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A brincadeira

   Era de se esperar que a tempestade viesse antes do cair da tarde. As gotas perfuravam o solo arenoso depois da estiagem de dois meses. Da janela, a violência do vento castigava a natureza fria da cidade, arrancando portas e telhados e inclinando estruturas há muito roídas pelo tempo. A praça, no entanto, permanecia calma como se não afetada pelo espetáculo horrendo, o que me levou a pensar que fosse protegida por algum toldo invisível. Um grupo de crianças brincava tranqüilamente com uma bola e, por vezes, parecia que soltavam gritinhos. Insisti na idéia de abrir a vidraça e lhes chamar a atenção. Mas desisti e continuei observando a indiferença daquela turma de infantes raquíticos. Um deles tropeçou nas próprias pernas, quando quis girar, mas segurando firme a bola com se fosse um brinquedo raro. Os demais riram desesperadamente e achei que morreriam. Depois sossegaram, assim que o desastrado levantou-se e desferiu uma punhalada numa menina toda de azul, fazendo-a cair como uma pedra no chão enlameado. Fizeram todos um breve silêncio e retomaram a brincadeira de bola. Contorci-me. Quis quebrar a janela e saltar por ela a fim de punir o assassino; e não sei ainda por que não o fiz, acho que o bom senso me petrificou; seria demais me pôr como juiz de um crime aparentemente tão banal. Melhor seria manter preso o ódio injustificável e observar mais atentamente a brincadeira. A chuva chegou ao seu auge, e lanças finas de água eram arremessadas do alto com fúria. Mais dois meninos já estavam caídos no chão, sem vida. Um deles completamente mutilado. Em pé, nervosos, três garotos ainda jogavam a bola com velocidade um ao outro. Uma faca reluziu. Uma degola. Dois apenas. A regra do jogo era simples: a bola cai e nasce um morto. Por fim, o mais alto e magro venceu. Quebrei o vidro quando a chuva cessou. O garoto me olhou espantado, mas sorriu. Éramos, agora, o vencedor e o espectador naquele mundo desolado. A paisagem abriu sua natureza surda e fria. Bati palmas sem conter as lágrimas de orgulho. Tive uma enorme vontade de abraçar aquele pequeno animal e carregá-lo nos ombros. Ele, aos gritos, respondeu-me erguendo a bola sobre a cabeça, sacudindo-a várias vezes, até deixá-la cair.          
Tom Lazarus
Enviado por Tom Lazarus em 05/09/2007
Reeditado em 01/11/2007
Código do texto: T639469

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Sobre o autor
Tom Lazarus
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 38 anos
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Tom Lazarus