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Problemas de consciência

_Vai pro seu quarto, moleque! E não sai daí até amanhã!

Júnior entrou em seu quarto como se nem tivesse ouvido. Suas roupas pretas, cabelos compridos e sujos, e variedade de piercings faziam a loucura de sua mãe. Ela acabava de colocá-lo de castigo por saber que ele planejava ir a um show de rock aquela noite, sem sequer avisá-la.

_Mulher chata! Liga não, ela ainda não pôs barras na sua janela, é só pular.

Qualquer outro levaria um choque se um pequeno demônio surgisse em seu ombro e lhe falasse diretamente, mas Júnior estava acostumado. As estatísticas o haviam premiado como sendo parte do 0,0001% das pessoas capaz de conversar com seu anjo e demônio da guarda. O que a princípio lhe pareceu delírio das drogas que usava, tornou-se apenas cotidiano.

_Podes crer, maluco _respondeu. _Nada me prende essa noite.

_Tsc! Você já pensou que sua mãe pode entrar nesse quarto e, não te vendo, ficar desesperada? _um anjo igualmente pequenino surgiu no outro ombro.

_Ah, não enche, Thiago!

_É, deixa o garoto, não é por que você não tem sexo, que tem que obrigar o menino a não ter também!

Os dois começaram a rir. A paciência angelical de Thiago, que começara a apresentar sinais de desgaste nos últimos dias, acabou.

_Ah, não tenho sexo, é? Vocês querem ver se não tenho mesmo? _fez menção de levantar a túnica.

Júnior e Bruno (o demônio, garoto desregrado que morreu em um racha) pararam de rir e o olharam, espantados. Ficando cada vez mais vermelho, o anjo arrancou sua auréola e a atirou no chão.

_Que *** é essa, ô da asinha?

_O que acontece é que eu estou farto! Maldita hora em que fui querer mostrar pra todo mundo que eu era capaz de suportar uma missão difícil e fui ser anjo de um adolescente mimado, que vai na onda de qualquer idiota que aparece! Eu podia ter sido de uma garotinha adorável que adora projetos sociais, mas nããão, tinha que bancar o bonzão! Cansei! Vocês venceram! _bateu palmas duas vezes e trocou seu visual para um com muito mais preto e metal que o de Júnior, tornando-se da altura do garoto. _Vamos para o tal show, vamos beber, nos drogar, transar com pessoas que não significam nada para nós, vamos fazer a coisa do seu jeito!

Passando das palavras à ação, Thiago pulou a janela e intimou-os:

_E aí, vão ficar me olhando com essas caras de idiotas ou vão vir?
Ainda estranhando, Júnior imitou-o, com Bruno voando em seu ombro, ressabiado.

_***...

Os três se encaminharam para o show.  Lá, Júnior não só ficou pasmo de ver que Thiago era visto por seus companheiros, como logo sofreu o dissabor de notar algumas de suas melhores “ficantes” querendo “conhecer melhor” o tal garoto.



Mulheres, música alta e drogas. Precisa de mais alguma coisa para alguém ficar destruído na manhã seguinte? Júnior nunca soube como chegou em casa, só que não fora graças ao seu demônio (seu contrato o proibia de fazer alguma caridade) e muito menos ao seu anjo: Thiago estava tão chapado que não conseguira manter o disfarce humano e dormia, babando nas asas.

A cenas se repetiram no segundo dia. No terceiro, a mãe de Júnior deu um faniquito: seu DVD simplesmente desaparecera.

_VOCÊ NÃO VENDEU ELE PRA COMPRAR ALGUMA PORCARIA, VENDEU?! _esbravejou para o filho.

Júnior poderia ter dito “Não fui eu, mãe, foi meu anjo da guarda.”, mas, mesmo não sendo lá muito esperto, achou que a verdade soaria extremamente estúpida. Em apenas três dias, Thiago passara por várias etapas do vício e já usava doses perigosamente altas para seu corpinho.

Ao ser posto (mais uma vez) de castigo, Júnior encontrou seu anjo calmamente preparando-se para espetar uma seringa no braço.

_Thiago! Você não acha que está exagerando? É muito...

_Cuida da sua vida! Eu sei o que estou fazendo. Já se esqueceu que eu fazia Farmácia antes de morrer?

_Mas...

_Não vai me acontecer nada... Não aconteceu nada com você ainda, aconteceu?

Sem esperar a resposta do protegido, Thiago injetou tudo de uma vez. Primeiro, soltou um longo suspiro de satisfação. Depois, começou a gemer e a se contorcer em ritmo cada vez mais acelerado, até parar de vez. Desesperado com a total imobilidade do anjo, Júnior agarrou Bruno pelos ombros:

_Será que ele morreu??‼

_...

_...

_Vou fingir que não ouvi essa.

_Hã... É melhor, mesmo... Mas o que a gente faz?

Não deu tempo de Bruno responder. A auréola de Thiago começou a brilhar até que dois anjinhos entraram pela janela. Um deles examinou o enfermo e o outro voou até o garoto.

_Pedimos desculpas pelo transtorno, mas estamos sem anjo substituto. Favor ser um bom garoto até que ele esteja em condições de voltar. Obrigada e boa noite.

Assim que eles saíram, Bruno comemorou.

_Yeah! Agora somos só nós dois, garoto! ‘Bora pro show!

_Acho melhor não... Cara, eu tô sem anjo da guarda! E... Sei lá, cara... Podia ser eu...

_Cê é um frouxo, mesmo! Tá bom, eu vou sozinho!



Bruno voou para o show daquela noite, mal podendo acreditar em tudo o que acontecera. No meio do caminho, foi surpreendido por alguém que ia calmamente pelo mesmo caminho.

_Thiago?!

_Bruno! Que prazer em ver que está sozinho!

_Mas como... Você não...?

_Bah! Você sabe que anjos não são afetados por drogas.

_Cara, então... Você passou mesmo o moleque pra trás?!

_Prefiro o termo “tratamento de choque”. Se seu anjo tivesse feito isso com você, duvido que hoje você teria chifres.

_Você é muito *** mesmo... Mas por que tá indo pro show se era fingimento?

_Posso não ter sexo, nem ser afetado por drogas. Mas, bolas, não sou surdo! O som daqueles caras é maneiro... Vamos ou você vai ficar bancando o meu Pai?

Bruno deu de ombros. O mundo tava perdido, mesmo.

As duas figurinhas voaram até sumir na noite. Júnior só teria seus guardiães de volta no fim da temporada de shows.
Strix Van Allen
Enviado por Strix Van Allen em 27/08/2007
Código do texto: T626772
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Sobre a autora
Strix Van Allen
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 29 anos
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Strix Van Allen