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Rigor Mortis

Matheus morreu.

Diferente de sua vida, sua morte foi relativamente tranqüila. Morreu deitado, velho e impotente, do jeito que sempre disse que não iria acontecer com ele. Melhor morrer jovem comedor do que velho brocha, costumava dizer.

O mais engraçado é que nada daquilo que diziam que ocorreria naquele momento realmente aconteceu. Nada de anjos, trombetas, amigos ou mesmo um São Pedro bonachão. Nem mesmo um reles túnel com luz no final. Nada. Ele permanecia consciente. Tão consciente que sabia que havia morrido.

Dona Zefa foi a primeira a encontrá-lo naquele estado. Atrasada de novo, a bestalhona. Talvez se chegasse na hora certa para variar ele teria conseguido ir até um hospital. Mas não importava mais. Sabia que era sua hora. Para falar a verdade, até achava que tinha feito hora extra.

A cretina gritou como se tivesse visto um fantasma. Derrubou o copo de vidro com água de empurrar remédio. Cortou o pé, que insistia em calçar chinelos de dedo puídos. Saiu correndo toda destrambelhada.

Matheus riu. Quer dizer, ele pensou que riu, pois sua face estava tão imóvel quanto antes. Se a visão de seu cadáver havia assustado tanto aquele tonta, que sempre queimava sua comida e deixava a casa um chiqueiro, já valera a pena ter morrido.

Algum tempo depois chegou um médico. Magro de doer, cabelos com brilhantina, penteados de maneira a esconder a careca acentuada. Pegou seu pulso, auscultou o coração, e confirmou o óbvio. Passou a mão no rosto de Matheus, fechando seus olhos.

A escuridão se apossou. Matheus não se importava. Estava morto mesmo! Um hora iria aparecer alguém e retirá-lo daquele corpo. Tinha esperança que fosse um anjo, mas o mais provável é que seria um demônio. Tanto fazia. Matheus não estava pronto para se arrepender de sua vida. Não ainda.

Momentos depois ouviu o ruído de motor. Devia estar no rabecão, indo para o IML. Nunca gostou daquele lugar. Foi obrigado a ir até lá só duas vezes, para reconhecer os corpos de seu amigo afogado e de Marinalva, que havia se matado ainda grávida de seu filho. Por sua causa. Disse a si mesmo que só voltaria lá quando morresse. E aquela era a hora de cumprir a palavra.

Foi colocado em uma maca cujas rodas precisavam urgentemente de lubrificação. Em seguida parou, e seu corpo transladado para outra maca. Uma luz intensa brilhou sobre suas pálpebras cerradas, e ele pensou que finalmente havia chegado sua hora. Mas não, era apenas a luminária da mesa do legista sobre seu rosto.

- Indivíduo Matheus Batista Gonçalves, cinqüenta e oito anos, caucasiano. Hora provável do óbito...

Blá, blá, blá técnico e maçante. Matheus sentiu vontade de fumar um cigarro. Ou tomar um conhaque no Bar do Orelha. Não sabia como, mas seus vício aparentemente sobreviveram à morte. Onde estão esses malditos anjos, porra?

- ... pronta para começar a autópsia?

- Pronta, doutor.

Ei, autópsia? Que história era aquela? Matheus nunca foi fresco com sangue. Quando era moleque costumava enfiar bombinhas no rabo de gatos só por diversão. Mas ser fatiado como um frango não era uma idéia nada divertida. Anjos! Demônios! Alguém!

- Hum, doutor?

Uau! Que gostosa!

- Sim?

- Os olhos dele abriram!

Era verdade. Matheus ficou tão extasiado pela visão daqueles seios apertados no jaleco decotado que nem havia percebido que conseguira abrir os olhos. Que hora para isso! Ia testemunhar a própria autópsia!

- É uma reação normal. Impulsos nervosos. Morte recente. Se acalme e me passe o bisturi...

Matheus não sentiu a lâmina cortar seu tronco longitudinalmente. Na verdade não conseguiu olhar para nada além dos peitos da auxiliar até que sua visão foi bloqueada por suas próprias costelas, que se abriram como um armário antigo.

- Fígado, rins e pâncreas imprestáveis (ploft, pleft, pluct), pulmões idem. O coração está inchadíssimo. Provável causa mortis: ataque cardíaco.

Dã, biduzão! E ainda te chamam de médico?

- Doutor, parece que ele está olhando para mim...

- É impressão, fique sossegada. Vamos fazer uma pausa. Vem cá...

- Ai, doutor...

Isso! Gostosa! Mostra esses peitinhos pra mim, mostra! É o último desejo de um morto. Só um peitinho... Maravilha! Agora a calcinha... Ei, babaca, tira esse bundão branco da minha cara! Beleza, assim. Nossa, que delícia! Nota dez!

- Hum, doutor...

- Fala, o que foi agora?

- Eu acho que aquilo já não é reação nervosa, não...

Matheus já podia ir feliz. Podia ter morrido um velho inútil, mas não brocha. Ah, isso não!

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Alexandre Heredia é co-editor do NecroZine (http://www.necrozine.blogspot.com/), e mantém os sites Psicopata Enrustido (http://www.psicopataenrustido.blogspot.com/) e Antelóquios (http://www.anteloquios.blogspot.com).
Alexandre Heredia
Enviado por Alexandre Heredia em 08/03/2005
Reeditado em 05/04/2005
Código do texto: T6044
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Sobre o autor
Alexandre Heredia
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
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Alexandre Heredia