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Um Pirilampo do outro mundo

                 UM PIRILAMPO DO OUTRO MUNDO-II

Izaltino flutuava sem rumo e em câmara lenta, na imensidão de um mundo desconhecido. Pairava sob uma neblina espessa sem que pudesse deslumbrar alguém, ou qualquer coisa ou que pudesse lhe servir de companhia, naquele ambiente assustador e de quietude sepulcral.

Naquele lugar não havia uma viva alma para lhe fazer companhia ou para bater um papo mais descontraído, ou mesmo para obter informações porque se encontrava naquela lugar, ou o que fazia ali naquele ambiente tão assustador. Não! Tudo estava muito confuso!

De vez em quando tentava passar a mão pelo corpo e não achava nada.  “Não é que devo estar morto mesmo”?  “Tô mortinho da silva, não tenho mais corpo, ele não está aqui, tô levíssimo, acho que sou apenas uma alma, porque alma não tem corpo"...

Izaltino estava se sentindo frustrado e ao mesmo tempo revoltado com a situação. Mas a dúvida persistia, não tinha certeza se estava vivo ou se estava apenas sonhando. Não! Claro que devia estar morto.
 
O lugar em que se encontrava era bastante diverso do mundo que sempre imaginava quando vivia. Pensava encontrar no outro lado, um lugar alegre, bonito e cheio de almas passeando, conversando, alegres e felizes, rezando ou cantando, anjos com suas asas brancas tocando harpas para alegrar o ambiente....

Izaltino gostaria de reencontrar alguns de seus parentes, que já haviam ”embarcado” antes dele e que, naturalmente deveriam vir ao seu encontro para recebê-lo e abraçá-lo carinhosamente; anjos que viriam voando para levá-lo até Deus... Mas nada disso estava acontecendo. Nem pelo menos, alguma alma para levá-lo ao seu alojamento, ou então a algum lugar do paraíso para se recompor da viagem. Depois de descansado, procuraria uma praça, onde naturalmente, reuniriam as almas mais fofoqueiras, com quem ele pudesse conversar e contar as últimas novidades da terra... Porém, nada disso encontrou a não ser aquele ambiente horrípilante.

 Ah! Ele Teria muito assunto para contar. Falaria da corrupção, que se multiplicava constantemente, da pobreza, da miséria e da fome.  Falaria também do “PT” que “desviou” o pobre dinheirinho do povo para os cofres do seu partido, para eleger seus companheiros candidatos. Falaria do Corinthians, que continuava sempre o mesmo, ora fazendo chorar de alegria, ora de tristeza. Também, não podia deixar de falar das numerosas religiões presididas pelos “missionários enviados por Deus”, todos "bonzinhos e dedicados" e cada vez mais aumentar o seu rebanho, para rechear seus cofres e mandar para Deus. Até canais de televisão e estações de rádio são comprados por eles, com a finalidade de melhor expandir a palavra do Senhor, fazer milagres por atacado, curar doenças incuráveis, e rechear os cofres de Deus. Para isso, é claro que recebiam altos salários, afinal, não é fácil convencer alguém de que do outro lado do mundo existe um paraíso. É... teria muitas novidades pra contar...

Na verdade, Izaltino estava muito revoltado com as propagandas enganosas da sua igreja. Havia comprado um terreno no “Paraíso”, em local privilegiado, com vistas para a casa de Deus, com linda paisagem. Porém, não encontrou nada disso e nem teve a recepção que julgava merecedor como filho de Deus que era.  Logo ele, que sempre cumpria rigorosamente com seus compromissos religiosos... Nunca deixava de pagar o dízimo e, até de vez em quando, dava algum por fora, porque lhe diziam que quem desse mais teria mais privilégios no outro mundo...

 Nos cultos era ele que sempre cantava bem alto e orava junto com os irmãos de fé. Sua presença na Igreja era garantida pelo menos três vezes na semana... “Ah! Isso não vai ficar assim, já que estou morto, vou fazer um rígido protesto junto a Deus para reclamar todos os meus direitos ou então, quero voltar imediatamente para a Terra, certamente, Ele vai resolver o meu assunto”.
Porém, havia um problema: onde encontrar Deus? Não enxergava ninguém para pedir informações... Tudo estava muito confuso... Como defender meus direitos”?

