafóricos enriqueceram e devido a isso diversos grupos dissidentes surgiram (primeiro os Reclamantes, que queriam uma parte dos lucros para eles, depois os Fantasmagóricos e os barulhentos Hipócritas), graças aos cada vez menos claros Evangelhos Metafóricos.

Os Estereotipados, por sua vez, mesmo sofrendo uma perseguição ou outra, também prosperaram. E a história continua, e poucos se recordam dos tempos antes das idéias hipotéticas, estereotipadas ou metafóricas, onde todos eram felizes, mesmo apesar dos problemas, pois ninguém tinha que responder às pertinentes questões de Metafísica com mentiras e invenções.

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Alexandre Heredia é co-editor do NecroZine (http://www.necrozine.blogspot.com/), e mantém os sites Psicopata Enrustido (http://www.psicopataenrustido.blogspot.com/) e Antelóquios (http://www.anteloquios.blogspot.com).
Alexandre Heredia
Enviado por Alexandre Heredia em 08/03/2005
Reeditado em 05/04/2005
Código do texto: T6003
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Sobre o autor
Alexandre Heredia
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
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Alexandre Heredia