Enquanto Izaltino estava nessa confusão de pensamentos, avistou uma pequena luz piscando no meio da neblina. Logo pensou: “Seria um vaga-lume? Não sabia que os vaga-lumes também vinham para estas bandas... “Bem, pelo menos tenho companhia” .
Ao se aproximar dele, o vaga-lume o cumprimentou:
_ Olá!  Você é novo por aqui?
_ Na verdade, nem sei.  Não sabia que por estas bandas os vaga-lumes falavam...
O suposto vaga-lume deu uma risadinha e disse:
_ Não sou vaga-lume, sou uma alma igual a você.
_ Então você também é gente, quero dizer, alma de gente?
_ Exato, o que procura por estas bandas?
_ Procuro Deus, ou algum departamento de reclamações. Quero falar umas “boas” para Ele e reivindicar os meus direitos.
_ Eu também queria só que é muito difícil, até já desisti. Mas consegui falar com um santo. Pra falar com Deus, antes de tudo tem que passar por uma rigorosa investigação sabe como é. Ele anda sempre ocupado com o pessoal da terra, que não lhe dá sossego.  A todo o momento Ele é invocado para ajudar alguém. Aqui, só os casos mais sérios é que são examinados por Ele.
_ Então, como fazer?
_ Existe um Departamento de ouvidoria chefiada por um santo e, conforme o caso ele mesmo resolve, se for complicado, ele encaminha para Jesus. Deus é a última instância, além de Jesus, só os Santos graduados é que podem se aproximar dele.
_ Jesus?! Isso mesmo! Já estava esquecendo de Jesus! Quero falar  com Ele, deve ser mais fácil, na minha igreja vivíamos gritando o nome dele; ele deve se lembrar de mim...
_ Calma, não é assim que funciona. Primeiro você tem que passar pelo Santo chefe, só se ele não puder resolver o problema é que você será encaminhado para Jesus, que é a instância anterior a Deus.
_ Será que não tem um jeitinho de ir direto a Ele, sem passar pelo santo? Entende, né?...
_ Você é brasileiro?
_ Como adivinhou???
_ Intuição... Mas o fato é que Jesus está sempre cercado de seguranças e ninguém se aproxima dele, a não ser que seja conduzido por uma equipe de guardas com “recomendações expressas” dos santos. Sabe como é: “gato escaldado”...

 Outra coisa, antes de tudo você deve ser cadastrado pelo Santo, segundo-secretário do Santo-Chefe. Somente depois disso você será encaminhado a outro departamento para apresentar-se ao Santo primeiro-secretário, que é incumbido de ler sua ficha da Terra, e suas pretensões. Somente depois da análise de sua ficha, você poderá ser conduzido ao Santo-Chefe e falar com ele.

_ Como é feito tudo isso, se aqui não tem nenhum papel ou computador?
_ É simples, tudo está gravado na sua mente, você já sai da Terra com uma ficha mental de sua vida; ao chegar aqui, em cada departamento que passar sua ficha será carimbada com um “OK” virtual, acrescentadas a ela todas as suas pretensões. Você não precisa preencher nada e nem assinar coisa alguma. Não é tudo muito prático? A burocracia daqui não é tão complicada como da Terra.
_ Pôxa! Não é complicada???... E como sabe de tudo isso?
_ Porque já passei por todos esses procedimentos para reivindicar minha volta a Terra, mas cheguei só até ao Santo-Chefe.
_ E conseguiu alguma coisa?
_ Sim, mas só para daqui a mil anos terrestres, equivalente a dez anos neste mundo.
_ O que!!! Mil anos? Até lá, já não encontrarei mais ninguém conhecido. Aonde você reside, ou melhor, flutua?
_ Muito distante daqui, em local próprio para as almas que aguardam o regresso à Terra. A vantagem é que lá você pode fazer amizades e bater um papinho agradável.
_ Entendi. Sabe quanto tempo poderá levar até chegar ao Santo-Chefe?
_ Com sorte, de cem a duzentos anos terrestres, a fila é muito grande.
_ Noossa! Tudo isso??? Eu pretendo voltar logo para resolver alguns assuntos por lá e além do mais, não estou gostando nada deste lugar.
_ Você não é o único. A maior parte das reclamações é para reivindicar a volta para a Terra, mas uma volta urgente, só Deus pode resolver mas até chegar até Ele... Só se você tiver um bom cartucho.
_ Não estou entendendo.
_ Ora, isso na Terra é muito comum, aqui não é nada diferente, tendo boa amizade com algum Santo influente, as coisas ficam bem mais fáceis, caso contrário...
_ Nesse meio tempo, Izaltino já pensava num bom plano para furar a fila e falar com o primeiro Santo. Podia lhe prometer muitas coisas, falar que era amigo do Santo tal e, assim que voltasse a terra, daria dinheiro para os cofres das igrejas e para todos os Santos...  O problema era furar a fila, mas para isso já estava elaborando um segundo plano, se der certo...

_ Pode me informar para que lado fica o santo?
_ Vá nessa direção que você chega lá, logo você avistará um aglomerado de almas...  Não tem erro.  Ah!  Se quiser falar comigo é só ligar.
_ Como? Aqui não tem telefone...  _ Basta você ligar o pensamento em mim e já estará sintonizado. Funciona como se você discasse um número de telefone. Então, passamos a conversar como se estivéssemos de frente um com outro.
_ Me diga uma coisa, onde tem mulher por aqui?
_ Nem pense nisso! Aqui tudo é separado, os homens não podem encontrar com as mulheres e vice-versa, entende né?...
_ Eu me sinto só, como encontrar pelo menos outras almas para um bate-papo?
_ Depois que você passar por todos os departamentos e conseguir o alvará para o regresso, receberá um passaporte para se alojar e uma ficha de identificação para aguardar em determinado lugar o grande dia de sua volta. Lá, você encontrará com muitas almas, com as quais poderá conversar à vontade.
Izaltino pensava: “Aquele pessoal lá da Terra não sabe nada deste mundo”...
_ Como é essa ficha? Pelo que percebo, aqui não tem nada disso.
_Já esqueceu que tudo está gravado na sua mente? Ao chegar, o recepcionista o identificará ao olhar diretamente para seus olhos. Depois disso, ele o conduzirá ao lugar mais adequado, de acordo com as informações de sua ficha. Para onde você for designado, as almas do lugar também terão fichas semelhantes à sua.
_ Quer dizer que se eu quiser ir para aonde você está, não vão me liberar? Afinal, você é o meu único conhecido aqui...
_ Não, a menos que sua ficha seja semelhante à minha.
_ Pôxa... a coisa aqui não é fácil... É bem mais complicado que na terra.
_ É isso mesmo, mas tem uma vantagem. Quando voltarmos à terra, teremos mais paciência para enfrentar as complicações de lá.

Izaltino despediu-se do amigo e tomou o rumo em direção ao Santo, já com idéias firmes de furar a fila, falar com o Santo e, ao mesmo tempo conseguir o alvará para voltar a Terra.

Depois de algum tempo flutuando naquela direção, avistou uma multidão e logo deduziu que era ali o departamento onde ficava o  Santo. Foi flutuando de um lado para outro disfarçadamente, passando por todas aquelas almas da fila, em direção onde julgava ser o início da fila. Quando estava quase chegando, sentindo-se satisfeito por ser mais esperto que os outros, um batalhão de vaga-lumes se aproximou dele, bradando com voz enérgica:
_ O final da fila é lá atrás, mais de mil quilômetros terrestre. Mas, como você tentou bancar o espertinho, seu lugar passa a ser ali, do outro lado, junto com quem tem que esperar pelo menos, mais cem anos para entrar na fila!
Izaltino fez uma cara de quem não gostou, mas frustrado e tristonho ocupou seu lugar no final na fila determinada, só que agora, sem nenhuma esperança de ser atendido em suas pretensões.

 Enquanto aguardava revoltado, mas pacientemente a sua vez, meditava sobre sua embaraçosa situação.
Repentinamente, surgiu à sua frente um vaga-lume, cuja luz era tão brilhante, que por um instante chegou a ofuscar seus olhos. Estarrecido, admirou aquela grandeza sem deixar de notar a grande diferença que havia entre esse e os outros que conhecera. Não sabia porque se sentia tão atraído por aquela alma singular, a qual lhe inspirava tanta confiança e simpatia.

O diferente vaga-lume parou em frente a Izaltino e, depois de algum tempo lhe falou em voz pausada e firme:
_ Porque tanto rancor e tanta ira? Os costumes daqui são diferentes. Você veio para cá iludido com as promessas vãs daqueles espertinhos de seu planeta. Jamais duvide dos mistérios deste mundo. Quando menos pensar retornará ao seu planeta para nova missão, sem que precise apelar para o seu "jeitinho". Tenha fé.
Atônito e boquiaberto, Izaltino perguntou ao seu inesperado interlocutor:
_ Hei, quem é você?
_ Apenas um amigo. Confie em mim.
_Nos veremos novamente?
_ Talvez... Quem sabe? Adeus.
Izaltino, um tanto pasmado quedou-se a admirar aquele pirilampo misterioso que já ia bem distante perdendo-se na imensidão do espaço cósmico.







 
Luiz Pádua
Enviado por Luiz Pádua em 10/09/2007
Reeditado em 10/09/2007
Código do texto: T646174
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Luiz Pádua
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